Abstenho-me de comentar para evitar julgamentos precipitados mas como achei, já na altura, pessoas "muito à frente", a pergunta fica: será que a nossa mentalidade está/estaria à altura desta forma de (con)viver? Pelos comentários que ouço em todo o lado duma maneira geral, mesmo em fóruns que se propõem mudar e que falam – falam – em amor, compaixão, partilha, solidariedade, desapego e outros “palavrões” muito queridos mas pouco exercidos, deixo aqui este simples exemplo.
Pode parecer que não se contextualiza mas numa sociedade em que a violência doméstica p. exemplo tomou as proporções que estão à vista de todos, perceba-se o estado de inconsciência que ainda persiste até nos relacionamentos entre homem/mulher. Para que se entenda, partilho pois também um texto que li na “Coragem de ser Autêntico” de J. Salomé que explica exactamente o que seria preciso para desmontar tudo o que ainda insistimos em fazer:
“Da Fidelidade ao outro à fidelidade a si mesmo:
“Nas relações íntimas há frequentemente uma confusão entre o registo dos sentimentos e o da relação.
Com o objectivo de ultrapassar esta amálgama e de tentar situar melhor as coisas, convém adoptar a ideia de que é próprio do ser vivo evoluir e de que o sentimento faz parte desta característica do ser vivo.
Na medida em que o sentimento tem vida… evolui e modifica-se, sendo por isso interiorizado de forma diferente naquele que o possuí e naquele que o recebe.
Na medida em que uma relação é viva, também ela própria evolui.
…
Qualquer interrogação acerca da questão da fidelidade, isto é, acerca do respeito por um compromisso, deve ter em conta o seguinte paradoxo, considerando-se uma mudança em si num determinado momento da existência:
“Eu comprometo-me, hoje, tal como sou, em relação a ti, tal como és. E eu comprometo também nesta aventura relacional uma parte de mim a uma parte de ti ainda por vir e que também ignoras. Eu comprometo-me para o futuro com uma parte desconhecida de mim e uma parte desconhecida de ti, isto é, sem conhecer o homem ou a mulher que serei, nem aquele ou aquela em que tu te tornarás”
Qualquer compromisso lúcido e honesto pressupõe que se aceite o facto de que qualquer compromisso é um compromisso a três: tu, eu e uma parte desconhecida e de mistério ligada a evolução possível de cada um de nós.
Neste compromisso não embarcamos sós, não estamos sós a bordo, embarcamos com esta parte de imprevisível incontrolável que nos pode ligar mais fortemente ou nos pode dissociar e separar.
No meu compromisso contigo, eu comprometo uma parte de mim que conheço bem mas que está construída com base em imagens, as que eu dou a ver, aquelas que tu queres ver…
Mas também uma parte de mim, que conheço menos bem, que pertence às minhas zonas de sombra. E no interior deste território, há uma parte de mim que é susceptível de mudar em direcções e com formas tais que nem eu próprio conheço.
Neste compromisso, eu comprometo-me com o que conheço de ti, com o que sei de ti, com o que desejo ver em ti.
Também me comprometo com esta parte de mistério que existe em ti, mistério para ti, mistério para mim, potencialidade de mudança que nem eu nem tu podemos ignorar ou ocultar durante muito tempo.
Muitas vezes, por medida de precaução, nós tentamos acautelar-nos contra os riscos de qualquer relação.
Em vez de comprometermos esta parte de mistério, preferimos apostar em certezas terroristas, crenças idealistas ou numa confiança cega.
A fidelidade a mim mesmo é um porto de abrigo…
Devo considerar que me comprometo contigo, mas também com a relação que nos falta construir e que ignoro de que modo se vai desenvolver, ou seja, se vai crescer ou pelo contrário vai definhar e morrer”
Diz o autor ainda:
“…
Durante anos da minha juventude e da minha longa adolescência, não consegui ser totalmente fiel a mim mesmo pois vi-me enredado nas malhas das dependências familiares, escolares e sociais. Malhas por vezes muito subtis e outras vezes directas e brutais que tinham a ver com recados, imposições, missões recebidas e aceites; como resultado disso eu era dependente e sofria bloqueios associados principalmente ao meu medo, o de ser respeitado ou de perder o outro de quem precisava e por quem desejava ser amado.
…”
Muita gente que já leu este livro achou-o uma verdadeira Bíblia. Muito bom. Demonstra bem como andamos a funcionar uns com os outros e a persistir na construção da tal célula básica chamada família em alicerces muito fracos e que continuamos a acreditar serem os melhores para os nossos filhos, netos e pelos vistos mais não sei quantas gerações à frente.
É depois, a partir daqui, que vamos interagir uns com os outros com base nesta farsa, como de resto o próprio autor confirma neste ultimo parágrafo.
Perante isto, pergunto uma vez mais, será que estamos de facto preparados para mudar mesmo?
Vitor Rodrigues no seu livro “ Teoria da estupidez humana” é perfeito quando escreve:
"Com efeito a estupidologia alerta-nos para a vantagem de negar a realidade – para o que a hipocrisia ou a mentira em geral são auxiliares de grande peso. Devem combater-se os miasmas da sinceridade uma vez que eles podem erigir-se em adjuvantes da clareza mental ou desse grande inimigo da estupidez, o amor a sério. O amor a sério ou desinteressado é perigosíssimo. Por isso tem sido muito raramente praticado a não ser por idiotas a quem a estupidez do mundo tem feito pagar essa ousadia. O amor desinteressado aproxima-nos da realidade dos outros e por isso deve ser erradicado através do uso benfazejo da mentira, entre outros recursos"
...
“Estupidez não é a ausência de inteligência mas resistência activa à inteligência”
Para todos bom dia.
MF