Jamais Te Esquecerei

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Alysha

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Aug 4, 2024, 11:57:24 PM8/4/24
to missingchengsal
Separa os filhos, quase sempre, e, como me aconteceu, verdadeiramente impossvel dizer se gostam mais de qualquer um dos seus progenitores, tal como o inverso deve ser verdadeiro, logicamente quando existe mais do que um filho, e isso senti desde sempre, quer nessa qualidade, quer como irmo, pai ou av, a ligao me, tem algo de muito prprio que nenhum pai deve deixar de reconhecer intuitivamente sem ponta de cime, mas antes com a maior naturalidade possvel.

Por tal, ir-me-ei servir de mais umas quantas histrias para contextualizar adequadamente o futuro leitor e os presentes nesta cerimnia, permitindo que entendam melhor o autor, a sua criao literria e as respetivas motivaes.


Comearia por dizer que este , na sua gnese, semelhana dos dois livros que anteriormente escrevi, uma verdadeira improbabilidade, pois, nenhum deles foi preconcebido, mas antes fruto de circunstncias furtuitas acerca das quais uma torrente incontrolada de energia anmica emergiu das minhas profundezas. O primeiro, seguiu-se a umas frias de sonho que passei com a Ana no paraso idlico da Ilha de Prncipe no arquiplago de S. Tom. O segundo, foi como que uma tbua de salvao para no sucumbir ao avassalador impacto da pandemia. Este, resultou de uma srie de coincidncias que tiveram como pano de fundo os ltimos seis meses de vida da minha Me, onde a sua escrita me impediu de ter sido trucidado pela incerteza do momento em que iria efetivamente falecer, bem como pelo sofrimento que testemunhei que a acompanhou nesse longo calvrio, onde, para alm dos opiceos, s a minha assdua presena, a intermitente visita de alguns familiares e amigos chegados, e, decisivamente importante, a competncia e o humanismo de quem dela tratou e cuidou, impediu que isto se tivesse tornado em algo completamente insuportvel. Para ambos. Pessoas que tambm convidei para estarem presentes, que ao verem-me a escrever dia atrs de dia e ao som de msica, me perguntaram se no seria um livro sobre a minha Me, a que respondi, nessa altura, que no, pois tal conscincia, s depois adquiriu forma.


Passando agora s histrias, comearia por lembrar o meu av Severo Martins, pai da minha me. Faleceu em sua casa com grande sofrimento, vtima de uma neoplasia da prstata, agonia que acompanhei distncia e com a conscincia prpria de um adolescente no final da primeira dcada da sua vida. Antes da doena que o vitimou, lembro-me de ter vindo ficar uns dias na casa dos meus pais, em Coina, para ir consultar um neurologista a Lisboa, no intuito de tentar aliviar a sua neuralgia ps-herptica consequente a um zster do nervo trigmeo, dado que no encontrava alvio com o tratamento que recebera dos mdicos que consultara no Porto.


Soube, recentemente, pelo meu primo / irmo Joo Nuno, que convidei, que depois disso, como a situao clnica no tivesse ficado resolvida, certamente na esperana de buscar algum alvio algures, foi ainda consultar um mdico a Londres, embora nem assim se conseguisse ver livre daquele terrvel mal. Lembro-me perfeitamente que exibia um fcies deformado como consequncia das sequelas dessa infeo que tivera alguns anos antes. Bem como de ter sempre um semblante carregado, certamente revelador da dor permanente e muito incomodativa de que nunca mais se veria livre. Recordo-me, ainda, que no tinha dois dedos da mo esquerda, dado que tivera um acidente com uma arma de caa uns quantos anos antes de ter tido a zona, o que era sempre uma coisa que impressionava muito uma criana, ao ponto de ser a sua caracterstica fsica de que me lembro desde que tenho conscincia de existir.


Uma certa altura, penso que numa das festas de Natal na casa da Margarida, a sua filha mais velha, onde toda a famlia tinha o hbito de ir festejar esta quadra, virou-se para mim e surpreendeu-me de uma forma que jamais esquecerei, ao perguntar-me, no sei com que intuito ou por qu motivado, qual a razo de eu ter, segundo a sua avaliao, uma cara sempre to triste. No me recordo se lhe respondi, nem o qu, sendo possvel que apenas o entreolhasse com um ar surpreendido, mas, dou comigo, volta e meia, a pensar neste episdio, concluindo, como muitas vezes me voltou a acontecer depois, que no raramente sou mal interpretado, pois a minha natural postura de relativa reserva ao primeiro contacto com algum, leva os outros a tomarem-me pelo que vm posteriormente a verificar que no sou na realidade.


Sem nunca o ter consciencializado, a no ser quando estava a comear de escrever este texto h uma quantas semanas atrs, talvez que, ter tido este contacto com o sofrimento do meu av, tenha contribudo, de uma forma indireta, para ser a pessoa e o mdico que sou, nunca indiferente a quem necessita de ajuda e de solidariedade, buscando incessantemente meios de o minorar, bem como em refletir acerca da capacidade de resposta dos servios de sade, tal como do prprio Sistema em si mesmo.


Foi certamente imbudo desse esprito, que decidi organizar h dois anos, uma Viglia Ecumnica a favor das vtimas da guerra da Ucrnia, tal o impacto que este acontecimento teve em mim, bem como de me ter espontaneamente disposto a receber uma famlia na minha casa durante quase meio ano, e, ainda, de doar cento e cinquenta livros, cuja venda reverteria integralmente para ajudar os refugiados, como contei no Discurso que a proferi e que integra este livro. Postura que mereceu todo o apoio incondicional da Ana. A famlia Rodzeri, que convidei a aqui vir e de quem me tornei amigo para o resto da minha vida, faz parte do conjunto de pessoas a quem o dedico.


Mais recentemente, aquando de um encontro propiciado pela iniciativa de um amigo / irmo, o Artur Esteves, que tambm foi convidado, voltei ao contacto telefnico com um amigo comum, o Joo, ao fim de quase quatro dcadas de interregno, e, de ter ficado a saber, no dia seguinte, que passara parte dessa madrugada num bunker, dado o soez ataque de que alguns compatriotas da sua esposa e filhas, coincidentemente de passagem por Portugal nesse dia, foram vtimas em Israel, onde vivem nas imediaes da cidade capital, h alguns anos. Comecei imediatamente a escrever um texto na minha cabea, passado ao papel alguns dias depois e transformado numa carta aberta ao Primeiro-Ministro do meu Pas, que publiquei, pois, foi a forma que encontrei de expelir a minha revolta pelo facto de ter assistido, distncia, a mais um ato inqualificavelmente brbaro entre povos vizinhos e irmos, tal como da reao a que todo o Mundo passou a assistir depois, atnito, penso eu. Como disse nesse texto, escrito enraivecido de rajada, embora me considere ateu, mas nunca negando, porm, a minha matriz educacional crist, considerei, e, considero ainda, que um dos dois contentores, para sair vitorioso deste interminvel conflito, perante a Humanidade, ter que abdicar de responder, oferecendo a outra face, como na lenda bblica se diz que Jesus Cristo ter feito perante os seus algozes.


que, enquanto violncia se responder com violncia, ou se pensar que possvel exterminar por completo uma etnia, um povo, uma religio, ou um grupo poltico, usando essa mesma ttica, nunca mais ser possvel implementar a PAZ em qualquer Pas.


Quando ouo outras pessoas dizerem-me, com alguma frequncia, para no me enervar tanto, explico sempre que isso uma mera questo de lingustica apenas. A realidade, esclareo de imediato, que h que saber distinguir entre nervosismo e exaltao ou revolta. A que acrescento de imediato: nervoso, nunca; exaltado e revoltado, infelizmente, muitas vezes.


Contra as injustias. Contra as meias verdades. Contra a inoperabilidade dos obsoletos meios informticos que nos impingem no local de trabalho e sem os quais at parece que j no somos mdicos, nem estamos autorizados a exercer clnica. Contra as dificuldades quase inultrapassveis para nos disponibilizarem os meios necessrios para o melhor tratamento dos nossos doentes. Contra a obscena burocracia suprflua que nos faz perder diariamente muito tempo e imensa pacincia. Contra as hierarquias que no respeitam os profissionais e os doentes. Contra a destruio inapelvel, mas nunca explicitamente assumida, do SNS, levada a cabo por sucessivos governos ao longo de vrias dcadas.


A minha Me sempre teve uma veia artstica muito marcada. Cantava fado de uma forma que a confundiam frequentemente com a sua diva Amlia Rodrigues dos tempos ureos, representava num grupo de teatro amador com invulgar desenvoltura, desempenhando sempre os papis principais, e, recitava ainda poemas com uma entoao invejvel, ao ponto de um empresrio da capital do reino ter-se dirigido propositadamente ao seu pai, para que este autorizasse a sua ida para os palcos dos teatros de Lisboa. Tambm tentou aprender piano, seu instrumento favorito, mas, de tudo foi proibida pelo seu progenitor. O mesmo que, apreciando msica, pedia aos outros para lhe irem dizer para cantar no andar de cima da sua grande casa de lavoura, contudo, sem estarem autorizados a revelarem que fora sua a iniciativa, no intuito de ele ficar a deliciar-se no seu escritrio situado no r/c. Ao passo que, se ela o fizesse distraidamente de moto prprio sua frente e sem ser a seu pedido, imediatamente era reprimida, quando no esbofeteada.


No assistiu cerimnia do seu casamento, porque o pai do meu pai era seu sobrinho e ele tinha a mania que alguns dos seus filhos, que no a minha Me, no eram seus, sendo um deles do meu av Jos Martins com a minha av Lucinda Guerra, sua esposa, o que estava longe de ser verdade, pois que, quem deixou, ao que se saiba, alguns filhos de vrias empregadas domsticas da sua irm mais velha, Ana Martins de seu nome, uma das minhas bisavs paternas, e me do meu outro av, que ainda conheci, foi ele. Era possuidor, pois, de um cime doentio e muito castrador, que felizmente no herdei.


Este, estava nessa poca a frequentar a Universidade de Coimbra em plena crise estudantil dos finais dos anos 60 e incio da dcada de 70, cidade onde integrava uma companhia universitria de teatro amador, o CITAC, e habitava numa Repblica de estudantes gerida pela minha tia Maria Lucinda, sua me. Casa que visitvamos sempre ida e vinda das diversas viagens que anualmente fazamos de Coina para o Porto, e vice-versa, e que era, nessa poca de intolerncia, malvista pela polcia poltica do regime ditatorial, ao ponto de o meu primo, tal como o nosso av Severo e a sua filha Olvia Guerra, minha tia, terem tido curtas passagens pelos seus calabouos.

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