Peo que vocs se apresentem, falem de suas trajetrias: a formao, o trabalho, sintam-se vontade para pontuar elementos marcantes na infncia ou juventude. Como foi o encontro com a filosofia? E a profissionalizao? Como se d ainda hoje a relao com a filosofia e seu ensino?
Maria Lcia: Tive uma infncia e adolescncia bastante atpicas, em razo do trabalho de meu pai, funcionrio pblico que passou por diversas cidades do interior de So Paulo. Por isso para a formao nos cursos primrio e ginasial (que correspondem ao Ensino Fundamental), a aprendizagem foi fragmentada e s vezes incoerente, pelas lacunas deixadas pelo caminho. No Ensino Secundrio pblico, ainda eram vigentes as Leis Orgnicas do Ensino promulgadas em 1942 por Gustavo Capanema, ministro do presidente Getlio Vargas. No ento chamado curso colegial optei pela alternativa do curso clssico (com foco em humanidades), descartando o curso cientfico (focado nas matemticas e nas cincias da natureza). Essa diviso, criticada por pedagogos em razo de compartimentar a aprendizagem em um perodo em que o currculo deveria ser mais abrangente, arrisca ser a preferncia do momento atual. Resta lembrar que sempre cumpri as tarefas escolares e tive tempo para outras atividades, alm de consultar livros da biblioteca de meu pai, de preferncia os de histria geral, psicologia, sociologia e filosofia, ampliando os recursos de argumentao em dissertaes escolares, ao mesmo tempo que reforou a inclinao para cincias humanas.
Ao finalizar a ltima etapa de estudos, em 1959, chegara o momento de decidir sobre os rumos para o ensino superior. No me lembro de ter uma opo diferente do que a carreira de professora e a escolha pela filosofia talvez por identificao com as leituras. E assim aportei na Faculdade de Filosofia Cincias e Letras So Bento, na Pontifcia Universidade Catlica de So Paulo (PUC/SP). Por que no a Universidade de So Paulo (USP)? Na verdade, eu no tinha noo da importncia da USP, por isso devo a meu pai a opo mais adequada sua viso crist e conservadora. Dei incio a meu curso de filosofia em 1960. Desde ento vivo em So Paulo, cidade que apreendi a acolher no corao. O curso de Filosofia na PUC de So Paulo no foi satisfatrio em razo do paradigma doutrinal, com predomnio da orientao tomista e pouco interesse por filosofia contempornea. O mais antigo professor foi Alexandre Correia, nascido em So Paulo e que, entre diversas obras, traduziu do latim a Suma Teolgica, de Toms de Aquino. Vieram outros, formados na Blgica, como Leonardo Van Acker e o padre Michel Schooyans.
Na dcada de 1970 o governo militar implantou o programa de ps graduao de mestrado e doutorado. Matriculei-me em Filosofia da Educao na PUC/SP, onde cumpri quase todos os crditos, at interromper o curso em 1976, em razo de diversas dificuldades profissionais no magistrio escolar e de obrigaes da vida domstica, com filhos ainda pequenos. Este ltimo curso valeu muito mais do que o anterior, em razo do posicionamento dos professores dispostos a refletir sobre o pensamento filosfico contemporneo e a compreenso dos fenmenos da educao, como Dermeval Saviani e Antonio Joaquim Severino entre outros igualmente mais jovens. Naquele perodo entrei em contato com autores como Marx, Heidegger, diversos filsofos da Fenomenologia, Paul Ricoeur.
Edgar Lyra: Nasci em Ipanema, mas fui criado, desde criana muito pequena, no Rio Comprido, bairro da zona norte do Rio de Janeiro. Fiz minha primeira graduao em Engenharia Qumica na UERJ, de 1977 a 1981, portanto ainda durante a ditadura militar. No ambiente em que cresci, escolhia ser professor quem no fosse suficientemente inteligente para fazer coisa mais sofisticada ou rentvel. Trabalhei at 1987 na Refinaria de Petrleo de Maguinhos, de onde pedi demisso por falta de motivao, apesar de bastante bem remunerado. O dinheiro poupado me permitiu ficar sem trabalho fixo durante bom tempo. Dediquei-me pintura e aos estudos de histria e filosofia da arte. Cheguei a comercializar minhas pinturas e desenhos numa galeria de arte do Rio de Janeiro e a atuar como carnavalesco em escolas de samba de Terespolis (Rainha do Alto e Gavies da Colina), cidade para onde me mudei aps a demisso da refinaria e onde chegaria a ser secretrio municipal de cultural, entre 1991 e 1992. Estive tambm nesse perodo muito envolvido com a prtica e a histria da capoeira. Apenas em 1996, por sugesto de um amigo artista plstico, apliquei e fui aprovado no mestrado em filosofia da PUC-Rio, onde posteriormente fiz doutorado e me fixei como professor do programa de ps-graduao.
Sobre a presena da Filosofia na educao bsica, falem um pouco da relao com a filosofia no cho da escola, quais elementos seriam indispensveis para ensinar a filosofar e depois faam uma breve anlise da histria recente, com a obrigatoriedade da Filosofia nas trs sries do Ensino Mdio, a partir de 2008, e o atual contexto de reforma do Ensino Mdio, com a lei 13.415/2017, que se entrelaa Base Nacional Curricular Comum (BNCC), ambas estruturadas por reas de conhecimento e no mais por componentes curriculares.
Maria Lcia: Iniciei a profisso de professora em 1965, lecionando em escolas pblicas nos cursos Clssico e Cientfico, perodo em que era vigente a primeira Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1961, que tornara a Filosofia disciplina complementar. Sempre em So Paulo, lecionei na Escola Estadual de Segundo Grau Braslio Machado e, posteriormente, fui removida para a Escola Estadual de Segundo Grau Carlos Augusto de Freitas Villalva Jr.
Precisei abandonar o magistrio nas escolas pblicas em razo da assinatura da Lei 5.692/71 para o 1 e 2 graus, que implantou o ensino profissionalizante, com declarada participao dos Estados Unidos. Alm da excessiva burocratizao do ensino e da imposio de uma metodologia externa aos interesses da educao e liberdade de professoras/es, deu-se o desmantelamento do currculo com a diminuio da carga horria de disciplinas fundamentais, alm da excluso definitiva da Filosofia. O projeto de profissionalizao resultou em meta no cumprida, at porque o governo no se interessou por torn-la vivel. Migrei para escolas particulares (Santa Cruz, Palmares, Galileu Galilei e Nossa Senhora das Graas) que no cumpriam risca as diretrizes oficiais, continuando, ao contrrio, a oferecer formao integral e crtica, o que garantiu a permanncia da Filosofia em mais de uma dezena de escolas, apenas na cidade de So Paulo. Vale destacar a importncia das reunies semanais de professoras/es, facilitadoras da integrao entre disciplinas, quando necessrio.
Quanto aos procedimentos metodolgicos, desde o incio optei pela centralidade de temas filosficos para, a partir deles, seguir buscando as referncias da histria da filosofia, com o cuidado de apresentar a histria de maneira filosfica, ou seja, interpretando os conceitos criados, enfim, dialogando com o pensamento da/o filsofa/o no seu tempo e com as ressonncias no momento presente. Esse trabalho era enriquecido com o recurso a passagens de obras filosficas para aprender o processo de leitura analtica (composta de anlise textual, anlise temtica, anlise interpretativa e problematizao). Concomitante leitura analtica, a dissertao ocupa um lugar importante na tradio filosfica por aperfeioar a competncia discursivo-filosfica e, portanto, a autonomia de pensamento. Um caminho para o plano da dissertao costuma atender a trs procedimentos - a introduo, o desenvolvimento e a concluso -, com destaque para o segundo momento, calcado no rigor da argumentao.
O Programa Nacional do Livro Didtico (PNLD), em sua existncia de uma dcada no formato que adotou desde 2010, para todas as disciplinas, nesta edio em curso (2021), em atendimento BNCC e ao novo formato do EM, permitiu grandes alteraes no formato dos livros didticos, com livros integrados por rea, para cada itinerrio formativo. Como vocs avaliam essas alteraes nos produtos educacionais que esto sendo propostos e o impacto sobre os livros didticos especficos de Filosofia?
De 2015 para c, registre-se, ganhou ateno na comunidade filosfica a questo do descentramento da filosofia, com crescimento do interesse por tradies no europeias e por autorias femininas, cabendo discutir como esse movimento pode ou no dialogar com as atuais propostas de interdisciplinarizao. Acima de tudo problemtico me parece ser o modo pouco democrtico e desacompanhado de providncias estruturais com que todas essas transformaes curriculares tm se dado. Oxal tenhamos mais para adiante ocasio para retomar, no mbito governamental, um debate realmente aberto, plural e demorado, altura da complexidade das questes envolvidas e do real formativo posto pelos desafios e impasses do sculo XXI.
A Filosofia uma forma de pensamento organizado, conceitual e que tem a capacidade de movimentar a si prprio por meio da identificao e da formulao de problemas. Dessa forma, a Filosofia , por natureza, problematizadora, evitando fornecer respostas prontas para as questes levantadas e criando questes, perguntas e problemas que fazem com que o pensamento nunca cesse seu ciclo de existncia.
No se sabe ao certo se a Filosofia tem mais ou menos 2600 ou 5000 anos de tradio. Se considerarmos a influncia do pensamento egpcio sobre os povos gregos, a Filosofia pode ter mais de 3000 anos; j se considerarmos que j havia a produo de um tipo de pensamento filosfico no extremo Oriente, a raiz primeira da Filosofia, que pode ser identificada nos antigos ensinamentos budistas, j passa dos 5000 anos de existncia.
Trabalhando com a oposio que os antigos gregos tentaram fazer entre mitologia e razo, a que no representa uma ruptura radical de uma com a outra, a Filosofia seria uma nova maneira de criar significados para o mundo, afastando-se daquele modo religioso de pensar. A Filosofia seria, segundo os filsofos, um modo de criar mecanismos (que eles chamaram de dispositivos) que forneam uma primeira capacidade de entendimento do mundo.
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