OBRIGADO DOUTOR!

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Leonel Leandro

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Feb 19, 2010, 9:24:29 AM2/19/10
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Com satisfação partilho com vocês as palavras do Doutor Gustavo Meirelles - neurologia / neurocirurgia da Clínica Galdino Campos.
 
LL



Sr. Leonel

Cheguei de viagem e só agora vi a mensagem abaixo, do colega Ronaldo Galdino.

Certa vez a televisão divulgou um comercial que dizia: "dor acima do umbigo pode ser infarte". Muitas pessoas se apavoraram indevidamente, outras impressionáveis passaram a sentir tais dores e o resultado foi uma avalanche de gente procurando pronto-socorros e exigindo fazerem ECG e outros exames, com a "certeza" de que estavam infartando.

Em outra ocasião havia uma campanha de esclarecimento sobre a AIDS que falava sobre os homossexuais, os bissexuais e os heterosexuais, e peguei um taxi onde o motorista me perguntou: "doutor, sei que não sou homossexual e nem bissexual, só não sei é o que significa "heterossexual" - o que é isso, hein?"
 
É como quando estamos jogando xadrez contra alguém sabidamente melhor do que nós, em certo momento acharmos que estamos ganhando e logo percebermos que aquele posicionamento das peças no tabuleiro na verdade era uma autêntica ilusão - e em seguidajustamente por isso, recebermos um belo xeque-mate.

Certo noite, ao chegar para um plantão hospitalar, me deparei com uma jovem recostada numa parede, de óculos escuros e com um boletim de atendimento nas mãos. "Estou esperando o oftalmologista", disse ela - como se os óculos escuros em plena noite já não tivessem me feito suspeitar disso. Como o colega especialista realmente ainda não havia chegado, para adiantar pedi-lhe para ver os seus olhos, imaginando que encontraria uma conjuntivite, mas o que vi foi uma das suas pálpebras arriadas e, do mesmo lado, a pupila dilatada e o globo ocular sem movimento para dentro - sendo esta uma tríade neurológica clássica de um problema alarmante. Pedi que ela se internasse de imediato, fiz uma angiografia cerebral e confirmei: ela tinha um aneurisma cerebral que ainda não havia se rompido, e ele era o responsável por toda aquela sintomatologia. Operei-a, e ela ficou muito bem - lembrando que os aneurismas cerebrais, ao se romperem, matam metade das suas vítimas. 

Sinais e sintomas decorados por um leigo que pensa tê-los identificado em alguém podem ser uma "armadilha" do organismo alheio, quando na verdade pode estar ocorrendo algo diferente, mais grave ou até mais simples.

Por telefone, isto é muito comum. Já me ligaram e disseram: "doutor, preciso que o sr. venha urgente aqui em casa - meu marido está tremendo muito! ..."  Enquanto seguia ao encontro do paciente, pensava em todas os diversos diagnósticos diferenciais que podem ocasionar tremores (mal de parkinson, insuficiência hepática, abstinência alcoólica, crise febril e outras) - para ao chegar lá me deparar com a pessoa tendo tremores apenas por tensão, fruto de uma má notícia que acabara de receber.

Por isso, quando vejo na TV o repórter de uma matéria sobre saúde iniciar a frase "os principais sintomas são ...", já me preocupo - pois quantas doenças conhecemos que também possuem aqueles sintomas, e de repente estão sendo "dispensadas" por "decisão" daquele repórter!?!...

Especificamente sobre os ditos "derrames", eles podem gerar sintomas iniciais variadíssimos que nem sempre incluem a dificuldade de sorrir, de dizer uma frase coerente ou de erguer ambos os braços - e absolutamente não se consegue recuperar a maioria deles em três horas (às vezes um "princípio de derrame" pode reverter até em menos tempo do que isso, mesmo sem qualquer tratamento, mas um "derrame" propriamente dito exigirá bem mais para a sua recuperação - e sem garantias de ausência de sequelas).

Ao mesmo tempo, uma pessoa pode ter dificuldade de sorrir por uma paralisia facial à frigore (nada a ver com "derrame"), pode não dizer frases coerentes por embriaguez, pelo uso de um medicamento sedativo ou por um ataque isquêmico transitório e pode não erguer os braços por problemas ortopédicos, reumáticos ou circulatórios - porém se uma pessoa leiga só está focado em "derrames", acabará concluindo o que não existe pela sua natural limitação do raciocínio médico.

Portanto é sempre bom passarmos noções de medicina para os leigos, mas devemos ter cautela para eles não se confundirem porque se nem mesmo os médicos dominam todos os sintomas das doenças, não se pode esperar que os leigos o façam.

Concordo que se alguém passou mal subitamente (com qualquer sintoma que seja), deve procurar um médico ou ser levado a ele de imediato - mas ser médico não é apenas ser capaz de reconhecer sinais e sintomas, é antes de tudo pensar como médico - e essa transformação interna exige muito aprendizado, conhecimento e experiência de cada um de nós.

Cordialmente ao seu dispor

Dr. Gustavo Meirelles - neurologia / neurocirurgia 

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