Sobre a forma qui-quadrado

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Simônides Bacelar

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Jan 21, 2012, 6:46:22 PM1/21/12
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Qui-quadrado – “Utilizamos o Teste do Qui-quadrado”. Melhor: Utilizamos o teste do qui ao quadrado (χ2). Quiquadrado, qui-quadrado e qui quadrado são formas existentes e predominantes na linguagem médica e estatística como se observa nas páginas de busca da Internet, o que dá legitimidade ao uso de qualquer uma das formas. Teste e qui são substantivos comuns que se escrevem com inicial minúscula. Escrever teste do Qui-quadrado foge às normas ortográficas. Desejando-se destaque de um termo, podem-se usar recursos mais adequados como escrever em negrito, usar todas as letras maiúsculas, usar tipo itálico.

 

É repreensível escrever chi-quadrado. É grafia desatualizada, pois a transmudação do qui (letra grega) para o português não é mais ch, senão qu, como em quiasma

 

Constata-se com facilidade que qui-quadrado ou qui quadrado são formas predominantes na literatura científica em língua portuguesa. Todavia, grande quantidade nem sempre indica boa qualidade. A grafia qui-quadrado tem influência da má tradução do inglês chi-square test. Em inglês, é essa a grafia normal quando se refere a um número elevado ao quadrado: six square number (62), ten square (102). Nesse caso, parece constituir internacionalismo desnecessário, sobretudo em linguagem matemática e estatística, porquanto existem os termos adequados em língua portuguesa.

 

Como se verifica nos compêndios de Matemática, potenciação ou exponenciação define-se como multiplicação de um número real, denominado de base, por ele próprio X vezes, em que X é a potência. Exemplo:  42 (leia-se quatro elevado ao quadrado ou quatro elevado à segunda potência ou ainda quatro elevado a dois). No exemplo, é preciso multiplicar o número 4 por ele mesmo. Fica então: 4x4 = 16.

 

Fórmula matemática c2 = S [(o - e)2 /e], em que o é frequência observada para cada classe em estudo e e, a frequência esperada para a classe.

 

Em analogia, é usual o símbolo σ² (sigma ao quadrado) para a variância que, em inglês, se diz sigma-square e na literatura já existe a tradução como “sigma quadrado” como se vê nas páginas de busca da internet. A aceleração centrípeta pode também ser obtida por w2.r (ômega ao quadrado vezes o raio). No estudo de álgebra, aprendemos xis ao quadrado, não xis-quadrado.

 

Em um relato estatístico didático publicado escreveu-se:

 

Eta quadrado para o preditor i. Eta ao quadrado pode ser interpretado como o percentual de variância na variável dependente que pode ser explicada pelo preditor i somente.

hi2 =

Ui


TSS

Obs.: em inglês, se diz eta square.

 

Note-se que normalmente dizemos em expressão matemática ao quadrado, ao cubo, à quarta potência e assim além. Pode-se escrever, simplesmente, teste do χ2 e dizer: teste do qui ao quadrado, melhores expressões em textos científicos e amplamente presentes na literatura científica como se vê nas páginas de busca da internet:

 

Análise estatística foi realizada empregando o teste t de Student, o teste qui ao quadrado e o teste de correlação de Spearman (Arq. Gastroenterol. 2011;48(3):175-8).

 

Foi aplicado o teste qui ao quadrado para comparação de proporções e para a comparação de medidas contínuas entre dois grupos e foi aplicado também o teste de Mann-Whitney, com nível de significância de 5% (Arq. Gastroenterol. 2011;48(1):58-61).

 

A comparação dos grupos quanto às variáveis "sexo", "dor" e "percentual de estresse" foi realizada pelo teste do qui ao quadrado e para a variável idade foi utilizado o teste t de Student (J Bras Psiquiatr. 2009;58(4)245-1).

 

É preciso refletir que a coexistência de duas maneiras para expressar a mesma coisa  pode também suscitar no leitor não afeito a estatística a impressão de que qui-quadrado é uma coisa e qui ao quadrado seria outra.  Essa ambiguidade vai em contrário à precisão necessária aos relatos científicos. Se a precisão da linguagem é necessária a todos, ela é imprescindível aos pesquisadores e cientistas, já que a imprecisão é incompatível com a ciência (Saul Goldenberg, www.metodologia.org, p. 5).

 

A grafia qui-quadrado já faz parte da linguagem médica em relatos científicos há muito, mas tal não significa que é a forma correta ou preferencial do ponto de vista gramatical normativo. A idade de um erro não lhe confere exatidão, e desconhecer e insistir em usar termos impróprios não é sinal de independência e nacionalidade, mas de desconhecimento (Hélio Wernech presidente da Comissão de Nomenclatura da Sociedade Brasileira de Anatomia, In: Nomina Anatomica, 1984, p. 33).

 

É oportuno discorrer sobre questões dignas de nota sobre traduções inadequadas de nomes internacionais. Os tradutores poderiam se aprofundar em morfologia vocabular, antes de propor neologismos questionáveis. Nasal discharge não é descarga nasal, severe anemia não é anemia severa, head injury não é injúria da cabeça. Toma-se erroneamente a analogia vocabular, mas o sentido fica forçado, artificial, antigramatical e anticientífico. Em uma publicação científica recente, aparecem dismotilidade-like, úlcera-like, DRGE-like, referentes a sintomas em pacientes dispépticos.

 

Livros traduzidos trazem numerosos nós gramaticais que tornam certos textos enganosos ou incompreensíveis. Lamentavelmente, é mais cômodo para o mau tradutor usar analogias com distorção do sentido, que pesquisar o termo equivalente em português.

 

Mais alguns exemplos com termos anglo-americanos: To assist é ajudar, não assistir; college é universidade, não colégio; educated é culto, não polido; eventually é finalmente, não eventualmente; evidence é prova, pista e não evidência; particular é específico, não particular; resume é recomeçar, não resumir; terrific é excelente e não terrível; sensible é ajuizado, não sensível; parents, pais e não parentes; traduce é caluniar e não traduzir, exquisite é excelente e não esquisito, stage é palco e não estágio.

 

Em sequência, outras traduções mais adequadas de termos ingleses: actual (real), to assess (avaliar), comprehensive (abrangente), disturbance (doença, alteração), disorder (enfermidade, doença), diversion (desvio, alteração), effective (eficaz), faculty (corpo docente), injury (lesão), fundoplication (fundoplicatura), malignancy (neoplasia maligna ou câncer), to report (relatar), severe (grave, intenso), to support (apoiar), unique (peculiar).

 

Embora sejam os judiciosos tradutores exímios e autorizados profissionais nesse mister, é preciso suscitar a questionabilidade de sua determinação em intervir nas formas próprias da linguagem médica, condições em que teriam de se aplicar a reflexões de ampla profundidade médica e linguística para mudar os termos próprios da terminologia sobretudo a médica, eventos que deveriam ser conjuntamente contemplados por profissionais médicos. Uma multitude de casos poderiam ser ainda mencionados. Os livros de semiologia ensinam tradicionalmente que os sintomas podem ser leves, moderados e graves ou intensos. Assim, a tradução do inglês severe para  substituir grave ou intenso é interferência questionável. Inserir mesenterial, do equivalente em inglês mesenterial, em lugar de mesentérico, é também discutível. Terapia pré-emptiva em lugar de terapia pré-sintomática é tradução inadequada do inglês pre-emptive therapy, já que inexiste “emptivo” em português.

 

Comenta Rezende (J. Rezende, Linguagem Médica, 2011, p. 26) que não há mal em incorporar termos em inglês, o que enriquece uma língua. Prossegue: “O mal está na atitude de alienação de muitos autores que, pelo hábito da leitura de textos médicos em inglês usando a sintaxe daquele idioma, introduzem termos desnecessários, para os quais existem correspondentes em nossa língua, ou simplesmente adaptam morfologicamente as palavras, alterando-lhes o significado. Essa descaracterização do idioma pátrio além de prejudicar a clareza do pensamento, dificultando a comunicação, revela desamor à nossa herança cultural.” 

 

A língua portuguesa precisa ser observada conforme os padrões gramaticais elaborados de acordo com instrutos e oficialmente autorizados profissionais de letras, e as traduções precisam seguir os cânones normativos em relatos formais sobretudo os científicos sob pena de imperfeições procedentes de traduções questionáveis venham a despadronizar o vocabulário e a ortografia da língua pátria. A busca do aperfeiçoamento não poderia ser um estilo objetável.

 

Somõnides Bacelar

brasília, DF

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