Coloco um texto bastante inicial a respeito de Análise do Discurso no quadro das Ciências Humanas. Foi escrito pela Profª Kitty, lá da UFRGS.
Um abraço.
A Análise de Discurso no Quadro das Ciências Humanas
A Análise do Discurso da chamada Escola Francesa surge no cenário da intelectualidade francesa, na década de 60, como reação a duas fortes tendências em destaque no campo da linguagem, a saber : (i) o estruturalismo e (ii) a gramática gerativa transformacional.
(i) O estruturalismo caracteriza-se, desde seu início, como fenômeno que contagia as ciências sociais, como a antropologia, a literatura, a filosofia e a psicanálise, para ficarmos em cinco de seus expoentes máximos : Lévi-Strauss, Roland Barthes, Michel Foucault, Louis Althusser e Jacques Lacan.
Foucault define assim esse novo paradigma, em "As palavras e as coisas" : O estruturalismo não é um método novo : é a consciência desperta e inquieta do saber moderno. E para os rumos desse "saber moderno" importava rechaçar o vago psicologismo então predominante e fundamentar suas bases na legitimidade do pensamento científico.
O estruturalismo como reflexão sobre a linguagem e como nova linguagem inscreve-se num projeto múltiplo que procura distinguir com nitidez ciência e ideologia, chamando atenção para os conceitos de ruptura e diferença - ruptura de uma linguagem em relação à anterior e diferença que subitamente intervém na lógica do pensamento estruturalista.
No centro desse novo paradigma, situa-se o estruturalismo lingüístico a servir como norte e inspiração. Afinal, a Lingüística em seu papel de ciência-piloto das ciências humanas tem condições de fornecer aos aficcionados do novo paradigma as ferramentas essenciais para análise da língua, enquanto estrutura formal, submetida ao rigor do método e aos ditames da ciência, tão valorizada na época.
Ao longo do percurso triunfal dos estruturalistas, que marcou de forma indelével os anos 50 e 60, houve sempre uma constante : a deliberada exclusão do sujeito. Esse foi o preço a pagar pelos defensores do paradigma estrutural para a ruptura com a fenomenologia, o psicologismo ou a hermenêutica. Importava normalizar o sujeito, já que era visto como o elemento suscetível de perturbar a análise do objeto científico, que deveria corresponder a uma língua objetivada, padronizada.
Esse era o panorama existente na França até 1967, época em que o estruturalismo viveu seu apogeu, ainda que já desse mostras de certas fissuras internas. O movimento de maio de 68 e as novas interrogações que surgiram de súbito no âmbito das ciências humanas foram decisivos para subverter o paradigma então reinante, trazendo como conseqüência o sujeito para o centro do novo cenário, permitindo-lhe, como afirma François Dosse (1993), em sua "História do Estruturalismo", reaparecer pela janela , após ter sido expulso pela porta. (p.65)
A Análise de Discurso que tem como marco inaugural o ano de 1969, com a publicação de Michel Pêcheux intitulada Análise Automática do Discurso(AAD), bem como o lançamento da importante revista Langages, organizada por Jean Dubois, vai à busca desse sujeito, até então descartado. E vai encontrá-lo na psicanálise, apresentado como um sujeito descentrado, afetado pela ferida narcísica, distante do sujeito consciente, que se pensa livre e dono de si. Trata-se então de um sujeito desejante, sujeito do inconsciente, materialmente constituído pela linguagem e interpelado pela ideologia.
Entende-se por que a Análise do Discurso impõe-se, dessa forma, como reação ao estruturalismo reinante, que sufocava o surgimento do sujeito, noção central no quadro teórico do discurso.
(ii) Quanto à gramática gerativa transformacional, que entrou na França, somente em 1967, graças a Nicolas Ruwet, que encantou-se com os trabalhos considerados revolucionários para a época de Noam Chomsky, não chega a ser propriamente um rompimento com o estruturalismo. O que o gerativismo chomskiano a rigor faz é levar às últimas conseqüências os postulados saussurianos, ocupando os espaços deixados pela formulação pioneira de Saussure.
Ainda que Chomsky critique a concepção saussuriana de língua como inventário sistemático de elementos depositados como um tesouro na mente das pessoas, é notório o fato, constatado por lingüistas como F.Gadet(1987), da dívida de Chomsky para com Saussure, ao conceber o par competência/desempenho. Gadet percebe entre este par e o par língua/fala saussuriano uma forte analogia, embora admita que os dois divirjam no caráter criador da linguagem. Saussure localiza a criação unicamente na fala, ao passo que Chomsky desdobra a criatividade em dois tipos, que classifica como (i) o que muda as regras (faltas, lapsos, criações agramaticais), localizado no desempenho e (ii) o que é governado pelas regras (criações de formas novas), pertencente à competência da
língua.
O certo é que pelo formalismo do método e pela obstinada rejeição do sentido o gerativismo se inscreve na tradição do estruturalismo, dando-lhe continuidade e novo alento, no final dos anos 60. Ao procurar um sistema formal que explique a totalidade dos enunciados, Chomsky apóia-se na noção de natureza humana, aliando os universais lingüísticos ao inatismo e operando um profundo corte com os contrastes culturais e sociais.
Nesse afã de levar a lingüística a uma formalização cada vez mais apurada (e, por vezes, ilegível), Chomsky acaba, na opinião de F.Dosse(op.cit.p.30), por separá-la das outras ciências sociais, fazendo-a distanciar-se, em conseqüência, do título de ciência-piloto, até então ostentado.
Foi, então, contra esse cientificismo explícito do modelo chomskiano de gramática gerativa que se insurgiu a Análise do Discurso. Não era possível compactuar com um paradigma cognitivista, que desistoriciza o sujeito e trata a língua como um órgão mental. Embora Pêcheux tenha reconhecido o mérito histórico da gramática gerativo-transformacional em ter designado o lugar onde, na língua, o gramatical não cessa de negociar com o não-gramatical, não deixa, por isso, de criticar Chomsky por ter cedido à pressão das línguas lógicas e encobrir suas descobertas no espaço da normalidade biológica.
Do ponto de vista político, a Análise do Discurso (AD) nasce, assim, na perspectiva de uma intervenção, de uma ação transformadora, que visa combater o excessivo formalismo lingüístico então vigente, visto como uma nova facção de tipo burguês. Ao lado dessa tendência revolucionária, a AD busca desautomatizar a relação com a linguagem, donde sua relação crítica com a lingüística. A rigor, o que a AD faz de mais corrosivo é abrir um campo de questões no interior da própria lingüística, operando um sensível deslocamento de terreno na área, sobretudo nos conceitos de língua, historicidade e sujeito, deixados à margem pelas correntes em voga na época.
A Análise do Discurso, em sua constituição epistemológica, vai apresentar-se como uma disciplina heteróclita, que desempenha uma função de absoluta singularidade no campo das ciências humanas. Isto porque ela se inscreve na confluência de três regiões do conhecimento científico, como observa Pêcheux(1988) :
(i) o materialismo histórico, como teoria das formações sociais, incluindo aí a ideologia ;
(ii) a lingüística, como teoria dos mecanismos sintáticos e dos processos de enunciação ;
(iii) a teoria do discurso, como teoria da determinação histórica dos processos semânticos.
Todas as três atravessadas e articuladas por uma teoria da subjetividade (de natureza psicanalítica).
Fica claro, então, que a AD não se vê como uma disciplina autônoma, nem tampouco como disciplina auxiliar. O que ela visa é tematizar o objeto discursivo como sendo um objeto-fronteira, que trabalha nos limites das grandes divisões disciplinares, sendo constituído de uma materialidade lingüística e de uma materialidade histórica, simultaneamente. A AD recorta, portanto, seu objeto teórico (o discurso), distinguindo-se da lingüística imanente, que se centra na língua, nela e por ela mesma, e também das demais ciências humanas, que usam a língua como instrumento para a explicação de textos.
Ao romper com o corte saussuriano de língua/fala, a AD faz intervir o conceito de discurso, o que determina uma profunda mudança na relação de oposição estabelecida pela lingüística. O novo par língua /discurso não assinala mais uma relação de oposição entre os conceitos envolvidos, mas sim, de contradição. Como dizem os teóricos do discurso, a língua, que tem na AD autonomia relativa, vai funcionar como base, como lugar material onde vão se realizar os processos discursivos. A língua redefine-se, pois, como pressuposto, como modo de acesso, para analisar a materialidade do discurso.
Não parece apropriado atribuir à Análise do Discurso uma designação de disciplina interdisciplinar, como alguns teóricos insistem em fazer. Fazer isso, seria cair na tentação de encará-la como disciplina de caráter meramente instrumental, sem especificidade própria. E isso definitivamente ela não é. Além do mais, essa é uma ótica redutora, que elide sua principal característica de ser uma teoria crítica da linguagem.
Orlandi(1996), a esse respeito, imputa à AD a condição de disciplina de entremeio, uma vez que sua constituição se dá às margens das chamadas ciências humanas, entre as quais ela opera um profundo deslocamento de terreno : A AD produz um outro lugar de conhecimento com sua especificidade. Não é mera aplicação da lingüística sobre as ciências sociais e vice-versa. (op.cit.p.24)
Nesse sentido, é importante ressaltar que os conceitos que a AD traz de outras áreas de saber, como a psicanálise, o marxismo, a lingüística e o materialismo histórico, ao se integrarem ao corpo teórico do discurso, deixam de ser aquelas noções com os sentidos estritos originais e se ajustam à especificidade e à ordem própria da rede discursiva. É o que acontece, por exemplo, com os conceitos de inconsciente, ideologia, língua e história.
O quadro teórico-epistemológico da AD, como se viu, é complexo e mantém uma relação tensa entre as noções que o integram. A cada atividade de análise se põe em questão a natureza de certos conceitos e se redefinem seus limites. Isto não impede que a Análise de Discurso se singularize enquanto forma de conhecimento sobre a linguagem e se distinga das demais áreas por seu aparato teórico, seu método de análise e sua práxis. Sendo assim, ela vai construir seu objeto teórico e estabelecer seus procedimentos analíticos na interface com as demais áreas vizinhas.
É precisamente para essas interfaces que queremos lançar um olhar atento e crítico, colocando-nos num lugar privilegiado de observação que é o discurso. Este vai nos oferecer um dispositivo teórico e de análise que permitirá tornar visíveis as afinidades e/ou diferenças na interlocução com outros saberes.