Qui-quadrado ou qui ao quadrado?

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Jul 12, 2014, 3:17:21 PM7/12/14
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qui-quadrado – “Utilizamos o Teste do Qui-quadrado”. Melhor: Utilizamos o teste do qui ao quadrado (χ2). Quiquadrado, qui-quadrado e qui quadrado são formas existentes e predominantes na linguagem médica e estatística como se observa nas páginas de busca da Internet, o que dá legitimidade ao acolhimento de qualquer uma das formas. Teste e qui são substantivos comuns que se escrevem com inicial minúscula. Escrever teste do Qui-quadrado, como substantivo comum, foge às normas ortográficas. Desejando-se destaque de um termo, podem-se usar recursos mais adequados como escrever em negrito, usar todas as letras maiúsculas, usar tipo itálico.

 

É objetável escrever chi-quadrado. É grafia desatualizada, pois a transmudação do qui (letra grega) para o português não é mais ch, senão qu, como em quiasma

 

Constata-se com facilidade que qui-quadrado ou qui quadrado são formas predominantes na literatura científica em língua portuguesa. De fato, grande quantidade indica lei do uso – evento expressivo nas línguas. Entanto, é importante focalizar qualidades quando se cogita de seleções. A grafia qui-quadrado tem influência da tradução do inglês chi-square test. Em inglês, é essa a grafia normal quando se refere a um número elevado ao quadrado: six square number (62), ten square (102). Nesse caso, parece constituir internacionalismo desnecessário, sobretudo em linguagem matemática e estatística, porquanto existem os termos equivalentes e adequados em língua portuguesa.

 

Como se verifica nos compêndios de Matemática, potenciação ou exponenciação define-se como multiplicação de um número real, denominado de base, por ele próprio x vezes, em que x é a potência. Exemplo: 42 (leia-se quatro elevado ao quadrado ou quatro elevado à segunda potência ou ainda quatro elevado a dois ou, como se diz comumente, quatro ao quadrado). Neste exemplo, é preciso multiplicar o número 4 por ele mesmo. Fica então: 4x4 = 16.

 

Em fórmula matemática, temos:  c2 = S [(o - e)2 /e], em que o é frequência observada para cada classe em estudo e e, a frequência esperada para a classe.

 

Em analogia, é usual o símbolo σ² (sigma ao quadrado) para a variância que, em inglês, se diz sigma-square e na literatura em português já existe a tradução como “sigma quadrado” como se vê nas páginas de busca da internet. A aceleração centrípeta pode também ser obtida por w2.r (ômega ao quadrado vezes o raio).

 

Em um relato estatístico didático publicado escreveu-se:

 

Eta quadrado para o preditor i. Eta ao quadrado pode ser interpretado como o percentual de variância na variável dependente que pode ser explicada pelo preditor i somente.

hi2 =

Ui


TSS

Obs.: em inglês, se diz eta square.

 

Note-se que normalmente dizemos em expressão matemática ao quadrado, ao cubo, à quarta potência e assim além. No estudo de álgebra, aprendemos xis ao quadrado, não xis-quadrado. Pode-se escrever, simplesmente, teste do χ2 e dizer: teste do qui ao quadrado, melhores expressões em textos científicos e amplamente presentes na literatura científica como se vê nas páginas de busca da internet:

 

Análise estatística foi realizada empregando o teste t de Student, o teste qui ao quadrado e o teste de correlação de Spearman (Arq. Gastroenterol. 2011;48(3):175-8).

 

Foi aplicado o teste qui ao quadrado para comparação de proporções e para a comparação de medidas contínuas entre dois grupos e foi aplicado também o teste de Mann-Whitney, com nível de significância de 5% (Arq. Gastroenterol. 2011;48(1):58-61).

 

A comparação dos grupos quanto às variáveis "sexo", "dor" e "percentual de estresse" foi realizada pelo teste do qui ao quadrado e para a variável idade foi utilizado o teste t de Student (J Bras Psiquiatr. 2009;58(4)245-1).

 

Impende refletir que a coexistência de duas maneiras para expressar a mesma coisa  pode também suscitar no leitor não afeito à estatística a impressão de que qui-quadrado é uma coisa e qui ao quadrado seria outra.  Essa ambiguidade vai em contrário à precisão necessária aos relatos científicos.

 

Se a precisão da linguagem é necessária a todos, ela é imprescindível aos pesquisadores e cientistas, já que a imprecisão é incompatível com a ciência” (Saul Goldenberg, www.metodologia.org, p. 5).

 

A grafia qui-quadrado já faz parte da linguagem médica em relatos científicos há muito, mas tal não significa que é a forma correta ou preferencial do ponto de vista gramatical normativo. A idade de um erro não lhe confere exatidão, e desconhecer e insistir em usar termos impróprios não é sinal de independência e nacionalidade, mas de desconhecimento (Hélio Wernech presidente da Comissão de Nomenclatura da Sociedade Brasileira de Anatomia, In: Nomina Anatomica, 1984, p. 33).

 

É oportuno discorrer sobre questões dignas de nota sobre traduções inadequadas de nomes internacionais. Os tradutores poderiam se aprofundar em morfologia vocabular, antes de propor neologismos questionáveis. Nasal discharge não é descarga nasal, severe anemia não é anemia severa, head injury não é injúria da cabeça. Toma-se erroneamente a analogia vocabular, mas o sentido fica forçado, artificial, antigramatical e anticientífico. Em uma publicação científica recente, aparecem dismotilidade-like, úlcera-like, DRGE-like, referentes a sintomas em pacientes dispépticos.

 

Livros traduzidos trazem numerosos nós gramaticais que tornam certos textos enganosos ou incompreensíveis. Lamentavelmente, é mais cômodo para o mau tradutor usar analogias com distorção do sentido, que pesquisar com rigor o termo equivalente em português.

 

Mais alguns exemplos com termos anglo-americanos: To assist é ajudar, não assistir; college é universidade, não colégio; educated é culto, não polido; eventually é finalmente, não eventualmente; evidence é prova, pista, não evidência; particular é específico, não particular; resume é recomeçar, não resumir; terrific é excelente e não terrível; sensible é ajuizado, não sensível; parents, pais e não parentes; traduce é caluniar e não traduzir, exquisite é excelente e não esquisito.

 

Em sequência, outras traduções mais adequadas de termos ingleses: actual (real), to assess (avaliar), comprehensive (abrangente), disturbance (doença, alteração), disorder (enfermidade, doença), diversion (desvio, alteração), effective (eficaz), faculty (corpo docente), injury (lesão), fundoplication (fundoplicatura), malignancy (neoplasia maligna ou câncer), to report (relatar), severe (grave, intenso), to support (apoiar), unique (peculiar).

 

Embora sejam os judiciosos tradutores exímios e autorizados profissionais nesse mister, é preciso suscitar a questionabilidade de sua determinação em intervir nas formas próprias da linguagem médica, condições em que teriam de se aplicar a reflexões de ampla profundidade médica e linguística para mudar os termos próprios da terminologia sobretudo a médica, eventos que deveriam ser conjuntamente contemplados por profissionais médicos.

 

Uma multitude de casos poderiam ser ainda mencionados. Os livros de semiologia ensinam tradicionalmente que os sintomas podem ser leves, moderados e graves ou intensos. Posto isso, a tradução do inglês severe para substituir grave ou intenso é interferência questionável. Inserir mesenterial, do equivalente em inglês mesenterial, em lugar de mesentérico, é também discutível. Terapia pré-emptiva em lugar de terapia pré-sintomática é tradução inadequada do inglês pre-emptive therapy, já que inexiste “emptivo” em português.

 

Comenta Rezende (J. Rezende, Linguagem Médica, 2011, p. 26) que não há mal em incorporar termos em inglês, o que enriquece uma língua. Prossegue: “O mal está na atitude de alienação de muitos autores que, pelo hábito da leitura de textos médicos em inglês usando a sintaxe daquele idioma, introduzem termos desnecessários, para os quais existem correspondentes em nossa língua, ou simplesmente adaptam morfologicamente as palavras, alterando-lhes o significado. Essa descaracterização do idioma pátrio além de prejudicar a clareza do pensamento, dificultando a comunicação, revela desamor à nossa herança cultural.” 

 

A língua portuguesa precisa ser observada conforme os padrões gramaticais elaborados ao longo de séculos de acordo com instrutos e oficialmente autorizados profissionais de letras, e as traduções precisam seguir os cânones normativos em relatos formais sobretudo os científicos sob pena de imperfeições egressas de traduções questionáveis venham a despadronizar o vocabulário e a ortografia da língua pátria. A busca do aperfeiçoamento não poderia ser um estilo objetável.

 

Assim, a expressão qui-quadrado configura tradução inadequada do inglês chi-square, questionável como termo técnico científico bom para nossa língua, porquanto o que aprendemos na escola é ao quadrado, não -quadrado. Os internacionalismos são muito úteis e bem-vindos como acréscimos naturais e sadios aos idiomas. Observa-se que a língua portuguesa é a língua latina com profundas modificações gráficas e fonéticas que ocorreram ao longo dos séculos e conta com a inserção de vastíssima multitude de termos estrangeiros de origem variada, fato que continua a ocorrer atualmente. mas podem frequentemente ser tomado como submissões injustas as formas internacionais desnecessariamente substutivas dos nossos termos de casa e, o que é mais contundente, quando estes últimos são considerados errôneos.

 

Em conclusão, chi-quadrado e qui ao quadrado são, ambos, termos existentes na língua e, assim, podem ser usados legitimamente. Como termo técnico e preferencial, mas não exclusivo, qui ao quadrado, porém, é a forma que mais se conforma aos usos tradicionais da  língua portuguesa.  

 

Simônides Bacelar

Brasília, DF

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