que terrivel, ele era um companheiro bom e decente

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Derlei Catarina De Luca

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Oct 3, 2017, 10:39:34 AM10/3/17
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TRAJETÓRIA

Estilo conciliador e habilidade política levaram Cancellier à reitoria

02/10/2017- 19h47min
  -  Atualizada em 02/10/2017- 19h47min

Na noite em que que tomou posse como reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em 11 de maio de 2016, Luiz Carlos Cancellier de Olivo teve que colocar à prova aquela que era considerada sua maior qualidade: a habilidade de conciliar. Ele ainda não havia recebido o cargo da antecessora Roselane Neckel quando a cerimônia foi interrompida por alunos que protestavam contra a escassez de vagas para moradia estudantil. 

Cancellier dialogou com o grupo de 70 manifestantes, acertou uma reunião sobre o tema e a cerimônia foi reiniciada após o pronunciamento de um dos estudantes. Aquele gesto durante o ato de posse dava o tom do cenário que Cancellier herdava — uma universidade dividida entre grupos politicamente à esquerda e à direita — que o novo reitor havia prometido pacificar com habilidade política.

Essa habilidade para o diálogo e conciliação foi despertada cedo. Aluno de Direito na UFSC no final dos anos 1970, engajou-se na política estudantil e militou no antigo PCB. Chegou a ser diretor-geral do Diretório Central dos Estudantes (DCE).

— Éramos jovens idealistas, partilhamos sonhos de um mundo melhor. Ele era apenas o Cao. Uma das pessoas mais doces que conheci. Fraterno, amável, bom de papo. Nunca levantou a voz, nem perdeu controle. Para ele, não havia crise sem solução. Tudo poderia ser resolvido no diálogo, no convencimento — escreveu o jornalista Adelor Lessa, de Criciúma, contemporâneo no movimento estudantil.

Nos anos 1980, largou o Direto antes de se formar e viveu um raro período fora do campus da UFSC. Trabalhou como jornalista em O Estado, que deixou para atuar como assessor político. Trabalhou nos governos peemedebistas de Pedro Ivo Campos e Casildo Maldaner, no final da década e depois como o senador Nelson Wedekin (então PMDB), de quem se tornou grande amigo.

A volta à UFSC aconteceria em 1996, quando decidiu completar a graduação deixada de lado. Completou o curso em 1998, o mestrado em 2001 e o doutorado em 2003, ambos em Direito na própria instituição. Após mais uma passagem pela assessoria política — na Secretaria Estadual de Saúde sob comando de Fernando Coruja (PPS na época) e Carmen Zanotto (PPS) —, Cancellier assumiu como professor da UFSC em 2006. 

— Ele foi muito bem naquele concurso. Lembro que estava muito calmo, muito didático. Tinha que dar uma aula e o tema era licitações e contratos administrativos. Ficou em primeiro lugar — lembra João dos Passos Martins Neto, colega de UFSC e procurador-geral do Estado.

A partir de então, Cancellier teve início uma carreira meteórica no campus. Foi chefe do Departamento de Direito entre 2009 e 2010 e assumiu a direção do Centro de Ciências Jurídicas CCJ) em 2011. Em 2016, foi escolhido pelo grupo político ligado aos ex-reitores Rodolfo Pinto da Luz, Lúcio Botelho e Álvaro Prata para disputar a reitoria. Na época, a gestão de Roselane Neckel enfrentava a perda do apoio político da parte da esquerda do campus e forte oposição dos grupos mais conservadores e ligados às gestões anteriores. 

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Cancellier apresentou-se como candidato de diálogo e conseguiu aglutinar setores antagônicos. No segundo turno, enfrentou o professor Edson De Pieri, do Centro Tecnológico, também apontado como representante da direita do campus. Foi uma disputa voto a voto, em que se contrapôs o estilo gestor político de Cancellier e o perfil do acadêmico de currículo invejável De Pieri. No fim, 47,42% contra 46,06% deram a vitória ao herdeiro do chamado Rodolfismo — referência ao grupo político formado nas três gestões de Rodolfo Pinto da Luz na Reitoria. Antes do anúncio oficial, Cancellier deu início à proposta da pacificar o campus, chegando abraçado ao rival para o anúncio do resultado. A comemoração foi no bar da Associação Atlética dos Servidores da UFSC, conhecida como Volantes, junto com estudantes e funcionários que apoiaram sua candidatura.

Em seu primeiro ano no cargo, enfrentou dificuldades financeiras com redução de repasses do governo federal. Aproximou a universidade de entidades fora do campus e instituições. Antes de assumir a prefeitura de Florianópolis, em 2017, Gean Loureiro (PMDB) anunciou em conjunto com Cancellier a escolha de seus dois primeiros secretários municipais — Carlos Alberto Justo, da Saúde, e Maurício Pereira, da Educação, ambos professores da UFSC. O reitor afirmava que a UFSC devia ser mais presente na vida da cidade e do Estado atuava para fazer essa aproximação.

Afastado do cargo após a deflagração da Operação Ouvidos Moucos, em 14 de setembro deste ano, não conseguia esconder o constrangimento causado pela prisão por um dia — quando foi levado à Penitenciária de Florianópolis. Em artigo ao jornal O Globo, na última quinta-feira, classificou o episódio como "a humilhação e o vexame" e defendeu-se das acusações de que teria intervido para obstruir as investigações sobre irregularidades no programa de ensino à distância Universidade do Brasil.

— O sujeito que trouxe de volta o diálogo para dentro da UFSC, que aglutinou pessoas de concepções até antagônicas, esse cara nunca ia se negar a prestar informações se fosse chamado — lamentou o professor e amigo Gelson Albuquerque.

Na quarta-feira, Cancellier confidenciou a um amigo que estava consultando um psiquiatra e que seu caso fora comparado ao choque traumático após catástrofes. Com medo de voltar à prisão, evitava conversar com amigos ligados à UFSC e isso ser interpretado com tentativa de influir nas investigações. Na última sexta-feira, Albuquerque encontrou Cancellier pela última vez. Disse que o amigo estava tranquilo. O ex-reitor teria dito que "tudo vai ser resolvido, vamos agir com prudência, com calma". 

Três dias depois, o sempre moderado e conciliador Cancellier surpreendeu a todos com o mais extremo dos gestos.

Não importa o que o passado fez de mim. Importa o que eu faço com o que o passado fez de mim.

Derlei Catarina De Luca
professora

 
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