1. Era, portanto, de desejar que se redigisse um compndio de toda a matria, apresentando de modo sistemtico as pilastras da doutrina social catlica. Disto se encarregou de modo louvvel o Pontifcio Conselho da Justia e da Paz, dedicando iniciativa um intenso trabalho ao longo dos ltimos anos.
Regozijo-me pela publicao do volume Compndio da Doutrina Social da Igreja, compartilhando com Vossa Eminncia a alegria de oferec-lo aos fiis e a todos os homens de boa vontade, como nutrio de crescimento humano e espiritual, pessoal e comunitrio.
2. A obra mostra como a doutrina social catlica tem tambm valor de instrumento de evangelizao (cf. Centesimus annus, 54), porque pe em relao pessoa humana e a sociedade com a luz do Evangelho. Os princpios da doutrina social da Igreja, que se apiam sobre a lei natural, se vem confirmados e valorizados, na f da Igreja, pelo Evangelho de Cristo.
Nesta luz, o homem convidado antes de tudo a descobrir-se como ser transcendente, em qualquer dimenso da vida, inclusive a que se liga aos contextos sociais, econmicos e polticos. A f leva plenitude o significado da famlia que, fundada no matrimnio entre um homem e uma mulher, constitui a primeira e vital clula da sociedade; ela, ademais, ilumina a dignidade do trabalho que, enquanto atividade do homem destinada sua realizao, tem a prioridade sobre o capital e constitui ttulo de participao aos frutos que dele derivam.
3. No presente texto emerge ademais a importncia dos valores morais, fundamentados na lei natural inscrita na conscincia de todo ser humano, que por isso est obrigado a reconhec-la e a respeit-la. A humanidade pede hoje mais justia ao afrontar o vasto fenmeno da globalizao; sente viva a preocupao pela ecologia e por uma correta gesto dos negcios pblicos; adverte a necessidade de salvaguardar a conscincia nacional, sem contudo perder de vista a via do direito e a conscincia da unidade da famlia humana. O mundo do trabalho, profundamente modificado pelas modernas conquistas tecnolgicas, conhece nveis de qualidade extraordinrios, mas deve lamentavelmente registrar tambm formas inditas de precariedade, de explorao e at de escravido, no seio das mesmas sociedades assim ditas opulentas. Em diversas reas do planeta o nvel do bem-estar continua a crescer, mas aumenta ameaadoramente o nmero dos novos pobres e se alarga, por vrias regies, o hiato entre pases menos desenvolvidos e pases ricos. O mercado livre, processo econmico com lados positivos, manifesta todavia os seus limites. Por outro lado, o amor preferencial pelos pobres representa uma opo fundamental da Igreja, e ela o prope a todos os homens de boa vontade.
Pe-se assim de manifesto como a Igreja no possa cessar de fazer ouvir a sua voz sobre as res novae, tpicas da poca moderna, porque a ela compete convidar todos a prodigar-se a fim de que se afirme cada vez mais uma civilizao autntica voltada para a busca de um desenvolvimento humano integral e solidrio.
4. As atuais questes culturais e sociais envolvem sobretudo os fiis leigos, chamados, como no-lo recorda o Conclio Ecumnico Vaticano II, a tratar as coisas temporais ordenando-as segundo Deus (cf. Lumen gentium, 31). Bem se compreende, portanto, a importncia fundamental da formao dos leigos, para que com a santidade de sua vida e a fora do seu testemunho, contribuam para o progresso da humanidade. Este documento entende ajud-los em sua misso quotidiana.
igualmente interessante notar como numerosos elementos aqui recolhidos sejam compartilhados pelas outras Igrejas e Comunidades eclesiais, bem como por outras Religies. O texto foi elaborado de modo que se possa fruir no somente ad intra, ou seja, entre os catlicos, mas tambm ad extra. Com efeito, os irmos que tm em comum conosco o mesmo Batismo, os adeptos de outras Religies e todos os homens de boa vontade podem nele encontrar elementos fecundos de reflexo e impulso comum para o desenvolvimento integral de todo homem e do homem todo.
5. O Santo Padre faz votos de que o presente documento ajude a humanidade na busca operosa do bem comum e invoca as bnos de Deus sobre todos aqueles que se detiverem a refletir sobre os ensinamentos desta publicao. Ao formular tambm os meus votos pessoais de sucesso para esta obra, congratulo-me com Vossa Eminncia e com os Colaboradores do Pontifcio Conselho da Justia e da Paz pelo importante trabalho realizado e, com sentimentos de bem distinto obsquio, de bom grado me subscrevo
para mim motivo de viva satisfao apresentar o documento Compndio da Doutrina Social da Igreja, elaborado, por encargo recebido do Santo Padre Joo Paulo II, para expor de modo sinttico, mas completo, o ensinamento social da Igreja.
Transformar a realidade social com a fora do Evangelho, testemunhada por mulheres e homens fiis a Jesus Cristo, sempre foi um desafio e, no incio do terceiro milnio da era crist, ainda o . O anncio de Jesus Cristo boa nova de salvao, de amor, de justia e de paz, no facilmente acolhido no mundo de hoje, ainda devastado por guerras, misria e injustias; justamente por isso o homem do nosso tempo mais do que nunca necessita do Evangelho: da f que salva, da esperana que ilumina, da caridade que ama.
A Igreja, perita em humanidade, em uma espera confiante e ao mesmo tempo operosa, continua a olhar para os novos cus e para a terra nova (2Pd 3, 13), e a indic-los a cada homem, para ajuda-lo a viver a sua vida na dimenso do sentido autntico. Gloria Dei vivens homo: o homem que vive em plenitude a sua dignidade d glria a Deus, que lha conferiu.
A leitura destas pginas proposta antes de tudo para suster e animar a ao dos cristos em campo social, especialmente dos fiis leigos, dos quais este mbito prprio; toda a sua vida deve qualificar-se como uma fecunda obra evangelizadora. Cada fiel deve aprender antes de tudo a obedecer ao Senhor com a fortaleza da f, a exemplo de So Pedro: Mestre, trabalhamos a noite inteira e nada apanhamos; mas por causa da tua palavra, lanarei as redes (Lc 5, 5). Cada leitor de boa vontade poder conhecer os motivos que levam a Igreja a intervir com uma doutrina em campo social, primeira vista no de sua competncia, e as razes para um encontro, um dilogo, uma colaborao para servir o bem comum.
O meu predecessor, o saudoso e venerado cardeal Franois-Xavier Nguyn Van Thuan, guiou com sabedoria, constncia e largueza de viso, a complexa fase preparatria deste documento; a enfermidade impediu-o de conclui-la com a publicao. Esta obra a mim confiada, e ora entregue aos leitores, leva portanto o sigilo de uma grande testemunha da Cruz, forte na f nos anos escuros e terrveis do Vietnam. Ele saber acolher a nossa gratido por todo o seu precioso trabalho, realizado com amor e dedicao, e bendizer a todos os que se detiverem a refletir sobre estas pginas.
Invoco a intercesso de So Jos, Guardio do Redentor e Esposo da Bem-Aventurada Virgem Maria, Patrono da Igreja Universal e do trabalho, para que este texto possa dar copiosos frutos na vida social como instrumento de anncio evanglico, de justia e de paz.
2 Neste alvorecer do Terceiro Milnio, a Igreja no se cansa de anunciar o Evangelho que propicia salvao e autntica liberdade, mesmo nas coisas temporais, recordando a solene recomendao dirigida por So Paulo ao discpulo Timteo: Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaa, exorta com toda pacincia e empenho de instruir. Porque vir tempo em que os homens j no suportaro a s doutrina da salvao. Levados pelas prprias paixes e pelo prurido de escutar novidades, ajustaro mestres para si. Apartaro os ouvidos da verdade e se atiraro s fbulas. Tu, porm, s prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a misso de pregador do Evangelho, consagra-te ao teu ministrio (2 Tm 4, 2-5).
3 Aos homens e s mulheres do nosso tempo, seus companheiros de viagem, a Igreja oferece tambm a sua doutrina social. De fato, quando a Igreja cumpre a sua misso de anunciar o Evangelho, testemunha ao homem, em nome de Cristo, sua dignidade prpria e sua vocao comunho de pessoas, ensina-lhes as exigncias da justia e da paz, de acordo com a sabedoria divina [3] . Tal doutrina possui uma profunda unidade, que provm da F em uma salvao integral, da Esperana em uma justia plena, da Caridade que torna todos os homens verdadeiramente irmos em Cristo. Ela expresso do amor de Deus pelo mundo, que Ele amou at dar o seu Filho nico (Jo 3, 16). A lei nova do amor abrange a humanidade toda e no conhece confins, pois o anncio da salvao de Cristo se estende at aos confins do mundo (At 1, 8).
4 Ao descobrir-se amado por Deus, o homem compreende a prpria dignidade transcendente, aprende a no se contentar de si e a encontrar o outro, em uma rede de relaes cada vez mais autenticamente humanas. Feitos novos pelo amor de Deus, os homens so capacitados a transformar as regras e a qualidade das relaes, inclusive as estruturas sociais: so pessoas capazes de levar a paz onde h conflitos, de construir e cultivar relaes fraternas onde h dio, de buscar a justia onde prevalece a explorao do homem pelo homem. Somente o amor capaz de transformar de modo radical as relaes que os seres humanos tm entre si. Inserido nesta perspectiva, todo o homem de boa vontade pode entrever os vastos horizontes da justia e do progresso humano na verdade e no bem.
5 O amor tem diante de si um vasto campo de trabalho e a Igreja, nesse campo, quer estar presente tambm com a sua doutrina social, que diz respeito ao homem todo e se volve a todos os homens. Tantos irmos necessitados esto espera de ajuda, tantos oprimidos esperam por justia, tantos desempregados espera de trabalho, tantos povos esperam por respeito: Como possvel que ainda haja, no nosso tempo, quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado dos cuidados mdicos mais elementares, quem no tenha uma casa onde abrigar-se? E o cenrio da pobreza poder ampliar-se indefinidamente, se s antigas pobrezas acrescentarmos as novas que freqentemente atingem mesmo os ambientes e categorias dotadas de recursos econmicos, mas sujeitos ao desespero da falta de sentido, tentao da droga, solido na velhice ou na doena, marginalizao ou discriminao social. [...] E como ficar indiferentes diante das perspectivas dum desequilbrio ecolgico, que torna inabitveis e hostis ao homem vastas reas do planeta? Ou em face dos problemas da paz, freqentemente ameaada com o ncubo de guerras catastrficas? Ou frente ao vilipndio dos direitos humanos fundamentais de tantas pessoas, especialmente das crianas? [4] .
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