O XXVI Escambo Popular Livre de Rua entra para a história dos Escambos como um dos mais importantes acontecimentos desse movimento que, ano que vem, completa duas décadas. Antes de qualquer coisa porque é revelador do quanto podemos realizar, de como não podemos largar mão da esperança na juventude e da fé na arte popular e na produção cultural das periferias das cidades, principalmente das capitais. Já havíamos feito isso de forma menos intensa e menos organizada no Morro de Mãe Luiza em Natal-RN, durante o V Escambo. Na verdade passamos por lá um dia. Agora não, fomos para dentro da comunidade, nos concentramos e nos alojamos no âmago do território onde os escambistas anfitriões lutam por uma vida digna a partir da arte.
O Pici como toda periferia é um lugar mais difundido e conhecido por força dos meios de comunicação como periferia da morte, da criminalidade, fonte de violência e barbárie. O Escambo inverte essa lógica e, de repente, o mesmo bairro aparece para a cidade como espaço de produção de alegria, de esperança, de cidadania cultural. O que vimos e sentimos na medida em que passávamos em cortejo pelas ruas estreitas do Pici no primeiro dia de atividade do XXVI Escambo foi uma recepção calorosa da população repleta de uma atmosfera de felicidade, de orgulho de seus artistas e respeito aos visitantes de outras cidades do ceará, do nordeste e outros estados do Brasil, como Brasília e Rio Grande do Sul. Uma demonstração clara da farsa montada por parte das elites da sociedade brasileira para criminalizar e culpabilizar os menos favorecidos pelo que há de errado, pelos descalabros e estragos que fazem há mais de 500 anos com ambiente, com as riquezas naturais, com os recursos públicos, com a imagem do Brasil e dos brasileiros. É aí que percebemos claramente que a tão badalada violência cotidiana que alimenta programas de tv, rádios, seções de jornais e revistas, blogs e outros multimeios é produzida fora, muito longe dali da periferia. A periferia pode ser no máximo reprodutora, multiplicadora da violência. Como se repete a moda, o corte de cabelo, o piercing, a tatuagem vista na tv, na internet, etc. repete-se o modo de ser e agir das tecnologias refinadas de violência exibidas, diga-se de passagem, com um didatismo absolutamente perfeito pela mídia. Tecnologias essas que vão da economia à cultura, da linguagem à expressão e ao exercício prático com demonstração de “fatos reais ao vivo e em tempo real.” Portanto, a produção de violência vem das elites, do poder de capital, da concentração de riquezas e poder nas mãos de poucos, da exploração do trabalho, do abandono das crianças e das juventudes que, sem ter o que fazer nem para aonde ir, tomam seus rumos de acordo com as circunstâncias, escolhendo na maioria das vezes aquilo que lhes parece mais atraente e pode combinar aventura com alguma forma de renda ou sobrevivência material.
Um homem faminto[1]
Não funciona
Um rei sacana
Um rei na cama
Um rei com fome
Não funciona
Um rei faminto
Não reina
Um homem com fome
Claro ou escuro
Com cama ou sem cama
Reina
Quer matar quer morrer
Um bicho sente fome
Como homem
Uma árvore sente
Como homem
Fome é coisa de quem tá vivo
Fome é coisa dos ricos
Seguindo tal raciocínio, degradação, desigualdade, violência é coisa das elites. E o Movimento Escambo nesses termos é não só contra-hegemônico como anticentrista. Não acreditamos nem concordamos que deve haver um centro e suas periferias, mas centralidades que se movimentam constantemente com seus focos-olhares-práticas-atitudes-pensares diferenciados. O Pici, para nós neste momento, é a centralidade, a cultura popular em plena moviment-ação na capital cearense. É o olhar coletivo das gentes, refletindo e expressando em conjunto sua potência transformadora, revolucionária; a sonhação verdadeira, o verbo que se conjuga no próprio ato do imediato futuro. XXVI Escambo Popular Livre de Rua com a vida que segue no Pici.
Ray Lima
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"SE ESCAMBO É TROCA EU TAMBÉM QUERO TROCAR"
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