Falta conteúdo
Vive-se sob o império da forma, das aparências, do
exterior.
O ser humano está cada vez mais vazio, mais oco. Com o avanço
tecnológico, as pessoas usam mais as máquinas enquanto se mexem menos e pensam
menos ainda. O cérebro é um órgão com tendência a cair no desuso. Hoje muitos
estudantes não usam a cabeça para fazer as pesquisas escolares. Em minutos
localizam tudo na internet e só o que têm a fazer é imprimir. Aí sobra mais
tempo para os bate-papos virtuais, onde a língua portuguesa é massacrada. Já
pensaram como seria diferente se, em vez daqueles símbolos que dizem facilitar,
os interlocutores tentassem escrever o português correto? Seria uma oportunidade
para melhorar, pois um corrige o outro. O problema é que geralmente o pessoal
digita devagar, não sabe digitar com todos os dedos, e então escrever certo
tomaria muito tempo. “Naum eh msm?” Há quem diga que a linguagem cifrada das
conversas virtuais não atrapalha o aprendizado do idioma. Tenho cá minhas
dúvidas. A prática reiterada leva ao emprego incorreto das palavras no falar, no
escrever. O brasileiro não é afeito à leitura, não possui bom vocabulário.
Junte-se a isso os hieróglifos virtuais e veja o que dá. O baixo índice de
aprovação no exame da OAB significa o quê? Crianças aprendem a falar direito se
crescem ouvindo as palavras pronunciadas corretamente, e
vice-versa.
Duas matérias recentes da Veja impressionaram-me.
Uma mostra o alto índice de analfabetismo no Brasil; muitos com nível de
instrução considerado razoável têm dificuldade ou não conseguem interpretar
textos. Cerca de dois terços da população está nessa situação. Um país de
maioria analfabeta! É triste, não? Outra é sobre telefones celulares. “Celular é
item de moda. Ele diz muito sobre a pessoa”, diz a executiva de uma empresa do
ramo. A julgar pela afirmação, eu, que não tenho celular, ou não existo ou no
máximo sou um homem das cavernas. Vejam a que ponto chega a preocupação com a
forma, em detrimento do conteúdo! Pouco importa o que a pessoa tem dentro de si.
Na verdade pouco importa a pessoa. O que vale é o modelo do seu celular, o seu
carro, a sua roupa. Dizem os entendidos em moda que certas combinações são
inadmissíveis, como meia que não tem a cor do sapato ou da calça, gravata acima
ou abaixo da linha da cintura, tal gravata com tal paletó, tal camisa com tal
calça. Adepto do jeans-camiseta-tênis surrados, uso terno e gravata por dever de
ofício, mas não me preocupo com certas regras, embora admire pessoas
elegantes.
Diminuiu o interesse dos jovens pela música
erudita, o que levou gravadoras a mudar as ilustrações nas capas dos CDs para
tentar atrair tais consumidores. Se o conteúdo não atrai, muda-se a capa. O
desinteresse por música clássica não é só dos jovens.
Observem nas lojas quais as prateleiras mais
disputadas. Jazz e clássico, quando há, atraem uns gatos pingados. E a relação
dos livros mais vendidos? Já perceberam? E os filmes? Nas locadoras de vídeo, os
mais procurados são os de ação, violência. Aqueles com história, diálogos
inteligentes, idéias, são os menos alugados. A moda é o “trash”.
A Suzane von Richthofen disse: “Quero minha vida de
volta”. Não é espantoso? Seria de esperar que quisesse a vida dos pais de volta.
Foram eles que ela ajudou a matar. Mas não: quer a dela! O assassino Pimenta
Neves, falando com um repórter sobre o homicídio que cometeu, não demonstrou
nenhum remorso. Parecia referir-se a um texto a que, por um lapso, deixou faltar
uma vírgula. Tanto a garota rica quanto o jornalista “bem formado” deixaram
claro não possuir um pingo de densidade. Pessoas vazias, pequenas, sem essência,
invólucros apenas.
Poucos querem pensar, desenvolver o raciocínio,
expandir a visão da vida e do mundo, ampliar a capacidade de compreensão e o
poder de crítica, vencer a inércia intelecto-volitiva, conhecer e melhorar a si
mesmos. A maioria vive na artificialidade, na futilidade. Esse “modus vivendi”
gerou pessoas sem sensibilidade, sem noção de valores, sem princípios. Ou será
mera coincidência? O respeito, a civilidade, a educação, a ética, os bons
sentimentos foram esquecidos. É um efeito sem causa? Esses seres
inclassificáveis que dominam o universo político vêm de onde? O superficialismo
que prende o ser humano é um obstáculo ao seu crescimento, à sua valorização.
Para mim, o que importa é a pessoa, a vida. O resto vem depois. Urge uma revisão
de conceitos. É necessário redefinir o que tem valor e o que é supérfluo,
distinguir o que é vazio do que tem teor, resgatar sobretudo a sensibilidade, a
responsabilidade, o amor. Precisamos de conteúdo. Do contrário, logo seremos
dispensáveis, caro leitor.
PAULO COSTA é promotor de Justiça em
Piracicaba
Jornal "O Imparcial" de Presidente Prudente - SP,
19/05/2006, p. 3A