Sobre trauma e traumatismo

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Nov 29, 2014, 11:21:41 AM11/29/14
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Trauma – traumatismo

 

Do grego traúma, traumatós, ferimento, ferida, avaria, os dicionaristas averbam esses termos como sinônimos. Mas, a rigor, há diferença de acepção: -ismo indica condição, estado, moléstia (C. Goes, Diccionario de affixos e desinencias, 1930), ligação com. Traumatismo há de indicar um  estado em que há trauma, em consideração a, praticamente, todos de nomes terminados em -ismo que se originam de adjetivos e substantivos – e há centenas destes. Dinamismo é a condição em que ocorrem atos dinâmicos. Ufanismo, condição em que ocorre orgulho exacerbado.

 

O sufixo -ismo procede do sufixo grego –ismós, que designa ação de verbos terminados em -izo (katekhizo>katekhismós), segundo o Houaiss (2001) e traumatismós é ação de ferir, mas traúma designa a própria ferida, a lesão. Portanto, os étimos indicam diferença de significado, o que pode ser seguido em português. Mas atualmente, em português, indica muitas outras condições, acima citadas. Em medicina, pode indicar intoxicação (alcoolismo, hidrargirismo, eterismo, ictismo, ofidismo). Também indica movimentos políticos (janismo, franquismo, despotismo, marxismo), religiosos (cristianismo, budismo, induísmo) e outros. É escusado usar traumatismo, nome mais longo, em lugar de trauma, assim como brilhantismo, colaboracionismo, indiferentismo, em lugar de brilho, colaboração, indiferença e em casos similares se tiverem o mesmo significado.

 

O uso de ismos desnecessários denota mau gênero de expressão (A. de Campos, Glossário de incertezas, novidades, curiosidades da língua portuguesa, e também de atrocidades da nossa escrita actual,1938, p. 174). “Os -ismos se tornaram uma verdadeira praga cada vez mais difundida atualmente. No grego, esse sufixo era bastante raro; nós é que parece não podermos prescindir dele” (H. Störig, A aventura das línguas, uma história dos idiomas do mundo, 2003, p. 82).

 

Pode-se dizer politrauma, tocotrauma, trauma abdominal fechado, trauma craniencefálico. Por coerência, pode-se dizer tromboembolia (por tromboembolismo), parasitose (por parasitismo), dinamia (por dinamismo), retrognatia (por retrognatismo), histeria (por histerismo). O sufixo grego -ia também indica afecção, como em disfonia, anemia, dispepsia, pneumonia e não há necessidade de mudar para  (disfonismo, anemismo, pneumonismo.

 

Entre bons dicionaristas médicos, encontram-se definições diferenciadas, emboram estabeleçam trauma e traumatismo como sinônimos.De acordo com L. Rey, trauma significa lesão local produzida por uma ação produzida por uma ação violenta externa; traumatismo, conjunto de manifestações locais e gerais produzidas por uma violência exteriorsobre qualquer parte do organismo (Dic. de Termos Técnicos de Medicina e Saúde, 2003). Em seu Dicionário de Medicina Legal, E. Zacharias (1991)  dá registro de trauma de acordo com seu significado grego -- ferida, avaria e traumatismo, como condição, estado. Acrescenta "por extensão, aplica-se o termo , também, aos danos psíquicos causados por emoções violentas". Em  A. Cancellara (Dizionario Medico, Roma, sem data), trauma significa, em sentido próprio ou primeiro, lesão do corpo, em particular, ferida resultante de uma força externa, e traumatismo, estado físico ou psicológico causado por um trauma. Em J. Quevauvilliers (Dicct. Médical, Paris, 2004), trauma é a lesão produzida sobre uma região do organismo por uma ação externa violenta, e traumatismo, conjunto de manifestaçõeslocais ou geraisprovocada por uma ação violenta sobre o organismo. No Climepsi, Dicionário Médico (Lisboa, 2012), trauma é lesão produzida localmente por uma ação violenta externa, e traumatismo, conjunto de manifestações locais ou geral provocadas por uma ação violenta contra o organismo. No Oxford  Concise Medical Dictionary (New York, 2003), registram-se trauma como ferida física como uma fratura ou golpe violento, e omite traumatismo. O Dorlands Illustrated Medical Dictionary, Philadelphia, 2013), dá trauma como ferida (injury), e traumatismo como estado físico ou psíquico resultante de uma ferida ou lesão causada geralmente por força externa (injury).

 

Convém evitar ambiguações em relatos científicos e é praxe universal os dicionaristas indicar como o sentido próprio de um termo o registro número um nos verbetes. Em muitos bons autores sobre metodologia de pesquisa depara-se com recomendações de usar o sentido denotativo das palavras em lugar de sentidos conotativos (figurativos, por extensão, metonímias, metáforas, gírias, modismos, idiotismos [no sentido próprio dessa palavra]). Em nenhum dicionário que consultei, trauma tem significado denotativo de trauma psíquico. Tal sentido é sempre secundário, conotativo, fato que contraria as normas da redação científica.   

 
Tendo em vista o exposto, do ponto de vista linguístico e do uso geral, trauma e traumatismo são sinônimos, como se depara na literatura em geral. No entanto, em redação científica formal, recomenda-se usar os termos em seu sentido próprio de acordo com a análise etimológica, assim como estudos dos sentidos diacrônicos e sincrônicos das palavras de modo que seu uso não seja motivo de questionamentos, ambiguidades, obscuridades, sobretudo em relatos científicos, para evitar interpretações diferentes do pensamento do autor e, em consequência,  sobretudo em medicina, o uso danoso para o doente e mesmo para o próprio médico.
 
 
Simônides Bacelar
Brasília, DF



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