“Não sei se estou errada ou se, realmente, a posição que meu chefe ocupa na empresa lhe dá autonomia para fazer tais coisas. Dos cinco dias da semana, em pelo menos três, ele chega atrasado, sempre ultrapassa o horário do almoço e muitas vezes sai durante o expediente alegando ter de levar o filho ao médico ou que ele próprio precisa fazer exames. Eu fico sem saber o que dizer quando os diretores me perguntam sobre ele, já que sou sua assistente. O mais impressionante nessa história toda é que, quando algum outro funcionário da equipe lhe pede uma tarde de folga para resolver um problema pessoal, ele sempre nega. Essa atitude está correta? É coerente ao perfil de um gestor? Por ser gestor ele ‘pode tudo’ e sua equipe não?”.
De acordo com Roberto de Ávila Miranda, consultor, reitor da Escola de Pós-Graduação que leva seu nome em São Paulo, autor de livros e especialista em liderança, inteligência emocional e construção de equipes vencedoras, na liderança há dois tipos de poder: o poder da posição e o poder pessoal. O poder da posição, segundo o especialista, é aquele relacionado ao nível hierárquico – cargo. “O líder que usa esse poder para fazer cumprir ordens, geralmente lidera de maneira impositiva e autoritária, não se importando em dar um bom exemplo para sua equipe”, explica o consultor. Já o poder pessoal é a capacidade de influenciar pessoas para atingir os mesmos objetivos, mas para obtê-lo é preciso ser admirado e seguido, e aí entram os bons exemplos, as boas práticas. “Ambos os poderes são usados na liderança de equipes e variam em intensidade de acordo com o desempenho e a maturidade da equipe gerenciada”, orienta.
Miranda ressalta que um líder que usa apenas o poder da sua posição, ou seja, o cargo, para liderar uma equipe, jamais poderá delegar e estará fadado a acompanhar rigorosamente as tarefas de seus subordinados.
Por outro lado, quando o líder usa mais o poder pessoal do que seu cargo para liderar sua equipe, ele ganhará o respeito de todos e rapidamente terá um time trabalhando motivado para cumprir as tarefas que foram passadas por ele. “Se seu chefe é o dono da empresa, ele poderá ter um comportamento menos regrado, pois os empresários sofrem pressões diferentes dos seus colaboradores e, portanto, estão mais sujeitos a operarem com válvulas de escape. Então, atrasos e almoços mais demorados nesse caso são positivos para o sucesso da empresa, em longo prazo. Ainda assim, uma pequena satisfação para a equipe, mesmo que indireta, justificando o porquê da conduta, provocará a admiração dos subordinados, trazendo respeito ao líder. Aprendi que se você tirar a equipe de um gestor e ele continuar tendo tarefas, significa que ele jamais foi o gestor daquela equipe.
Portanto, se está sobrando tempo para o seu chefe deixar a equipe ‘solta’ é porque a equipe já tem um bom grau de comprometimento com as tarefas e resultados e mereceria também uma flexibilidade de horário ou a liberação para alguma questão especial”, observa.
No caso do gestor relatado, Miranda vê dois erros fundamentais que nada tem a ver com dar exemplo ou ter um comportamento esmerado, e, sim, com a relação entre o desempenho do departamento e o estilo de liderança do líder: “Se o desempenho do seu departamento está indo bem e todos na equipe estão cumprindo com suas tarefas de maneira exemplar, o estilo autoritário do seu chefe deveria gradativamente dar espaço para um estilo mais democrático, afrouxando as rédeas e fazendo concessões. Mas se o desempenho do departamento está baixo a ponto de não poder liberar uma tarde livre para um subordinado, o líder deveria usar todo seu tempo disponível para capacitar, atarefar, acompanhar e cobrar sua equipe, e não sobraria tempo para exames durante o expediente, almoços extensos e atrasos”, finaliza.
Matéria retirada da Revista Liderança- Assinatura online
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Ana Luiza Chaves
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