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Gustavo Schuch Tessmann

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Jul 29, 2015, 8:48:49 AM7/29/15
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Obama fala de direitos homossexuais, mas o Quênia responde com outro ponto
de vista


A fria resposta recebida do presidente queniano mostra a pouca
compatibilidade entre o pensamento liberal ocidental e o de muitos países
emergentes

Por Luca Marcolivio

Roma, 28 de Julho de 2015 (
<http://www.zenit.org?utm_campaign=diarioportughtml&utm_medium=email&utm_sou
rce=dispatch> ZENIT.org)

Direitos e oportunidades iguais para todos? O princípio não é assim tão
linear, nem pacífico; em muitos casos, pode até provocar “curtos-circuitos”
ideológicos.

Foi o que aconteceu na histórica visita de Barack Obama ao Quênia, a terra
dos seus antepassados ​​paternos, onde o presidente retomou o slogan do seu
segundo mandato: “amor é amor” e os gays também têm o direito de ser
tratados de forma justa. A referência foi implícita, mas clara, à decisão do
Supremo Tribunal dos EUA de confirmar a constitucionalidade do casamento gay
em todo o território do país.

"Eu acredito no princípio de que todas as pessoas são iguais perante a lei,
de que todos são dignos da mesma proteção e de que o Estado não deve
discriminar as pessoas com base na sua orientação sexual", disse Obama em
Nairóbi, durante um discurso em que também tinha falado contra a corrupção e
o racismo e em favor da igualdade de oportunidades para as mulheres, que, na
sua opinião, são tratadas no Quênia como "cidadãs de segunda classe".

Afirmando já ter sofrido a discriminação racial na própria pele, Obama quer
estender a não-discriminação também aos gays. Não por acaso, ele falou
explicitamente, em Nairóbi, sobre a propagação da homofobia no continente
africano.

Suas palavras, no entanto, não despertaram o entusiasmo do presidente
queniano Uhuru Kenyatta. "O fato é que o Quênia e os Estados Unidos têm
muitos valores em comum, mas temos de admitir que algumas coisas nós não
compartilhamos: a nossa cultura e a nossa sociedade não podem aceitá-las".

Num país em que os atos homossexuais são puníveis com prisão, Kenyatta
considera que a questão dos direitos dos homossexuais é um "não-problema",
um tema que não está na agenda. Para um transeunte queniano entrevistado
pela rede CBS, o pensamento de Obama a este respeito é "coisa de americano":
e os quenianos, "de acordo com a cultura africana" e os "valores cristãos",
dizem não aos direitos dos homossexuais.

Sem entrar na questão das violações dos direitos humanos que os gays sofrem
no Quênia, este caso mostra toda a problemática da extensão universal dos
próprios direitos humanos.

Os dilemas são muitos. Primeiro, vale perguntar: é pertinente equiparar a
discriminação racial à discriminação por orientações sexuais? E ainda: a
“longa marcha” dos direitos é um caminho inexorável ou devem respeitar-se as
tradições locais?

O multiculturalismo envolve um conceito de integração construído no Ocidente
com categorias que os países do mundo em desenvolvimento nem sempre
entendem, já que o único critério adotado nestes anos tem sido o da
globalização econômica.

A "exportação da democracia" vem implicando uma homologação das culturas,
uma verdadeira "colonização ideológica", que, como visto na discordância
entre os chefes de Estado do Quênia e dos EUA, gera faíscas.

As políticas liberais atuais têm se arvorado em “paladinas” dos países do
Terceiro Mundo, mas sem conhecer a sua verdadeira identidade, ignorando que,
além do que nos une, permanece o que nos divide.

É irônico que, mesmo na Europa, as forças políticas progressistas, mais
orientadas aos "novos direitos", são sempre as mais favoráveis ​​à política
de "portas abertas" para os estrangeiros, sem que estes realmente
compartilhem a opinião europeia sobre esses direitos. Pense-se na
participação notável de muçulmanos nas várias vigílias e manifestações
ocorridas na França em defesa da família natural, fundada no matrimônio
entre homem e mulher.

É oportuno perguntar-nos qual concepção vai prevalecer amanhã: a liberal,
dos "direitos para todos", ou a "arcaica", representada por um grande número
de países emergentes e baseada nos "valores cristãos" esquecidos no Ocidente
“desenvolvido”, mas defendidos pelos quenianos visitados por Obama?



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Análise

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Humanae Vitae: a coragem de Paulo VI para se opor aos estereótipos culturais
muito difundidos


Entrevista a Ángel Rodríguez Luño, decano de teologia da PUSC, sobre o
documento do Papa Montini: "Embora a encíclica refira-se diretamente ao
casamento, o que estava em jogo era a visão global da sexualidade"

Por Rocío Lancho García

Roma, 28 de Julho de 2015 (
<http://www.zenit.org?utm_campaign=diarioportughtml&utm_medium=email&utm_sou
rce=dispatch> ZENIT.org)

No dia 25 de julho de 1968, o Papa Paulo VI publicou a encíclica Humanae
Vitae sobre a doutrina da Igreja em relação ao matrimônio, a abertura à
vida, a contracepção e a paternidade e maternidade responsáveis. Tópicos que
seguem gerando debate dentro e fora da Igreja. Para entender melhor os
fundamentos teológicos desse documento, seu contexto histórico e suas
implicações, ZENIT entrevistou o decano da Faculdade de Teologia da
Pontifícia Universidade da Santa Cruz em Roma, Ángel Rodríguez Luño.

***

ZENIT: Há quase 50 anos foi publicada a encíclica Humanae Vitae. Qual o
significado dessa publicação naquela época?

- Professor Rodríguez Luño: Paulo VI publicou a Humanae vitae dois meses
depois dos acontecimentos de maio de 68, que provocaram, entre outras
coisas, a “revolução sexual”. Existia uma forte pressão de alguns meios de
comunicação social e os especialistas divulgavam previsões demográficas
pessimistas e alarmistas, que a realidade negou mais tarde. Alguns ambientes
eclesiais sofriam uma certa desorientação causada por interpretações
abusivas do Concílio, e alguns dos participantes nos estudos preparativos da
encíclica publicaram informes que não eram definitivos. Neste contexto Paulo
VI, depois de longa reflexão, reafirmou a visão cristã da sexualidade, na
qual o Criador uniu duas dimensões de significado e de valor, que a
encíclica chama “significado unitivo” e “significado procriativo”. Esta
conexão não pode desarticular-se sem que sofram ambas dimensões, e não
apenas a que se deseja excluir.

ZENIT: De um ponto de vista teológico, foi revolucionária? Em quais pontos?

- Professor Rodríguez Luño: Depende do que se entende por "revolucionária".
Substancialmente Paulo VI propõe novamente a visão antropológica e moral que
Pio XI, em sua encíclica sobre o matrimônio, tinha considerado como
“doutrina cristã ensinada desde o princípio e nunca modificada”. Neste
sentido a Humanae Vitae não representa nenhuma evolução. Revolucionária é a
valentia com a qual Paulo VI se opôs a uns estereótipos culturais então
muito difundidos, que eram impostos, e que eram e continuam sendo nocivos
para a vida das pessoas casadas e para a cultura moral geral. Embora a
encíclica refira-se diretamente ao matrimônio, o que estava em jogo era a
visão global da sexualidade.

ZENIT: Para entender o contexto histórico. O que foi que levou o Papa Paulo
VI a escrever esta encíclica? O que era necessário responder?

- Professor Rodríguez Luño: Acho que a delicadeza do problema e a
complexidade do contexto levaram Paulo VI, estando ainda aberto o Concílio,
a ocupar-se pessoalmente do estudo e da resolução desta questão. À luz da
tradição moral da Igreja, ninguém podia duvidar que a contracepção é um
comportamento intrinsecamente desordenado. Existia uma ideia, no imaginário
coletivo, de que a anticoncepção consistia em manipular de alguma forma a
realização da relação conjugal. Como a pílula anovulatória (que, como tal,
quase não existe mais hoje, porque a maioria dos remédios contraceptivos
também têm outros efeitos, além do anovulatório) não altera a relação
conjugal, alguns se perguntaram se a sua utilização deveria ser sempre
considerada como um pecado de contracepção. A questão não era, portanto, se
a contracepção é pecado ou não, mas se o uso esponsal da pílula anovulatória
é ou não anticoncepcional. Isto forçou a definir melhor a essência da
contracepção, que Paulo VI refere-se quando escreveu: “exclui-se também toda
ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou na sua realização, ou no
desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou
como meio, tornar impossível a procriação". Para colocá-lo de forma gráfica:
se descobríssemos que comer uma laranja antes da relação conjugal a fechasse
para a transmissão da vida, quem comesse a laranja propondo-se, como fim ou
como meio, tornar impossível a procriação cometeria o pecado de
contracepção. Uso essa hipótese irreal para dar a entender onde está a
contracepção, que não depende do fato de que o medicamento contraceptivo
seja um produto artificial.

ZENIT: Você acha que na formação dos noivos falte um maior aprofundamento de
alguns aspectos da Humanae Vitae?

- Professor Rodríguez Luño: Parece-me que, efetivamente, na formação que se
dá aos noivos seria necessário estudar com profundidade e integridade a
Humanae Vitae. Mas isso nos levaria longe. Limitar-me-ei a uma só coisa que
a minha experiência confirma continuamente. Quando a encíclica de Paulo VI
estava sendo preparada alguns diziam que a moral sexual cristã acaba
danificando o amor entre o homem e a mulher e a estabilidade do matrimônio.
A experiência diz que hoje, em uma cultura na qual se difunde o recurso à
contracepção e às relações pré-matrimoniais, os fracassos dos casais são
cada vez mais numerosos, bem como também são mais numerosos os fenômenos de
violência e de infidelidade. Certamente outras causas podem levar a estes
fenômenos. Mas, continuo admirado porque muitos casais, que tiveram um longo
período de noivado, às vezes excessivamente concentrado nos aspectos
sexuais, depois de casar-se, descobrem que não se conheciam bem. Talvez
pudessem ter conversado mais e se juntado menos, porque juntar-se nem sempre
é comunicação e conhecimento. A maior parte das vezes, pelo contrário,
impede detectar e corrigir o egoísmo próprio e o da outra parte.

ZENIT: Muitas das questões abordadas neste documento permanecem sendo forte
foco de debate social: aborto, fecundação artificial... Com o passar do
tempo é ainda maior a ‘oposição’ aos fundamentos teológicos da Igreja sobre
estas questões?

- Professor Rodríguez Luño: Nossa cultura evoluiu da forma em que
conhecemos. Denunciar as causas que fez com que as mudanças sociais tomassem
esse rumo requereria uma reflexão muito interessante, mas também muito longa
para esta entrevista. Não há dúvida de que, para alguns, também para alguns
fieis católicos, é difícil entender alguns aspectos da moral cristã. Talvez
seria necessário mais esforço para explica-la melhor e mais esforço para
compreendê-la melhor. Mas, para mim, é muito significativo que a maioria dos
fiéis praticantes considerem muito positivo o seu próprio esforço por viver
a moral cristã, embora ocasionalmente cometam erros.

ZENIT: Durante o Sínodo dos Bispos, seria possível esperar mudanças em
algumas das questões levantadas nesta encíclica?

-- Profesor Rodríguez Luño: Os Pastores querem resolver os problemas
práticos mais urgentes para a família a partir da doutrina da Igreja. O Papa
Francisco disse mais de uma vez que ele se considera antes de mais nada um
filho da Igreja. Por isso, o núcleo essencial da Humanae Vitae, que como eu
disse é um ensinamento proposto desde o começo e que nunca foi modificado, é
a luz a partir da qual serão afrontados os problemas pastorais no Sínodo.
Questões pastorais muito concretas, que se referem à sabedoria, misericórdia
e prudência cristãs com as quais se tratarão todas as situações que têm a
ver com pessoas, poderão encontrar, ao longo do Sínodo, com a ajuda de Deus,
respostas adequadas ao nosso tempo.

ZENIT: Por que esse tem sido um dos textos magisteriais mais discutidos das
últimas décadas?

-- Profesor Rodríguez Luño: Sem dúvida que este é um ponto difícil em que
todos nós somos fracos, se não sabemos apoiar-nos na graça que Deus nos
oferece. Por outra parte, a oposição da cultura dominante é forte, embora
não nova. Como explicou em um livro maravilhoso Pierre Grelot, existia já um
choque entre os ensinamentos do Gênesis sobre o matrimônio e o pensamento
religioso da Mesopotâmia, Síria e Canaã. Estas religiões pagãs sacralizavam
a sexualidade humana através de duas conhecidas vias: dos mitos e dos ritos.
Nos mitos, a divindade a divindade aparece como um conjunto de deuses e
deusas, que vão em casais, e que nas suas histórias são os arquétipos dos
vários aspectos da relação homem-mulher: fecundidade, amor-paixão,
matrimônio. Estão presentes, sob nomes diversos, as figuras do deus-pai, da
deusa mãe, da deusa-amante, etc. A concepção politeísta permite, em suma, a
dissociação entre os aspectos essenciais da sexualidade: fecundidade, amor,
matrimônio. Cada aspecto é sacralizado separadamente. Não há a integração em
uma instituição como o matrimônio, condição exclusiva do amor e fecundidade
moralmente bons. Os ritos (da fecundidade, da prostituição sagrada como
culto da deusa amante, as hierogamias, etc.) também desempenham a mesma
dissociação no plano das ações, através das quais os homens unem-se à
divindade e participam da sua capacidade de amar ou de serem fecundos. A
dissociação das diferentes dimensões da sexualidade humana segue o paganismo
e o neo-paganismo como a sombra o corpo iluminado pelo sol. Em minha
opinião, esta é a explicação última das dificuldades atuais, que são
profundas, mas não intransponíveis. Vejo com esperança que entre as pessoas
jovens que praticam a sua fé cristã estas questões entendam-se melhor do que
entre os da minha geração.







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