Falta conteúdo - Excessiva preocupação com a forma em detrimento do conteúdo

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May 20, 2006, 5:58:28 PM5/20/06
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Falta conteúdo
 
Vive-se sob o império da forma, das aparências, do exterior.
O ser humano está cada vez mais vazio, mais oco. Com o avanço tecnológico, as pessoas usam mais as máquinas enquanto se mexem menos e pensam menos ainda. O cérebro é um órgão com tendência a cair no desuso. Hoje muitos estudantes não usam a cabeça para fazer as pesquisas escolares. Em minutos localizam tudo na internet e só o que têm a fazer é imprimir. Aí sobra mais tempo para os bate-papos virtuais, onde a língua portuguesa é massacrada. Já pensaram como seria diferente se, em vez daqueles símbolos que dizem facilitar, os interlocutores tentassem escrever o português correto? Seria uma oportunidade para melhorar, pois um corrige o outro. O problema é que geralmente o pessoal digita devagar, não sabe digitar com todos os dedos, e então escrever certo tomaria muito tempo. “Naum eh msm?” Há quem diga que a linguagem cifrada das conversas virtuais não atrapalha o aprendizado do idioma. Tenho cá minhas dúvidas. A prática reiterada leva ao emprego incorreto das palavras no falar, no escrever. O brasileiro não é afeito à leitura, não possui bom vocabulário. Junte-se a isso os hieróglifos virtuais e veja o que dá. O baixo índice de aprovação no exame da OAB significa o quê? Crianças aprendem a falar direito se crescem ouvindo as palavras pronunciadas corretamente, e vice-versa.
 
Duas matérias recentes da Veja impressionaram-me. Uma mostra o alto índice de analfabetismo no Brasil; muitos com nível de instrução considerado razoável têm dificuldade ou não conseguem interpretar textos. Cerca de dois terços da população está nessa situação. Um país de maioria analfabeta! É triste, não? Outra é sobre telefones celulares. “Celular é item de moda. Ele diz muito sobre a pessoa”, diz a executiva de uma empresa do ramo. A julgar pela afirmação, eu, que não tenho celular, ou não existo ou no máximo sou um homem das cavernas. Vejam a que ponto chega a preocupação com a forma, em detrimento do conteúdo! Pouco importa o que a pessoa tem dentro de si. Na verdade pouco importa a pessoa. O que vale é o modelo do seu celular, o seu carro, a sua roupa. Dizem os entendidos em moda que certas combinações são inadmissíveis, como meia que não tem a cor do sapato ou da calça, gravata acima ou abaixo da linha da cintura, tal gravata com tal paletó, tal camisa com tal calça. Adepto do jeans-camiseta-tênis surrados, uso terno e gravata por dever de ofício, mas não me preocupo com certas regras, embora admire pessoas elegantes.
 
Diminuiu o interesse dos jovens pela música erudita, o que levou gravadoras a mudar as ilustrações nas capas dos CDs para tentar atrair tais consumidores. Se o conteúdo não atrai, muda-se a capa. O desinteresse por música clássica não é só dos jovens.
 
Observem nas lojas quais as prateleiras mais disputadas. Jazz e clássico, quando há, atraem uns gatos pingados. E a relação dos livros mais vendidos? Já perceberam? E os filmes? Nas locadoras de vídeo, os mais procurados são os de ação, violência. Aqueles com história, diálogos inteligentes, idéias, são os menos alugados. A moda é o “trash”.
 
A Suzane von Richthofen disse: “Quero minha vida de volta”. Não é espantoso? Seria de esperar que quisesse a vida dos pais de volta. Foram eles que ela ajudou a matar. Mas não: quer a dela! O assassino Pimenta Neves, falando com um repórter sobre o homicídio que cometeu, não demonstrou nenhum remorso. Parecia referir-se a um texto a que, por um lapso, deixou faltar uma vírgula. Tanto a garota rica quanto o jornalista “bem formado” deixaram claro não possuir um pingo de densidade. Pessoas vazias, pequenas, sem essência, invólucros apenas.
 
Poucos querem pensar, desenvolver o raciocínio, expandir a visão da vida e do mundo, ampliar a capacidade de compreensão e o poder de crítica, vencer a inércia intelecto-volitiva, conhecer e melhorar a si mesmos. A maioria vive na artificialidade, na futilidade. Esse “modus vivendi” gerou pessoas sem sensibilidade, sem noção de valores, sem princípios. Ou será mera coincidência? O respeito, a civilidade, a educação, a ética, os bons sentimentos foram esquecidos. É um efeito sem causa? Esses seres inclassificáveis que dominam o universo político vêm de onde? O superficialismo que prende o ser humano é um obstáculo ao seu crescimento, à sua valorização. Para mim, o que importa é a pessoa, a vida. O resto vem depois. Urge uma revisão de conceitos. É necessário redefinir o que tem valor e o que é supérfluo, distinguir o que é vazio do que tem teor, resgatar sobretudo a sensibilidade, a responsabilidade, o amor. Precisamos de conteúdo. Do contrário, logo seremos dispensáveis, caro leitor.
 
PAULO COSTA é promotor de Justiça em Piracicaba
 
 
Jornal "O Imparcial" de Presidente Prudente - SP, 19/05/2006, p. 3A
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