04-09-10- RECEIO INFUNDADO - LSNSJC

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Aluizio da Mata

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Sep 4, 2010, 6:34:36 AM9/4/10
to MÍDIAVICENTINA
RECEIO INFUNDADO
Texto: cfd. Aluizio da Mata

Às vezes mesmo fazendo uma caridade tememos que o nosso gesto traga-
nos aborrecimentos. Não confiamos na providência de Deus.

Se encontrarmos uma pessoa acidentada, pensamos duas vezes em socorrê-
la preocupados em ter que dar satisfações para a polícia, responder a
muitas perguntas para as quais nem sempre sabemos as respostas. Na
verdade não queremos é ter algum envolvimento. Não providenciamos
levar o acidentado para o hospital para não “perdermos” tempo e
prejudicar o que estivermos fazendo. Nem ao menos “perdemos” um ou
dois minutos para telefonar para o SAMU ir socorrer o acidentado. Já
nem falo da pessoa que encontramos caída na calçada e que rotulamos de
bêbada sem ter certeza do que a pessoa realmente tem.
Naquela hora nem nos lembramos do que Jesus ensinou na parábola do Bom
Samaritano. Agimos como o sacerdote e o levita que preferiram passar
ao largo sem querer se comprometer.
No entanto, tem hora que agimos impulsionado por uma vontade de ajudar
e depois ficamos pensando se fizemos certo ou se não poderíamos nos
garantir de alguma forma.

Há pouco tempo aconteceu comigo.
Uma amiga que mora em outra cidade me contou que um seu sobrinho-neto
tinha sido preso e que estava em um presídio. Ele foi enganado por um
traficante que, em troca de R$ 20,00, o mandou comprar produtos como
acetona e éter. Quando a polícia chegou o bandido fugiu deixando-o com
os produtos nas mãos. Foi taxado de traficante, coisa que ele não é.
Preso, foi sentenciado sem julgamento e espera decisões de recursos
que nunca lhe são favoráveis, pois peixe pequeno não tem como se
defender.
A minha amiga me disse que seu sobrinho se sentia muito deprimido,
longe da esposa e do filho de poucos meses, que nascera antes dele ser
preso. Ela então me pediu que escrevesse uma carta para ele, animando-
o.
Escrevi a carta e coloquei dentro do envelope algumas orações para que
ele não se esquecesse de Deus e que N’Ele tivesse confiança. Na hora
de endereçar a carta, veio-me uma inspiração de escrever por fora do
envelope: “PODE SER ABERTA PELAS AUTORIDADES”. Nem sei por que fiz
isso, mas acho que foi por inspiração do Espírito Santo.
Encaminhei a carta. Passados uns dois dias comecei a pensar se tinha
feito bem em mandar a carta diretamente para o presídio. Veio-me à
cabeça que talvez tivesse sido melhor endereçar a carta à minha amiga,
para que ela a entregasse em mãos ou pedisse a irmã do preso nos dias
de visita que o fizesse. Mas, como eu já tinha mandado a carta, não
adiantava mais fazer suposições. Mesmo assim, nos dias seguintes um
punhado de pensamentos veio à minha mente: E se a polícia resolvesse
investigar quem estava mandando a carta? E se ela pensar que a
comunicação estava sendo feita em código? E se a carta caísse em mãos
de verdadeiros traficantes e eles aproveitassem o fato de saber meu
nome e endereço? Essa angústia ficou dentro de mim, torturando-me, já
que sou preocupado por natureza! Eu já imaginava todo tipo de ações
que poderiam acontecer, nenhuma delas boa, com certeza.
Muito tempo depois recebi um comunicado da minha amiga dizendo que a
polícia, depois de alguns dias, entregou a carta ao sobrinho dela. Ele
até brincou: “ele quer que eu reze muito”. Ela me explicou que não é
difícil mandar até produtos para quem está detido. A polícia abre o
pacote na vista da pessoa, para ver se não tem nada que não possa ser
entregue a ela. A visita feminina é mais complicada, pois a revista
é até degradante, mas para homens não é tão problemático. Uma coisa
que ela me falou: Os evangélicos fazem cultos lá. Eu pergunto: por que
os católicos não fazem?

Tudo isto conto para mostrar como não temos confiança em Deus. Se eu
fiz uma ação que depois considerei precipitada ou não mais bem
pensada, deveria ter entregado tudo para Deus. Enfim, fazer uma
caridade, mas depois ficar angustiado, não é o que Deus quer.

Não sei com está funcionando a visita aos presos nas conferências de
outros lugares do Brasil, mas sei que em muitas cidades essa prática
vicentina não existe mais. As desculpas não convencem. A mais comum é
de que “é muito perigoso hoje em dia”. Até a Pastoral Carcerária da
Igreja Católica não está implantada na maioria das paróquias, creio.
O nosso medo é maior do que a nossa caridade.
E fico pensando quantas pessoas presas precisam de uma palavra amiga,
de um livro de formação, de leituras da Palavra de Deus, mas não têm.
É o que eu disse no início: Não confiamos na providência divina. Será
que não dá para voltarmos à prática antiga?
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