História do amor no Brasil (Para a colega que vai falar sobre o amor)

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Luciana Brasil

unread,
May 17, 2010, 6:40:31 PM5/17/10
to mestrado-em-ciencia...@googlegroups.com
Cara Colega, li essa mensagem e lembrei que vc pretende falar sobre tema amor. Desculpa, mas esqueci seu nome.
Abraço.
Luciana.

----- Mensagem encaminhada ----
De: Diva Calles <dcca...@gmail.com>
Enviadas: Domingo, 16 de Maio de 2010 10:44:46
Assunto: (CVL) História do amor no Brasil

História do amor no Brasil
Mary Del Priore discute a história do amor
Publicado em 10 de maio de 2010

<http://revistacult.uol.com.br/home/2010/05/historia-do-amor-no-brasil/mary-2/>

Mary Del Priore: a miscigenação brasileira influiu na maneira de dizer o
amor

Mary del Priore é uma conhecida historiadora brasileira, ex-professora da
USP e da PUC-RJ, e tem se dedicado à história do amor. De suas pesquisas
resultou o trabalho História do amor no Brasil, publicado pela editora
Contexto. Também escreveu uma História das crianças no Brasil e uma História
das mulheres no Brasil (ambos, pela Contexto), tendo recebido, por essa
última obra, o Prêmio Jabuti. Apresentando uma reflexão rica e fartamente
documentada, Del Priore toma a sério a reflexão sobre o imperativo do amor,
que, “como outros imperativos – comer, por exemplo –, está inscrito em nossa
natureza mais profunda”. A obra percorre o Brasil Colônia, o século XIX e o
século XX, mostrando como a concepção romântica de amor – idealizadora do
encontro entre duas pessoas – é inteiramente recente, apesar de uma ênfase
erótica explícita já em formas literárias medievais, renascentistas e
modernas. Como conclusão, Mary del Priore assume posições muito instigantes,
em defesa, por exemplo, de uma concepção tradicional de amor, diagnosticando
a angústia da juventude diante da liberdade sexual e denunciando uma
ditadura moderna do gozo. Gentilmente, ela concedeu uma entrevista à CULT,
cujas respostas mais significativas para o dossiê deste mês apresentamos
aqui.
*CULT: Apesar do caráter recente da visão romântica do amor, a senhora
aponta para a exploração do erotismo na literatura francesa do século XVI.
Mas Portugal, desse ponto de vista, teria vivido um atraso, associando,
ainda, prazer e pecado. Em que consistiu esse atraso?*
*
*
*MARY DEL PRIORE: *Teorias que consideravam o desejo sexual uma doença estão
presentes em vários textos médicos portugueses desde o começo do século XVI.
Havia quem dissesse, como o escritor João de Barros, em 1540, que o
sentimento apaixonado “abreviava a vida do homem”, minguando ou secando os
mebros do enamorado. Que doenças decorriam da paixão: ciática, dores de
cabeça, problemas de estômago ou dos olhos. A relação sexual, por sua vez,
emburrecia, além de abreviar a vida. Ele concluía: só os “castos vivem
muito”. Os portugueses também estiveram cara a cara com uma ars erotica que
usava e abusava de afrodisíacos. Dela, contudo, só levaram para Portugal a
possibilidade de ver em tudo pecado ou doença! O contato imediato dos lusos
com as Índias Orientais colocou-os em contato com perfumes vindos tanto da
China quanto do subcontinente asiático, e com afrodisíacos largamente
utilizados naquela parte do mundo: a cannabis sativa, bangue, maconha ou
ópio. Esse era usado como excitante sexual capaz de duas funções: agilizar a
“virtude imaginativa” e retardar a “virtude expulsiva”, ou seja, controlar o
orgasmo e a ejaculação. No século XVIII, a idéia de que o amor é uma doença
não faz os afrodisíacos desapar dos manuais de remédios, mas se recomendam,
cada vez mais, os anafrodisíacos. Definindo-os como “aqueles remédios que ou
moderam os ardores venéreos ou mesmo os extinguem”. É o caso do agnus
castus, ou agnocasto, a mais eficaz das plantas antieróticas. Existiam
várias outras substâncias com a mesma reputação de esfriar ou anular o
desejo sexual, como a cânfora, por exemplo.
*
CULT: O Brasil seria um herdeiro do atraso português?*
*
*
*MARY DEL PRIORE:* O Brasil herdou costumes que vieram da Europa, de
Portugal, da Igreja e de outras instituições. Mas não foi uma simples
transferência. Houve adaptações. A miscigenação proporcionou, por exemplo,
um repertório linguistico que influiu na maneira de dizer o amor. Uma
viajante francesa, Adéle Toussaint-Samson, no século XIX, sintetizou: “A
língua brasileira, com todos os seus diminutivos em -zinha, -zinhos, tem uma
graça toda crioula, e jamais a ouço sem descobrir um grande encanto; é o
português com sua entonação nasal modificada. Todas as suas denguices lhe
caem bem e dão à língua brasileira um não-sei-quê que seduz mais ao ouvido
do que a língua de Camões”. Outro exemplo vemos no Romantismo, momento de
eclosão da poesia afro-brasileira. Nela, homens como Laurindo José da Silva
Rabelo faziam versos os mais apaixonados. Em Suspiros e saudades, ele canta
a interpretação romântica de sua dor, mas uma dor mestiça, feita de saudades
à moda portuguesa. Já em Cruz e Souza, a busca subjetiva da cor branca é o
tema de toda a obra poética. Quando o poeta ama, o objeto desse amor é a
“mulher, ‘da cor nupcial da flor de laranjeira’, e loura, ‘com doces tons de
ouro’”. Para Tobias Barreto, o amor era um sentimento unificador: andava por
onde quisesse não se detendo nas barreiras do preconceito de cor.
*
CULT: Seria possível resumir em etapas mais ou menos homogêneas a cronologia
do amor no Brasil? Como?*
*
*
*MARY DEL PRIORE: *Não há etapas homogêneas em história, mas momentos de
mudanças e permanências coexistentes. Por exemplo, o século XIX introduziu a
ideia do amor romântico. As pessoas começam a ler romances onde heróis e
heroínas buscam um casamento por amor e um final feliz para suas histórias.
Isso era novo. Ao mesmo tempo, nas elites, o casamento arranjado com
parentes ou amigos era uma constante. Isso era arcaico. As fórmulas
coexistiam. Daí começarem os raptos de noivas que se recusavam a casar com
candidatos impostos pela família, preferindo fugir com os escolhidos do
coração. É como se tivéssemos passado de um período em que o amor fosse uma
representação ideal e inatingível (a Idade Média), para outra em que vai se
tentar, timidamente, associar espírito e matéria (o Renascimento). Depois,
para outro, em que a Igreja e a Medicina tudo fazem para separar paixão e
amizade, alocando uma fora, outra dentro do casamento (a Idade Moderna).
Desse período, passamos ao Romantismo do século XIX, que associa amor e
morte, terminando com as revoluções contemporâneas, momento no qual o sexo
tornou-se uma questão de higiene, e o amor parece ter voltado à condição de
ideal nunca encontrado.
*
CULT: Na abertura de seu livro, a senhora subscreve as palavras de Luís
Felipe Ribeiro: no passado, as pessoas “não davam”, mas se davam; hoje, elas
“dão”, mas não se dão. Na conclusão, a senhora afirma que a liberdade
amorosa – típica de nosso tempo – tem contrapartidas: a responsabilidade e a
solidão. E termina apontando para um lado positivo da tradição, pois esta,
defendendo a família e a procriação, seria uma fonte de profunda emoção.
Gostaríamos de ouvi-la um pouco mais sobre a vivência do amor no mundo
contemporâneo.*
*
*
*MARY DEL PRIORE:* Considerando as transformações pelas quais passou a
sociedade brasileira, poderíamos avançar o seguinte: aquilo a que se
assistiu, ao longo dos tempos, foi uma longa evolução que levou da proibição
do prazer ao direito ao prazer. Fomos dos manuais de confessor, que tudo
interditavam, aos casamentos arranjados, policiados, acompanhados passo a
passo por familiares zelosos. E desses ao impacto das revoluções, que, ao
final dos anos 60, exportaram mundo afora lemas do tipo “Ereção,
insurreição” ou “Amai-vos uns sobre os outros”, sem contar o movimento
hippie, com o lema “Paz e Amor”. Desde então, o amor e o prazer se tornaram
obrigatórios. O interdito se inverteu. Impôs-se a ditadura do orgasmo
forçado. O erotismo entrou no território da proeza e o prazer tão longamente
reprimido tornou-se prioridade absoluta, quase que esmagando o casamento e o
sentimento. Passou-se do afrodisíaco à base de plantas para o sexo com
receita médica, graças ao Viagra. Passou-se da dominação patriarcal à
liberação da mulher.

Entre nós, durante mais de quinhentos anos, os casamentos não se faziam de
acordo com a atração sexual recíproca. Eles mais se realizavam por
interesses econômicos ou familiares. Entre os mais pobres, o matrimônio ou a
ligação consensual era uma forma de organizar o trabalho agrário. Não há
dúvidas de que o trabalho incessante e árduo não deixasse muito espaço para
a paixão sexual. Sabe-se que entre casais, as formas de afeição física
tradicional – beijos e carícias – eram raridade. Para os homens, contudo, as
chances de manter ligações extra-conjugais, eram muitas. O resultado dessa
longa caminhada? Especialistas afirmam que hoje queremos tudo ao mesmo
tempo: o amor, a segurança, a fidelidade absoluta, a monogamia e as
vertigens da liberdade. Fundado exclusivamente no sentimento que sobrou do
amor romântico, o sentimento mais frágil que existe, o casal está condenado
à brevidade, à crise. Mais. A liberdade sexual é um fardo para os mais
jovens. Muitos deles têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de
prudência, sabedoria e melancolia, tal como viveram seus avós. Hoje, a
loucura é desejar um amor permanente, com toda a intensidade, sem nuvens ou
tempestades. Numa sociedade de consumo, o amor está supervalorizado.

O sexo tornou-se uma nova teologia. Só se fala nisso e se fala mal, com
vulgaridade. Sabemos, depois de tudo, que o amor não é ideal, que ele traz
consigo a dependência, a rejeição, a servidão, o sacrifício e a
transfiguração.  Resumindo: existe um grande contraste entre o discurso
sobre o amor e a realidade de vida dos amantes. O resultado? Escreve-se cada
vez mais sobre a banalização da sexualidade e o desencantamento dos
corações, enquanto o amor segue uma coisa sutil e importante que continua a
fazer sonhar, e muito, muitos homens e mulheres.
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