Domingo, 30 de Agosto de 2009

O comentarista
Stanley Burburinho,
no blog do Luis Nassif, publicou um mavioso diálogo cometido em uma
novelinha da Globo. Outro comentarista, Doug, publicou o vídeo.
Os atores, num
caipirês
sórdido que deve ser falado só em Netuno e, portanto, ofensivo à
musicalidade genuína dos terráqueos caipiras, reproduzem um texto que,
por sua vez, só pode ter saído de uma cabeça afinada com os nobres
ideais e práticas de partidos mais aristocráticos, por assim dizer.
Talvez algo parecido com o que vemos nesta
enquete.
Em cena há um homem ensinando a uma mulher como fazer campanha política
baseada em falsas promessas, mentiras, engôdos, traições. Lá pelas
tantas, uma das pérolas:
Atriz: “Vamos perfurar um poço de petróleo aqui na cidade.”
Ator: “Você não é candidata a presidente da república. Nem presidente da Petrobras.”
Atriz: “Quanto custa pra perfurar um poço de petróleo?”
Ator: “Muito…”
Atriz: “Mais de mil escolas?”
Ator: “Bota mil nisso…”
Pois
bem. Eu não entendo nada de petróleo e seus poços ou seus preços; isto
é lá com a Petrobras que sabe da missa muitíssimo melhor do que o autor
da novela, a sua emissora e o time político da CPI homônima. Mas fiquei
curiosa quanto ao valor de uma escola pública, que é obrigação do
governo, não da Petrobras. Como as falas foram feitas sob medida para
quem ainda não é um candidato 2010, fui atrás da informação.
No site da FDE, em
Licitações - Obras, encontrei um edital interessante para
construção em estrutura pré-moldada em concreto com elevador, no Jardim Sto Eduardo III (
Rua Oliveira 86), Embu:
05/2982/08/01 - ver ao final do texto.
Sabe-se inclusive em Netuno, onde se fala aquele idioma da novelinha,
que o valor de uma escola é baseado no número de salas de aula que ela
terá, ou seja: o preço médio da construção é calculado pelo valor
global dividido pelo número de salas. No caso desta escola específica,
pelo edital somos informados que estão previstas 13 salas de aula, mais
3 salas ambiente. São 16 salas, pois. Também sabemos que a escola já
existe, mas será
demolida. Portanto, a escolha deste edital vem a calhar, o valor é mais alto do que uma simples construção em terreno limpo.
Se você recorrer ao texto do Diretor de Obras e Serviços da FDE e do
Gerente de Obras, verá que tudo foi absolutamente previsto, do sub-solo
ao telhado, passando pelo jardim - do qual falarei mais tarde. A FDE
lançou o valor
global
da obra em R$4.302.433,69 (página 48). As empresas concorrentes na
licitação deveriam oferecer preço menor que este para poder ganhar o
certame. No dia
31 de março foi declarada vencedora a empresa
Scopus Construtora & Incorporadora Ltda - parceira assídua do Estado. No dia
24 de abril, o valor da escola completa:
R$ 4.173.395,74. A Scopus tem 270 dias para completar o serviço. Boa sorte.
A partir disto conclui-se que
uma sala de aula vale
R$ 260.873,23. Arredondemos para
R$ 260 mil,
por generosidade, porque tem coisas muito mais caras que o preço de
mercado naquele edital. Vamos supor que seja a quantia média para a
construção de qualquer escola pública em São Paulo feita nas mesmas
condições. Uma unidade escolar com 10 salas custaria então
R$2.600.000,00.
Agora vamos pegar apenas alguns dos dinheiros que José Serra gastou até
o momento em coisas imprescindíveis (a ele e aos seus), citados neste
blog:
- propagandas/pesquisas, geoprocessamento e avaliação de opinião pelos serviços prestados pelo Estado aos seus cidadãos R$26.050.450,00 (valor parcial);
- publicações pedagógicas da Abril, Globo, Folha, Estadão etc. - R$75.913.495,60 (valor parcial);
- teleatendimento da FDE, pela Call Tecnologia e Serviços, que não funciona como manda o edital - R$3.984.000,00 (valor somente da empresa, fora o software e possíveis aditamentos);
- 463.088 livros Memórias Inventadas, de Manoel de Barros, impróprio aos alunos - R$2.315.440,00;
- 26 programas Almanaque Educação, patrocinando a TV Cultura - R$4.718.714,29;
- software Blue Control, da MStech para o Acessa Escola, que não funciona como reza o edital - R$6.046.689,76 (só até maio de 2009, falta atualizar);
- contrato com Escola do Futuro (USP) para o Acessa Escola - R$4.861.043,58;
- compras de licenças de software CRM e outros Microsoft, com a empresa Brasoftware - R$2.796.848,34 (valor mínimo do negócio que pode chegar aos R$97.801.694,39);
- 50.628 mapas-múndi com erros, da Brink Mobil - R$4.774.960,20 (valor sem as tabelas periódicas);
- algumas das agências de propaganda e assessoria de imprensa de Paulo Renato Costa Souza na SEE-SP - R$111.400.000,00.
- TOTAL: R$ 242.861.641,77
Já deu para entender aonde vamos?
Isto mesmo: pegue aquele total e divida por
R$ 2.600.000,00.
Quantas escolas com 10 salas de aula teríamos? Lembre-se que uma escola, em média, atende a 1.000 alunos, em três períodos/dia.
Teríamos
93 novas escolas para o Estado de SP.
O que responde a pergunta da novelinha.
Interessante que alguns dos itens acima correspondem ou ultrapassam o preço de uma escola completa.
Para saber mais sobre o tema e decorrentes, ver urgentemente o relatório de auditoria
Contas Anuais do Governador do Estado de São Paulo - José Serra, pelo Tribunal de Contas do Estado, exercício 2008, aprovadas pelo Conselheiro Dr.
Robson Marinho. Há excelentes materiais. Um bom começo: página 282.
Um jardim da Babilônia
Naquele mesmo edital está previsto um pequeno jardim. São onze árvores,
sendo: duas quaresmeiras (R$72,71 = R$145,42), sete manacás-da-serra
(R$72,53 = R$507,71), ambas com um ou um metro e meio de altura; uma
amoreira (R$59,02), uma pitangueira (R$56,70), entre 50 centímetros e
um metro de altura. O gramado de 266 metros é São Carlos: R$9,98 o
metro² = R$2.654,68. Total do jardim:
R$3.423,53.
Gente, o que é isso? Quem foram os fornecedores pesquisados para fazer
o edital? Caro demais. Chama atenção porque o Estado tem ótimos
viveiros que distribuem árvores gratuitamente, não poderia haver um
programa doador às escolas? José Serra também não poderia pegar as
árvores que arrancou da Marginal Tietê e entregá-las em novas obras? Ou
ainda, poderia buscar na WEB para encontrar o site
Feira de Flores,
do pessoal da CEAGESP. Lá tem quaresmeiras de R$10 a R$15,
manacás-da-serra de R$25 a R$60; pitangas de R$25 a 50 e amoreiras a
partir de R$3.
E a grama do Serra, então? O preço dele está pela hora da morte. No mesmo site encontra-se por
R$3,30 a R$4,50. Portanto, com aquele valor do paisagismo poderiam ter algo melhor e mais barato.
Agora, se o preço das plantas está muito acima do mercado, o que nos
impede de pensar que o resto também não esteja? Eu até fiz uma pequena
pesquisa por amostragem, foram 15 itens. E meus temores se confirmaram.
Experimente você também.
Edital Construcao Escola FDE EEOdeteMF 2009