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Progredir para
No acervo médico literário, são comuns usos como “A lesão progrediu para neoplasia”, “O paciente apresentou instabilidade hemodinâmica progredindo para hipotensão e choque”, “Em 10 a 20% dos casos os pacientes têm evolução para um quadro clínico mais grave, progredindo para insuficiência respiratória aguda”, “Aproximadamente um terço dos casos progride para leucemia aguda”. “Maioria dos pacientes controla a infecção e não progride para doença tardia”.
“Progredir para” é regência inexistente no padrão culto. Progredir, no sentido de avançar, é intransitivo: Os estudos progrediram. O tratamento progrediu, e o doente foi curado.
No sentido de evolver, evoluir, também é intransitivo: A pesquisa está progredindo. A doença progrediu e produziu uma neoplasia.
No sentido de desenvolver-se, adiantar-se é transitivo indireto, com uso da preposição em: Progrediu nos estudos.
Desse modo, a frase em questão seria: A lesão progrediu e formou uma neoplasia.
Além disso, a expressão “As pacientes progrediram para o câncer” contrapõe-se ao sentido de positividade do verbo progredir, o que o torna paradoxal. De fato a doença passou a ser câncer, não exatamente as pacientes, pois são estas as portadoras da lesão, não a própria lesão.
Em redação científica, é importante o uso da precisão de sentidos. A construção “progrediu para” pode ter influência do inglês progressed to como tradução questionável: The disease progressed to an advanced stage. The lesion progressed to malignancy.
É oportuno acrescentar que a regência “progredir para” é comum na literatura médica e, embora seja empréstimo da língua inglesa e ausente do registro padrão, facilita a tradução do inglês para o português. Entretanto, se pode usar malignizar ou haver malignização. Em lugar de “A hiperplasia progrediu para o câncer”, pode-se dizer “Houve malignização da hiperplasia”.
Simônides Bacelar Brasília, DF | |||
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