O BONECO (De “E, para o resto da vida...”, de Wallace Leal V. Rodrigues)

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Zécarlos

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May 17, 2015, 7:57:36 AM5/17/15
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O  BONECO

 

       Um dia vovó comentou que os doces — feitos por ela e minha mãe naquela manhã — haviam desaparecido do armário. E não sabia o que tinha sido feito deles.

       Embora nenhuma das duas parecesse de qualquer forma preocupada com a ocorrência, eu imediatamente disse:

       — Foram roubados.

       Elas me olharam surpreendidas, mas foi vovó quem estabeleceu conversação comigo.

       — Você tem certeza? ela perguntou.

       — Tenho! sustentei. E foi o Pedrinho.

       Pedrinho era um dos meus irmãos. Vovó insistiu:

       — Você tem certeza?

       — Se tenho! Foi o Carlucho quem me contou.

       — Minha filha, disse ela tranquila, passando o seu braço pelo meu, venha até o meu quarto. Quero lhe mostrar uma coisa.

       No quarto ela abriu a gaveta de uma cômoda e tirou, lá de dentro, um boneco que eu nunca tinha visto.

       — Veja como está bem vestido!

       Eu não estava entendendo. Aquilo nada tinha a ver com o caso dos doces. Ela prosseguiu:

       — Vá dizendo o que mais te chama a atenção neste boneco.

       —  Tem uma bonita roupa, uma camisa linda! respondi ao observar os punhos, o peitilho e o colarinho impecáveis.

       Assim que terminei de falar, minha avó tirou o paletó do boneco. Caí na gargalhada quando vi que da impecável camisa só havia os punhos, o peitilho e o colarinho.

       Mas, de súbito, compreendendo, me tornei muito séria.

       E vovó, abraçando-me a sorrir, disse concluindo:

       — Veja você como são as coisas. A gente só pode crer naquilo que vê. E do que se vê, muitas vezes é preciso acreditar apenas na metade. Você percebeu por que?

       Já se passaram muitos anos. Mas, sempre que sou levada, por certa irreflexão — tão comum nos seres humanos —, a julgar fatos ou pessoas pelas aparências, vem-me à lembrança a impecável camisa daquele boneco da vovó...


Se desejas teu caminho

Repleto de paz e luz,

Traze o amor de teu filhinho

Ao santo amor de Jesus.

   João de Deus

 

(De “E, para o resto da vida...”, de Wallace Leal V. Rodrigues)




***''Nada se iguala ao sabor do pão partilhado.''/Antoine de Saint-Exupéry


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