Na noite em que que tomou posse como reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 11 de maio de 2016, Luiz Carlos Cancellier de Olivo teve que colocar à prova aquela que era considerada sua maior qualidade: a habilidade de conciliar. Ele ainda não havia recebido o cargo da antecessora Roselane Neckel quando a cerimônia foi interrompida por alunos que protestavam contra a escassez de vagas para moradia estudantil.
Cancellier dialogou com o grupo de 70 manifestantes, acertou uma reunião sobre o tema e a cerimônia foi reiniciada após o pronunciamento de um dos estudantes. Aquele gesto durante o ato de posse dava o tom do cenário que Cancellier herdava — uma universidade dividida entre grupos politicamente à esquerda e à direita — que o novo reitor havia prometido pacificar com habilidade política.
Essa habilidade para o diálogo e conciliação foi despertada cedo. Aluno de Direito na UFSC no final dos anos 1970, engajou-se na política estudantil e militou no antigo PCB. Chegou a ser diretor-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE).
— Éramos jovens idealistas, partilhamos sonhos de um mundo melhor. Ele era apenas o Cao. Uma das pessoas mais doces que conheci. Fraterno, amável, bom de papo. Nunca levantou a voz, nem perdeu controle. Para ele, não havia crise sem solução. Tudo poderia ser resolvido no diálogo, no convencimento — escreveu o jornalista Adelor Lessa, de Criciúma, contemporâneo no movimento estudantil.
Nos anos 1980, largou o Direto antes de se formar e viveu um raro período fora do campus da UFSC. Trabalhou como jornalista em O Estado, que deixou para atuar como assessor político. Trabalhou nos governos peemedebistas de Pedro Ivo Campos e Casildo Maldaner, no final da década e depois como o senador Nelson Wedekin (então PMDB), de quem se tornou grande amigo.
A volta à UFSC aconteceria em 1996, quando decidiu completar a graduação deixada de lado. Completou o curso em 1998, o mestrado em 2001 e o doutorado em 2003, ambos em Direito na própria instituição. Após mais uma passagem pela assessoria política — na Secretaria Estadual de Saúde sob comando de Fernando Coruja (PPS na época) e Carmen Zanotto (PPS) —, Cancellier assumiu como professor da UFSC em 2006.
— Ele foi muito bem naquele concurso. Lembro que estava muito calmo, muito didático. Tinha que dar uma aula e o tema era licitações e contratos administrativos. Ficou em primeiro lugar — lembra João dos Passos Martins Neto, colega de UFSC e procurador-geral do Estado.
A partir de então, Cancellier teve início uma carreira meteórica no campus. Foi chefe do Departamento de Direito entre 2009 e 2010 e assumiu a direção do Centro de Ciências Jurídicas CCJ) em 2011. Em 2016, foi escolhido pelo grupo político ligado aos ex-reitores Rodolfo Pinto da Luz, Lúcio Botelho e Álvaro Prata para disputar a reitoria. Na época, a gestão de Roselane Neckel enfrentava a perda do apoio político da parte da esquerda do campus e forte oposição dos grupos mais conservadores e ligados às gestões anteriores.
Cancellier apresentou-se como candidato de diálogo e conseguiu aglutinar setores antagônicos. No segundo turno, enfrentou o professor Edson De Pieri, do Centro Tecnológico, também apontado como representante da direita do campus. Foi uma disputa voto a voto, em que se contrapôs o estilo gestor político de Cancellier e o perfil do acadêmico de currículo invejável De Pieri. No fim, 47,42% contra 46,06% deram a vitória ao herdeiro do chamado Rodolfismo — referência ao grupo político formado nas três gestões de Rodolfo Pinto da Luz na Reitoria. Antes do anúncio oficial, Cancellier deu início à proposta da pacificar o campus, chegando abraçado ao rival para o anúncio do resultado. A comemoração foi no bar da Associação Atlética dos Servidores da UFSC, conhecida como Volantes, junto com estudantes e funcionários que apoiaram sua candidatura.
Em seu primeiro ano no cargo, enfrentou dificuldades financeiras com redução de repasses do governo federal. Aproximou a universidade de entidades fora do campus e instituições. Antes de assumir a prefeitura de Florianópolis, em 2017, Gean Loureiro (PMDB) anunciou em conjunto com Cancellier a escolha de seus dois primeiros secretários municipais — Carlos Alberto Justo, da Saúde, e Maurício Pereira, da Educação, ambos professores da UFSC. O reitor afirmava que a UFSC devia ser mais presente na vida da cidade e do Estado atuava para fazer essa aproximação.
Afastado do cargo após a deflagração da Operação Ouvidos Moucos, em 14 de setembro deste ano, não conseguia esconder o constrangimento causado pela prisão por um dia — quando foi levado à Penitenciária de Florianópolis. Em artigo ao jornal O Globo, na última quinta-feira, classificou o episódio como "a humilhação e o vexame" e defendeu-se das acusações de que teria intervido para obstruir as investigações sobre irregularidades no programa de ensino à distância Universidade do Brasil.
— O sujeito que trouxe de volta o diálogo para dentro da UFSC, que aglutinou pessoas de concepções até antagônicas, esse cara nunca ia se negar a prestar informações se fosse chamado — lamentou o professor e amigo Gelson Albuquerque.
Na quarta-feira, Cancellier confidenciou a um amigo que estava consultando um psiquiatra e que seu caso fora comparado ao choque traumático após catástrofes. Com medo de voltar à prisão, evitava conversar com amigos ligados à UFSC e isso ser interpretado com tentativa de influir nas investigações. Na última sexta-feira, Albuquerque encontrou Cancellier pela última vez. Disse que o amigo estava tranquilo. O ex-reitor teria dito que "tudo vai ser resolvido, vamos agir com prudência, com calma".
Três dias depois, o sempre moderado e conciliador Cancellier surpreendeu a todos com o mais extremo dos gestos.