Não é preciso ser o todo-poderoso administrador de sistemas de uma rede para usar o Htop. Talvez ele tenha sido criado com os mestres do universo em mente, mas só porque você é um mero e solitário usuário de desktop, enfiado num quarto povoado por fatias de pizza, de cara para um único computador, não significa que você não possa usá-lo também. Neste artigo, vou mostrar como configurar e usar o Htop para monitorar os recursos do sistema e como usar esse diminuto aplicativo interativo para gerenciar os aplicativos e processos em execução no desktop.
Você não vai ter muito trabalho para instalar esse programinha. Todas as distros GNU/Linux vêm com o Top instalado. Ele é mais velho que a barba do Richard Stallman. Duvida? Então digite top em um console. Se você não obtiver uma saída (detalhada) eu esqueço do software livre e volto a usar o Windows. A saída do Top
não é lá muito agradável aos olhos (pode ser uma boa ideia mexer nas
cores de fundo e do texto para melhorar a visibilidade). O visual não é
de cair o queixo. Vejam a saída que eu obtive agora:

Figura 1: o Top, sem ajustes
Entendem o que eu quero dizer? A tela acima é uma foto batida pelo utilitário Ksnapshot, mas o Top em si é, como diz a man page, uma exibição dinâmica em tempo real de um sistema em execução.
Se eu estivesse rodando um utilitário de gravação do desktop, vocês
veriam a saída sendo atualizada em tempo real. A man page também
informa que a saída é configurável, e que as configurações podem ser memorizadas. O Top é mesmo interativo, mas isso não fica claro logo de cara. Enquanto o Top é executado, é preciso apertar a tecla H para ver suas opções e depois apertar qualquer outra tecla para voltar à saída. Em sua configuração padrão, o Top
é atualizado em tempo real, o que pode ser um pouco irritante se você
quiser acompanhar de perto um processo específico do sistema, ou os
recursos que estão sendo devorados por um aplicativo guloso.
Para resolver isso, é possível configurar a taxa de atualização (o padrão é de cinco segundos) pressionando a tecla D,
que abre um prompt que permite aumentar ou diminuir o intervalo entre
atualizações. A barra de espaços ignora essa configuração e atualiza a
saída. Além da lista de saída, você verá um conjunto de parâmetros no
topo do console. Dentre eles, coisas como estatísticas de carga do
sistema, uso de memória e CPU. Elas podem ser ativadas e desativadas
com l, m e t, respectivamente. Se você quiser saber o significado de todas essas colunas e como reorganizá-las, pressione o:

Figura 2: opções de configuração do Top
Com um pouco de trabalho, é possível obter uma saída mais fácil de
ler, configurada de acordo com suas necessidades. Mas em comparação ao Vmstat, o Top é bastante prolixo:

Figura 3: a saída do Vmstat é espartana se comparada à do Top
Um recurso legal das opções do Vmstat é a capacidade de adicionar
parâmetros para atualizar a cada x segundos por um determinado número
de vezes e depois sair. Por exemplo, vmstat 3 6 executa o utilitário, atualiza a saída a cada três segundos por seis vezes, e depois sai:

Figura 4: Vmstat com opções
Legal, mas o que temos aqui são as estatísticas da memória virtual,
e você vai perder seu tempo procurando por gargalos entre os
aplicativos. Você precisa do Top para isso, mas embora
ele seja interativo até certo ponto, a interatividade dele não é muito
óbvia, nem agrada aos olhos. Vamos usar o Htop.
O Top já vem instalado, mas o Htop precisa ser baixado
pelo seu gerenciador de pacotes. Deve ser fácil encontrá-lo em todas as
grandes distribuições GNU/Linux. Você só precisa saber que ele é feito
em C e exige a biblioteca ncurses. Caso use o Aptitude
no Debian (e tenha baixado o Htop por ele) você reconhecerá a interface
no ato. Ao contrário do Top, o usuário interage com o Htop tanto pelo
teclado quanto pelo mouse. E ele é colorido. Isso pode ajudar a tornar
o visual mais agradável:

Figura 5: a saída padrão do Htop. Bem melhor.
A tela padrão tem duas partes: as estatísticas do sistema no topo e a saída dos recursos abaixo. Pelo Setup (configuração) é possível configurar o programa para exibir apenas as estatísticas que você quiser. É só apertar F2:

Figura 6: tela de configuração do Htop
Use as teclas de setas do teclado para navegar pelas opções do menu que você quiser e use as teclas de F1 a F9
para reorganizar a aparência das medições incluindo, excluindo ou
movendo-as para partes diferentes da tela. Se quiser mudar o tipo de
exibição do medidor de tempo, por exemplo, use as setas para direita e
para baixo para selecioná-lo, tecle Enter para alternar entre as
exibições disponíveis (texto, LED, barra e gráfico) e tecle F10 para sair. Isso pode ser feito em todas as categorias de medidores.
Assim como você pode selecionar a quantidade e o modo de exibição dos medidores, também pode melhorar a exibição escolhendo uma das paletas de cores disponíveis. Escolha as cores pelo menu Setup (configuração) e use as setas para chegar à lista de cores, escolhendo um padrão e pressionando a barra de espaços para ativá-lo (um X será marcado). Isso tudo diz respeito mais à aparência do Htop; o núcleo da natureza interativa do Htop, que o ajudará ativamente a visualizar e gerenciar os aplicativos e processos, está na organização da saída e no gerenciamento do que deve ser exibido. A configuração do Htop dá uma ideia da vasta quantidade de possibilidades de exibição:

Figura 7: opções de exibição de colunas
Se alguma coluna for dispensável, é só excluí-la, selecionando-a e pressionando F9.
Não se preocupe, para colocar uma coluna de volta é só selecioná-la na
lista Available Columns (colunas disponíveis) e pressionar F5.
Dependendo do que está sendo monitorado, é possível agrupar todos os
elementos necessários para uma tarefa específica. Obviamente, ajuda
bastante se você souber o significado de todas as abreviações de
colunas, mas uma consulta ao man htop retorna poucas informações. Nesse ponto, o man top é bem melhor, e muitos dos comandos do top também funcionam com o Htop, mas nem todos. Experimente. No Top, Ctrl + W salva as alterações feitas criando um arquivo de configuração ou alterando um já existente em ~/.toprc
para que as mudanças persistam em diferentes sessões, mesmo que o
computador seja reiniciado. Parece que isso não funciona com o Htop, o
que significa que alterações na configuração (F2) só valem
para a sessão atual e não são persistentes. A opção delay (atraso) do
Top pode ser usada para iniciar o Htop. Experimente htop -d 1. Mas você não vai poder nem piscar!
Se for preciso alterar a prioridade de um aplicativo, o Htop lida com o nice e o renice
de maneira mais amigável para o usuário do que o Top. No Top é preciso
obter o PID de um processo ou aplicativo para usar o comando. No Htop,
é só navegar até o item em questão e apertar F8 para usar o nice nele (o número máximo é 19). Isso pode ser feito por um usuário comum, mas para aumentar a prioridade (até um máximo de -20) é preciso rodar o Htop como root, do contrário o número não passa de 0.
É comum administradores e usuários terem que matar um processo ou
aplicativo, especialmente para que não tenham que invocar o anjo da
morte Ctrl + Alt +Del. Dispare o Htop em um terminal e fica fácil, fácil lidar com isso. Neste exemplo eu mirei no Apache e pressionei F9, o que permite ao usuário escolher a munição:

Figura 8: preparar, apontar, fogo!
Seja para matar um processo ou para mudar sua prioridade com nice e
renice, filtrar a lista por usuário pode ser útil. Pressione a tecla U
para revelar uma lista de usuários que podem ser selecionados para
restringir os processos exibidos. Essa é uma boa maneira de evitar que
um processo crítico seja eliminado ao rodar o programa como root:

Figure 9: o filtro de usuário é 10!
Se preferir, F6 é um atalho que permite classificar a
saída por categorias, como usuário, PID e prioridade. Só o que essa
função faz é agrupar, e não filtrar. As duas opções podem ser
misturadas. Se você usar U primeiro para selecionar um usuário, pode usar F6 para listar a saída de um usuário de acordo com categorias como prioridade, uso de memória e de CPU. Maravilha.
O Htop é divertido, tem um visual bom, é fácil de usar e é uma ótima
maneira de ver o que está acontecendo nas entranhas do sistema. E quais
são os pontos negativos do programa? Pouquíssimos. Não consegui
encontrar problemas graves. Melhor do que isso, só mesmo rodar o Htop
em um console retrátil no estilo Quake como o YaKuake (KDE) ou o Guauke (Gnome). É muito bom estar a apenas um F12
de distância do monitoramento do sistema. O Htop é extremamente
configurável e interativo, mas você pode achar que ele é uma solução
para um problema que você não tem. Mas se você for um programador que
compila e testa software, vai ser muito grato pelo Htop existir quando
estiver monitorando o desempenho de sua criação. Se preferir um método
mais tradicional pela linha de comando, ou um mais divertido com uma
interface gráfica para matar processos e aplicativos, dê uma olhada
neste excelente guia, divertido e informativo, que nosso amigo Andrew Min, da Free Software Maganize, preparou.