O Que a Arte Espírita precisa do Espírita?
Com apelo crescente, o Movimento Espírita Brasileiro busca alternativas para a difusão da Doutrina pelo Brasil. Não raro vemos ou ouvimos a frase atribuída a Emmanuel: “a maior caridade que podemos fazer pelo Espiritismo é a sua divulgação”. Entretanto, tal frase não é encontrada em nenhum livro desse autor espiritual, exceto no livro “Estude e Viva”, com psicografia de Chico Xavier em que semelhante expressão é adotada fora de contexto. De qualquer modo, como a expressão é utilizada de forma recorrente, tomaremos como referência ao propósito deste artigo.
Durante muito tempo os espíritas de diversas formas artísticas atuaram em um terreno árido, desértico e praticamente inóspito. Carregavam a fama de baderneiros, obsidiados e uma gama de maldizeres por se atreverem a fazer arte com temas referentes à Doutrina Espírita. Hoje, em grande parte do país, tal má fama não ecoa mais, entretanto, a Arte Espírita permanece desconhecida de grande parte do público espírita, apesar de contarmos com artistas talentosíssimos em nosso meio.
Como editor do Acervo Espírita, acompanho mais de perto o movimento da música espírita e, durante muito tempo, as pessoas se valiam do argumento de que as produções musicais espíritas eram de baixa qualidade e que, por esse motivo, não adquiriam os CDs.
Ainda que o argumento da qualidade tenha sido pertinente, a motivação foi válida? Os CDs, LPs e K7s mais antigos, lançados pela vanguarda da música espírita, e até um tempo bem recente por novos artistas espíritas possuíam preço simbólico e sua renda de modo geral foi destinada a alguma instituição espírita. Não adquirir um produto que possui valor simbólico, cuja renda será destinada ao Espiritismo, por uma questão de qualidade na produção, pode ter lógica, mas não é apenas seletividade, é também egoísmo. A seletividade tira a receita pretendida pela instituição beneficiada e pode comprometer seus trabalhos.
Entretanto, hoje estamos experimentando um novo momento das produções artísticas no meio espírita. Músicos produzem seus CDs gastando fábulas de dinheiro. Atores, dançarinos, coreógrafos preparados fazem altos investimentos em espetáculos teatrais e de dança com valores pouco convencionais para pessoas que, muitas vezes, tiram os investimentos de seus próprios bolsos.
E qual resultado tal iniciativa tem provocado, além de produtos de melhor qualidade? Quase nenhum! Os produtos espíritas continuam não vendendo. As instituições para onde as receitas seriam destinadas continuam a mingua de um recurso que não chega. E qual a justificativa para isso senão o “bom e velho” egoísmo?
Salas de teatro (exceto em eventos com atores globais) permanecem vazias gerando prejuízos a artistas e frustração aos possíveis beneficiários da receita do evento. CDs com produção invejável, não vendem o esperado gerando mais prejuízo e frustração. Se a questão era antes de qualidade, hoje a desculpa ou motivação para não se adquirir produtos ou ingressos para iniciativas da arte espírita é o preço.
Ora, vejamos! Os CDs espíritas custam em média R$ 20,00 e ingressos para eventos (sem a presença de atores globais) giram na mesma faixa de valores. Os espíritas que reclamam e protestam com desses preços são os mesmos que no dia seguinte adquirem ingressos para shows de bandas de renome nacional por valores dezenas de vezes maiores. De repente o problema deixa de ser o preço e se transforma em hipocrisia, pura e simples.
O espírita (em regra geral) está acomodado e não se empenha em divulgar a própria Doutrina. Está fechado em seu mundo e não se preocupa em ajudar aquele a quem chama de irmão a divulgar suas iniciativas. A grande maioria dos espíritas hoje esquenta o banco dos salões da casa espíritas, permanecendo inócuos a gama de aprendizados que poderiam experimentar se ajudassem os trabalhadores espíritas de forma solidária e fraterna.
“A maior caridade que podemos fazer pelo Espiritismo é a sua divulgação”. Tal citação, existindo ou não, estando correta ou não, possui validade ao nosso cenário atual. O espírita tem OBRIGAÇÃO de apoiar a divulgação da Doutrina Espírita. Se um artista não é conhecido, busque conhece-lo, divulgue-o, torne-o conhecido. Se uma peça de teatro ou dança nunca veio a sua cidade, compre os ingressos, compareça, faça o trabalho espírita valer a pena, apoie e dê a oportunidade de mostrarem como a arte pode ser maravilhosa na divulgação do Espiritismo. A apatia é irmã do comodismo e companheira fiel do egoísmo.
O Espírita minimamente interessado na expansão da Doutrina Espírita tem por dever, apoiar, auxiliar, divulgar e fomentar todo trabalho de artístico que guarde pertinência doutrinária com os conteúdos doutrinários. Somente com a união de todos no ideal de divulgação teremos um Espiritismo forte, sem ataques preconceituosos e sem ações tímidas tanto no campo artístico, quando no campo social.
Dirigentes, casas, regionais e federativas não podem arcar com essas tarefas sozinhas. Essas instituições e pessoas podem e devem fomentar diversas iniciativas, mas, a execução dos trabalhos, bem como um apoio que realmente gere frutos para a divulgação da Doutrina Espírita depende do esforço de cada um, de cada espírita que adentra os salões das reuniões doutrinárias. É preciso tirar divulgação espírita do papel, parar de reclamar do que é feito e do que não é feito e, cada um, fazer a sua parte. Somente com união construiremos um futuro mais próspero para nossa Doutrina Espírita.
Abraços fraternos,
Gabriel de Oliveira Mathias
Administrador do site Acervo Espírita