o debate interessa a mim, por isso compartilho
mas acho que interessa a outros tbém
eu sigo na minha onda de pensar que não precisamos ser o laranja da parada
- por isso não dá pra celebrar ingenuamente a matéria
beijos!
Artistas do Rio defendem uma "estética carioca"
SILAS MARTÍ
ENVIADO ESPECIAL AO RIO
Num apartamento no Leme, janelas abertas à brisa do mar da zona sul do
Rio, um artista e professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage
define o que entende por uma "estética carioca".
"Se existe uma pesquisa de ponta na arte brasileira, ela está no Rio",
diz Franz Manata, entre goles de uísque. "Tem essa linhagem clara, de ir
para a rua, esse projeto que herdamos do Hélio Oiticica, uma
intensidade violenta."
Faz mais de meio século que a rixa entre paulistas e cariocas ganhou
nome com o neoconcretismo de Oiticica, Lygia Clark, Lygia Pape e afins
contra o concretismo --paulista-- dos irmãos Augusto e Haroldo de
Campos.
|
Thiago Cristaldi Carlan/Divulgação |
|
![Artistas do coletivo Opavivará, o curador Bernardo Mosqueira e a dupla Saulo Laudarese Franz Manata]() |
| Artistas do coletivo Opavivará, o curador Bernardo Mosqueira e a dupla Saulo Laudarese Franz Manata |
Agora, essa rivalidade sobrevive, opondo uma cena pautada pelo mercado
em São Paulo a propostas de arte mais experimentais no Rio.
Enquanto o dinheiro se concentra quase todo de um lado da ponte aérea
--Fortes Vilaça, Millan e Luisa Strina, as maiores galerias do país,
fazem "business" em SP--, as estrelas brasileiras na cena global hoje
trabalham no Rio --Adriana Varejão, Beatriz Milhazes, Ernesto Neto, Vik
Muniz e Tunga, entre outros.
Mas, além deles, uma nova cena desponta, de artistas ainda
despreocupados com o mercado, engajados em performances que cruzam
estética e política e defensores de um hedonismo vistoso, que resiste à
ideologia da Operação Choque de Ordem, da atual administração carioca.
Em rodinhas na calçada, entre a "miséria e a burguesia" muito próximas
uma da outra no tecido urbano do Rio, artistas e ativistas costumam
tramar seus planos, que vão de exposições a manifestações, debates e
estratégias para chamar a atenção.
"Somos um sucesso de público e um fracasso de vendas", diz Pedro Victor
Brandão, jovem artista que ficou conhecido por criar fotografias que se
apagam com o passar do tempo. "Aqui tem uma rede de afetos, um ritmo
mais cooperativo do que competitivo, algo que envolve o galerista, o
artista e a instituição numa trama mais fértil."
Dessa fertilidade brotou o projeto que ele e os artistas do coletivo
Opavivará mostraram na primeira edição da ArtRio no ano passado, uma
tenda que servia chás alucinógenos em plena feira. Não ficou vazia nem
um minuto, mas tampouco chegou a ser arrematada por algum dos
colecionadores mais alegres.
Mesmo assim, o total de vendas da feira bateu recorde no país, com um
balanço de R$ 120 milhões que causou inveja entre paulistas, sinal de
que logo as águas calmas do mercado carioca podem engrossar em tormenta.
"Às vezes, a presença forte do mercado dá uma obliterada no que
acontece", diz Brandão. "Aqui tem uma experimentação maior e obras são
menos formatadas, mas tem o caos das Olimpíadas e da especulação
imobiliária", diz o artista Daniel Toledo.
Nessa alta de preços, Toledo teve de trocar um amplo ateliê em Santa Teresa por um "cubículo" no Humaitá.
FACTORY CARIOCA
Mais radical, Maíra das Neves, paulistana que adotou o Rio, criou um
ateliê minúsculo, de um metro quadrado, numa antiga fábrica de doces e
bancou a ocupação do terreno com doações de amigos.
"Queria usar a unidade mínima do mercado imobiliário para fazer o
máximo", diz Das Neves, ajustando cadeiras penduradas sobre seu metro
quadrado, onde costuma servir cachaça aos amigos. "Encontrei um espaço
aqui que não tive em São Paulo, as instituições são mais descontraídas e
não tem tanta pressão."
Ela divide com outros 21 artistas o espaço da Bhering, uma antiga
fábrica de chocolate na zona portuária convertida em conjunto de
ateliês, uma espécie de Factory de Andy Warhol à moda carioca, com
direito a churrasco nas festinhas de aniversário.
"Enquanto o mercado sempre foi em São Paulo, aqui você fica meio sem
rumo", diz Barrão, do coletivo Chelpa Ferro, que também trabalha na
fábrica. "E isso é bom."
Nessa falta de rumo, artistas ainda sem galeria e sem ateliê conseguem
emplacar suas obras em grandes acervos lidando direto com os
colecionadores, evitando a mediação --cara-- de galerias.
Gilberto Chateaubriand, patrono do Museu de Arte Moderna do Rio, é um
desses que compram direto dos artistas, às vezes levando a obra debaixo
do braço.
"Nem sei quanto vale meu trabalho, os artistas aqui estão envolvidos com
a experiência de sair fazendo", conta Isabela Sá Roriz. "Mesmo com
trâmites burocráticos e falta de estrutura, você faz funcionar", diz
Felipe Braga.