Minas Enigma
Fernando Sabino
Minas
além do som, Minas Gerais
(Carlos Drummond de Andrade)
Se sou
mineiro? Bem, é conforme, dona. (Sei lá por que ela está perguntando?) Sou de
Belzonte, uai.
Tudo é conforme. Basta nascer em Minas para ser mineiro? Que diabo é ser
mineiro, afinal? Inglês misturado com oriental? É fumar cigarro de palha, como
o poeta Emílio, de Dores do Indaiá? Autran fuma cachimbo. Tem até quem fume
cigarro americano. (No bairro do Calafate havia uma fábrica de
"Camel".) Em suma: ser mineiro é esperar pela cor da fumaça. É dormir
no chão para não cair da cama. É plantar verde pra colher maduro. É não meter a
mão em cumbuca. Não dar passo maior que as pernas. Não amarrar cachorro com
linguiça.
Porque mineiro não prega prego sem estopa. Mineiro não dá ponto sem nó. Mineiro
não perde trem.
Mas compra bonde.
Compra. E vende pra paulista.
Evém mineiro. Ele não olha: espia. Não presta atenção: vigia só. Não conversa:
confabula. Não combina: conspira. Não se vinga: espera. Faz parte do decálogo,
que alguém já elaborou. E não enlouquece: piora. Ou declara, conforme
manda a delicadeza. No mais, é confiar desconfiando. Dois é bom, três é
comício. Devagar que eu tenho pressa.
Apólogo mineiro: o boi velho e o boi jovem, no alto do morro — lá embaixo uma
porção de vacas pastando. O boizinho, incontido:
— Vamos descer correndo, correndo e pegar umas dez?
E o boizão, tranquilamente:
— Não: vamos descer devagar, e pegar todas.
Mais vale um pássaro na mão. A Academia Mineira, há tempos, pagava um jeton
ridículo: duzentos cruzeiros — antigos, é lógico. Um dos imortais, indignado,
discursava o seu protesto:
— Precisamos dar um jeito nisso! Duzentos cruzeiros é uma vergonha! Ou
quinhentos cruzeiros, ou nada!
Ao que um colega prudentemente aparteou:
— Pera lá: ou quinhentos cruzeiros, ou duzentos mesmo.
Quem nasce em Três Corações é tricordiano — haja vista Pelé. Quem nasce em
Barbacena tem de escolher a Maternidade: ou é do Zezinho ou do Bias. E a
Manchester Mineira, terra do Murilo Mendes? O poeta Nava foi-se embora:
"parabéns a Pedro Nava, parabéns a Juiz de Fora". Itabira, calçada de
ferro: não aceitou chamar-se Presidente Vargas, continuou digna do itabirano
Carlos. E Ouro Preto continua digna de ser vista: ali é a casa do Rodrigo; Renato
de Lima, ex-delegado e pianista amador, pintando junto à Casa dos Contos.
Afonso é de Paracatu. Em Sabará nasceram Lúcia e Aníbal, além de outros
ilustres Machados. Alphonsus, o solitário de Mariana. Os profetas de Congonhas.
A cidade de Tiradentes — o que não tinha barbas. O Aleijadinho não tinha mãos.
São João del Rei, onde nasceu Otto, o que morrerá batendo papo. Solidário só no
câncer? Absolutamente, dona: nas virtudes também, uai. Haja vista a Tradicional
Família Mineira, que Deus a tenha. As estações de águas: lembrança de São
Lourenço, escrito num copinho. E Lambari, terra de Henriqueta! Monte Santo tem
a rua mais iluminada do mundo. E uma ambulância com sirene, que seu filho
Castejon arranjou. Itaúna fica num quarto andar do Leblon, no apartamento de
Marco Aurélio, o bom. Jeremias, outro bom, mineiro como Ziraldo. Os bonecos de
Borjalo só ganharam boca depois que começaram a falar. Mineiro por todo lado! O
poeta Pellegrino, como psiquiatra, tem garantida uma numerosa clientela.
Amílcar modela Minas em arame. Paulo encontrou Minas depois que saiu de lá.
João Leite levou-a para São Paulo, Alphonsus para Brasília, Guilhermino para o
Sul. João Camilo ficou. Etiene voltou. Paulo Lima voltou. Iglezias voltou.
Jaques voltou.Figueiró continua, Rubião recomeçou.
Um Estado de nariz imenso, um estado de espírito: um jeito de ser. Manhoso,
ladino, cauteloso, desconfiado — prudência e capitalização.
O guarda-chuva da proteção financeira, não como lema do Banco do Magalhães mais
o Zé Luís, e sim como regra de conduta:
— Meu filho, ouça bem o seu pai: se sair à rua, leve o guarda-chuva, mas não
leve dinheiro. Se levar, não entre em lugar nenhum. Se entrar, não faça
despesas. Se fizer, não puxe a carteira. Se puxar, não pague. Se pagar, pague
somente a sua.
Mas todos os princípios se desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas
de limão, tutu de feijão com torresmos, linguiça frita com farofa. De
sobremesa, goiabada cascão com queijo palmira. Depois, cafezinho requentado com
requeijão. Aceita um pão de queijo? biscoito polvilho? brevidade? ou quem sabe
uma broinha de fubá? Não, dona, obrigado. As quitandas me apertencem, mas
prefiro bolinho de Januária, e pronto: estou sastifeito...
É a hora e a vez de Guimarães Rosa sorrir e dizer pra cumpadre meu Quelemén:
perigoso nada, mira e veja, nas Gerais, essas coisas...
Falar de Minas, trem danado, sô. É falar no mundo misterioso de Lúcio Cardoso,
Cornélio Pena ou Rosário Fusco, no mundo irônico, esquivo ou pitoresco de Cyro
dos Anjos, Oswaldo Alves, Mário Palmério, seus romancistas. E num mundo de
gente, seus personagens, que vão de Antônio Carlos a Milton Campos, de
Bernardes a Juscelino — vasto mundo! ah, se eu me chamasse Raimundo. Dentro de
mim uma corrente de nomes e evocações antigas, fluindo como o Rio das Velhas no
seu leito de pedras, entre cidades imemoriais. Leopoldina, doce de manga, terra
de meus pais... Prefiro estancá-las no tempo, a exaurir-me em impressões
arrancadas aos pedaços, e que aos poucos descobririam o que resta de precioso
em mim — o mistério da minha terra, desafiando-me como a esfinge com o seu
enigma: decifra-me , ou devoro-te.
Prefiro ser devorado.
Texto
extraído do livro "A Inglesa Deslumbrada", Editora Record - Rio de
Janeiro, 1967, pág. 71. Com esse texto, sugerido pela amiga Cláudia, homenageamos
o autor na passagem dos seus 80 anos de vida.
Fonte: http://releituras.com/fsabino_menu.asp
***"Se nos sentarmos agora, podemos ser atropelados mais tarde."