Fwd: Não basta regular, é preciso ter infraestrutura digital pública, diz especialista (Entrevista de Evgeny Morozov, Folha de S. Paulo, 27/08/2023)

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Graciela Natansohn

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Aug 29, 2023, 4:06:08 PM8/29/23
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De: Marcos Palacios <marcos....@gmail.com>
Date: ter., 29 de ago. de 2023 16:10
Subject: Não basta regular, é preciso ter infraestrutura digital pública, diz especialista (Entrevista de Evgeny Morozov, Folha de S. Paulo, 27/08/2023)
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De: Suzana Barbosa <suzana....@gmail.com>
Date: ter., 29 de ago. de 2023 às 13:33

Não basta regular, é preciso ter infraestrutura digital pública, diz especialista

Evgeny Morozov prega investimento estatal em sistemas de IA e taxação progressiva para evitar armadilha da dependência


27.ago.2023 


SÃO PAULO

Regular a internet para restringir o poder das big techs é necessário, mas não suficiente. É preciso investir em uma infraestrutura pública digital, com uma política industrial para isso, seguindo o exemplo da Índia e dos EUA.

Esse é o alerta do especialista em tecnologia Evgeny Morozov, que fará nesta segunda-feira (28) uma palestra em São Paulo, promovida pelo Comitê Gestor da Internet.


Depois, o pesquisador se reunirá com integrantes dos ministérios da Fazenda, Ciência e Tecnologia, e da Secom (Secretaria de Comunicação Social), em Brasília, para discutir políticas digitais.

Para Morozov, se não investirem e tornarem a infraestrutura digital um bem público, países como o Brasil vão reproduzir, e aprofundar, a armadilha da dependência —grandes corporações, a maioria delas americanas, estão se apropriando gratuitamente de dados para treinar modelos de inteligência artificial e irão vender esses serviços para o Sul Global, e vender caro.

O sr. acaba de lançar o podcast "The Santiago Boys", sobre a tentativa do governo chileno de Salvador Allende de criar uma tecnologia nacional que beneficiasse a sociedade e reduzisse a dependência de multinacionais. Pensando no momento atual, qual é a importância de regular as big techs e de investir em tecnologias próprias?
O Vale do Silício se expande como um gás. Começa em uma área, expande-se para outras, e, sem regulamentação, se espalhará por toda parte. Temos visto esforços das grandes empresas de tecnologia nos EUA para entrar na área da saúde, educação e segurança nacional.

Elas começaram como mecanismos de distribuição de conteúdo, apenas organizando informações e vendendo publicidade. Agora, tornaram-se uma porta de entrada para quase tudo.

Existem duas abordagens possíveis. Uma é tentar evitar que esse "gás" se espalhe —impor restrições aos dados que podem ser usados para, por exemplo, inteligência artificial generativa. Mas isso não é ambicioso o suficiente, porque basicamente força os cidadãos a escolher entre não ter nada ou ganhar o ‘objeto brilhante’ que vem do Vale do Silício e promete fazer tudo.

Nos últimos dez anos, eu tenho descrito e criticado essa ideologia, de dizer que a tecnologia é uma solução, um pacote que resolve todos os problemas sem necessariamente informar ao mundo quais são os custos. E, ao mesmo tempo, não há nada do outro lado, existe apenas o Estado regulador buscando impedir que essa digitalização, essa tempestade do Vale do Silício aconteça.

Então, nesse sentido, a segunda opção é criar infraestrutura pública robusta que possa abarcar o maior número possível de camadas desses sistemas digitais. Esses sistemas precisariam estar nas mãos do público, seja como estatais, seja como instituições.

Não há motivo para tecnologia como a IA generativa não ser parte ou uma extensão do trabalho realizado por instituições culturais financiadas pelos contribuintes. Temos iniciativas financiadas por impostos para digitalizar livros, fomentar cultura, estimular projetos acadêmicos. Tudo isso gera dados, imagens, sons.

Aí alguém do Vale do Silício chega, extrai tudo isso, gera IA generativa e vende de volta ao Estado. Faz sentido se você é um gestor de ativos ou um capitalista de risco, não faz sentido do ponto de vista do benefício público.

A regulamentação é importante, mas não podemos apenas discutir o que fazer com relação ao WhatsApp ou ao Facebook. Precisamos pensar o que fazer a respeito dessas enormes infraestruturas digitais que empresas privadas estão vendendo de volta às instituições públicas e aos cidadãos.

Em um ensaio publicado no New York Times em junho, o sr. discute como o Estado e as pessoas estão abrindo mão de determinados serviços e sistemas e transferindo essas funções para empresas de tecnologia. Quais são os perigos desse processo?
Quando se trata de serviços de ponta como computação em nuvem e inteligência artificial, estamos falando de um punhado de empresas americanas sediadas no Vale do Silício.

Elas aprenderam a lição nos últimos cinco anos, depois de serem pegas desprevenidas com a reação negativa que começou a surgir após a eleição de [Donald] Trump e da revelação do escândalo da Cambridge Analytica.

Isso criou um ambiente de discussões políticas e regulatórias para o qual elas não estavam preparadas. E então elas perceberam que não basta fazer lobby, é preciso também moldar a discussão.

As empresas lançaram uma ofensiva de charme, pedindo proativamente a regulamentação. Elas sabem que as chances de Washington chegar a um conjunto inteligente de políticas com as quais a esquerda e a direita concordem são nulas.

Então, elas acabam falando "nos regulem", mas sabem que isso nunca acontecerá. Concordam com a regulamentação desde que ela não os prejudique. E querem controlar a discussão sobre isso. Insistem que é preciso apoiar algo como o ChatGPT, mesmo que o modelo de negócio dele seja completamente obscuro, não muito diferente do SoftBank, Uber ou WeWork, empresas que prometem o impossível.

Só depois o resto de nós percebe que elas estão operando com dinheiro emprestado. É fácil operar com dinheiro emprestado quando as taxas de juros são zero. Mas se olharmos para o Twitter, somente os pagamentos de juros em outubro, após a aquisição por Elon Musk, são algo em torno de US$ 1,5 bilhão. E quando você enfrenta um pagamento de juros desse tipo, fará de tudo para cortar serviços extras, cobrar por serviços e produzir recursos extras pagos.

Provavelmente está acontecendo a mesma coisa com o ChatGPT. Os políticos deveriam insistir em avaliar o ChatGPT antes de permitir que Sam Altman [fundador da Open AI, que criou o ChatGPT] se encontre com primeiros-ministros.

O sr. cunhou o termo ‘solucionismo’ para a ideia falsa de que todo problema tem uma tecnologia que pode solucioná-lo de forma fácil e sem custos. O que acontece quando um serviço público é substituído por uma tecnologia, muitas vezes de propriedade de empresas que formam oligopólios?
Construímos parques, bibliotecas e ruas públicas. Não há uma taxa associada a quanto você usa um livro na biblioteca, porque se supõe que é um bem público que permite que você se torne mais inteligente e contribua para a sociedade.

Se Elon Musk tivesse de administrar uma biblioteca pública, haveria cobrança por cada página, sorriso e anotação que você fizesse. Já vemos isso com mensagens diretas no Twitter, que você nem pode usar da mesma forma como antes, a menos que se torne um assinante pago.

Então, é uma forma de criar escassez artificial em contraposição à promessa inicial de abundância digital. Isso mostra a hipocrisia suprema na posição do Vale do Silício, as palestras TED que esses ideólogos dão todos os anos são sobre abundância digital, sobre contornar os limites do mundo físico porque o digital nos permite ter tudo em quantidades ilimitadas.



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