Eu tinha ficado de falar da diferença entre ~ている e ~てある。 Tentei ler o
Martin[1] o melhor que pude, e pra resumir bastante, a diferença mais
comum (i.e. a que eu acho que vão cobrar) é entre estas duas formas:
1. ドアが開いている。
2. ドアが開けてある。
(Verbos 開く、開ける são o mesmo que 空く、空ける = あく、あける = “abrir”).
Normalmente isso é explicado dizendo que a forma 1 não implica outro
agente (a porta abriu-se sozinha), e a forma 2 sim (alguém abriu a
porta). Não está errado, mas o buraco é mais embaixo.
Para entender, perceba que nesse exemplo não mudaram só o いる pra ある、
mas também mudaram o verbo! O verbo 空く é intransitivo (“a porta
abriu”), enquanto que 空ける é transitivo (“João abriu a porta”). Sempre
que for usado um verbo transitivo, estará implicado um agente, mesmo
que implícito. O que faz a própria porta ser agente na forma 1 é o
verbo intransitivo, não o いる em si.
A manha da forma 2 é que ela é uma espécie de “passiva”, que coloca o
objeto receptor da ação na posição de sujeito (i.e. com が ). A
transformação do protótipo transitivo é assim:
3. 彼がドアを開けている → 2. ドアが開けてある。
O いる muda pra ある, o agente cai mas permanece implícito, e o objeto
troca de を pra が—sintaticamente um sujeito, mas semanticamente
continua sendo receptor da ação feita por um outro agente, como na
forma passiva.
Resumindo:
- Se o verbo for intransitivo, o sujeito (が) é agente;
- Se o verbo for transitivo, e a forma for ~ている、 o sujeito é agente;
- Se o verbo for transitivo, e a forma for ~てある、 o sujeito
provavelmente é passivo e o agente implícito.
A propósito, lembrem-se que todos esses 開いている e 開けてある aqui não são
“continuativos” e sim “resultativos” (a ação já foi feita; nos
exemplos acima, o sentido não é “Ele está abrindo a porta” e sim “[Ele
abriu a porta, e como resultado agora] a porta está aberta”).
Pra quem gosta de lingüística e achou que isso não é confuso o
suficiente, eu fiz um resuminho do que consegui entender do Martin[2].
Ou leiam o Martin :)
Referências:
[1] http://books.google.com/books?id=SszxbMtHbs8C&lpg=PP1&pg=PA510#v=onepage
(seção 9.2.4 em diante)
[2] http://namakajiri.net/letras/nihongo/teirutearu.html
--
Leonardo Boiko
http://namakajiri.net
Segundo McLure:
- A forma intransitiva, ドアが開いている, não significa _necessariamente_ que
o sujeito (porta) é o agente (“a porta abriu”). Pode ser que seja, ou
talvez a ação tenha sido feita por um outro agente não especificado,
ou quem sabe a ação nunca se deu e a porta sempre esteve aberta. A
frase não trata disso, é neutra. A ênfase desta forma é no estado
atual e não em como se chegou nele. (Em contraste, a passivizante
ドアが開けてある coloca ênfase na existência do agente, que não é a porta).
- A passivizante ドアが開けてある é bastante parecida com a passiva ドアが開けられた。
Mas a passiva coloca ainda mais ênfase na existência do agente, que
não precisa ficar implícito; e além disso, a passiva com frequência é
usada para expressar desagrado ou percepção negativa da ação. As
formas com ている e てある não têm nenhuma nuance de negatividade.
Da apostila do curso:
- O que eu chamei (seguindo o Martin) de usos “continuativo” e
“resultativo”, a apostila chama de “durativo” e “permansivo” (então é
melhor aprender esses nomes pra usar no quadro e prova). A apostila
não menciona o “repetitivo” do 〜ている nem os usos mais raros de 〜てある。
- O que chamei de “verbo auxiliar” é 補助動詞、 um tipo de 補助用言。
- A apostila cita alguns verbos em que é melhor usar ある sem
passivizar (i.e. marcando o objeto com を mesmo e não が): 読む、話す、
頼む、直す、出す、言う、“etc”. Isso equivale ao que chamei no texto de
“resultativo simples com 〜てある”.