Professortitular da ctedra de histria do Brasil na Universidade de Sorbonne, em Paris, profissional com formao e longa vivncia na Frana, para onde foi a primeira vez empurrado da Universidade de Braslia (UnB), estudante de graduao ainda, pelo clima ameaador que a ditadura instalara no pas em 1964, Alencastro teve um perodo brasileiro de trabalho, de 1986 a 1999. Foi nesse intervalo professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador do Centro Brasileiro de Anlise e Planejamento (Cebrap). Atualmente, uma vez por ano ele vem ao pas como professor visitante da Escola de Economia da FGV de So Paulo e planeja seu retorno definitivo em 2014. A seguir, os trechos principais de sua entrevista, uma empolgante contao de histrias sobre sua produo, seu trajeto intelectual e pessoal.
Eu queria comear por sua viso de que o pas se forma fora de seu territrio.
Bom, como eu cheguei a isso? Estava fazendo uma tese de doutorado com Frdric Mauro. Ele era discpulo de Fernand Braudel, que liderava um grupo de historiadores que trabalhavam na perspectiva de uma histria global, tanto na questo do espao, que era a Europa nas relaes com os pases no europeus, como tambm no aspecto transdisciplinar, envolvendo a geografia, a economia, a demografia e outras cincias.
Isso aconteceu quando?
O debate sobre essas perspectivas globais era dos anos 1950, 1960. Tambm participavam dessas discusses o historiador francs Pierre Chaunu e o portugus Vitorino Magalhes Godinho. Eu cheguei na Frana no final dos 60 e isso fez muito a minha cabea, no sentido de que o Brasil nessa perspectiva no queria dizer grande coisa em si. At porque nem existia Brasil no comeo dessa histria. Existiam o Peru e o Mxico, no contexto pr-colombiano, mas Argentina, Brasil, Chile, Estados Unidos, Canad, no. No que seria o Brasil, havia gente no norte, no Rio, depois no sul, mas toda essa gente tinha pouca relao entre si at meados do sculo XVIII. E h a a questo da navegao martima, torna-se importante aprender bem histria martima, que ligada geografia. Frdric Mauro trabalhava nessa perspectiva, por exemplo, com o vice-reino da Nova Espanha e de Vera Cruz, que englobava no s a Amrica Central e o Mxico, mas tambm as Filipinas. Essa compreenso me deu muita liberdade para ver as relaes que Rio, Pernambuco e Bahia tinham com Luanda. Depois a Bahia tem muito mais relao tambm com o antigo Daom, hoje Benin, na Costa da Mina. Isso formava um todo, muito mais do que o Brasil ou a Amrica portuguesa. Porque o Estado do Gro-Par e Maranho, isto , todo o territrio do Rio Grande do Norte para cima, estava completamente isolado de Pernambuco, Bahia, Rio etc.
Alis, em O trato dos viventes voc deixa patente o quanto era difcil navegar dessa parte do Brasil em direo quele pedao do norte.
, exatamente, tinha que se fazer a navegao via Lisboa. Eu dou vrios exemplos dessa dificuldade: Raposo Tavares e os 1.200 paulistas de sua bandeira saem por esse serto afora em 1648 e vo chegar a Belm em 1651. uma das maiores marchas por terra daquela poca. Vo at parte da Bolvia, depois sobem pelos rios, chegam em Belm, mas para voltar a So Paulo tiveram que ir a Lisboa porque no tinha navio que viesse para baixo com a correnteza que vai para o norte, a partir do Rio Grande do Norte, e os ventos que sopram para o norte ou para leste e oeste. Se tentassem, o barco os levaria para a Guiana. Inversamente, era bastante fcil ir a Luanda e ao Daom saindo da costa brasileira abaixo de Pernambuco porque os ventos e as correntes eram favorveis, tinha navegao disponvel e isso teve influncia at numa reorganizao das dioceses. Depois do perodo filipino, a Espanha pressionou o papa para no reconhecer o Portugal dos Bragana e aquilo se arrastou at 1669. Bispos morriam e no eram renovados, dioceses ficavam abandonadas. Na reorganizao, fizeram uma nova diocese no Maranho e ela dependia do arcebispado de Lisboa. Criaram o arcebispado da Bahia e ele tinha autoridade sobre a diocese de Luanda. Os cardeais, os bispos, os monsenhores, que tinham na poca a maior rede diplomtica do mundo, conheciam a realidade dos territrios e dos espaos martimos.
Isso est muito fora daquilo que tradicionalmente se estuda de histria do Brasil nas escolas.
Pois , mas isso o bsico. At os nossos bisavs, muitos ainda viajavam de navio. Os imigrantes estrangeiros vieram assim, muitos nordestinos vieram para o Rio e So Paulo de navio, a alta burguesia ia para a Europa de navio, ento se tinha o sentido de que o mar une, em vez de separar. Isso condicionava tudo e essencial para entender as relaes do Brasil com o exterior e de uma parte a outra do litoral brasileiro. As rotas pelo mato, que o ouro vai induzir, so do sculo XVIII. O problema que os manuais da escola primria e secundria, e at algum livro ou outro de historiador, mostram que Cabral descobriu o Brasil j tendo as fronteiras do Acre e tudo, quando o processo de formao muito mais complicado.
Em que medida olhar o Brasil de longe foi o que lhe permitiu abordar nossa histria de outra maneira?
Eu j dei muitas conferncias nos Estados Unidos, na Espanha, na Inglaterra e dou aula na Frana h muito tempo.Vejo que a viso da formao extraterritorial do Brasil soa bvia para eles que no tm uma ideia preconcebida. Mas aqui no bvio, por qu? Porque tem o peso da histria regional, a histria singular do Brasil na Amrica Latina, no no sentido de melhor, mas de diferente dos outros, dado o fato de que o vice-reino ficou unido enquanto os quatro vice-reinos espanhis se fragmentaram em 20 e tantos pases. A Amrica britnica, digamos, tambm virou vrios pases, Canad, Estados Unidos e todas as Antilhas que se separaram. As possesses da Frana tambm se separaram, porque ela vendeu a Louisiana e depois ficou com a Martinica, Guadalupe, a Guiana e tal. Mas os portugueses vieram para um lugar e ficou tudo unido. Por qu?
De Pero Vaz de Caminha?
No, de Diogo Pacheco Pereira, que, no Esmeraldo de situ orbis [manuscrito sobre cosmografia e marinharia, de 1506], fala de uma terra que deveria ser descoberta no tempo do rei tal, ento alguns argumentam que foi antes de Cabral e a descoberta ficou escondida. Mas isso tem pouca credibilidade histrica.
aquela velha discusso sobre casualidade ou intencionalidade da descoberta discutida nas escolas nos anos 1960?
Isso. Uma coisa que ningum fala que Os lusadas, que de 1572, poema para o qual Cames se documentou para narrar a epopeia dos descobrimentos, como todo mundo sabe, fala em suas 1.200 estrofes apenas quatro vezes do Brasil. Duas de maneira indireta. Isso d a dimenso da insignificncia que era o Brasil no sculo XVI. Importante ento era a ndia, a sia portuguesa. A historiografia brasileira, num certo sentido, sempre frustrou o narcisismo brasileiro, da o surgimento de histrias como aquela, no sculo XIX, de que os fencios j tinham estado no Brasil. O Instituto Histrico e Geogrfico Brasileiro decidiu enviar [em 1839] alguns especialistas Pedra da Gvea [monlito de gnaisse beira-mar, no Rio, cujo topo est a 842 metros do nvel do mar], para interpretar umas inscries na pedra [dizia a lenda que a pedra abrigava a tumba de um rei fencio que subiu ao trono em 856 a.C.].
E quem pagou?
Os 750 mil africanos que entraram aqui depois da proibio legal do trfico em 1831. Os navios negreiros desembarcavam ilegalmente at 40 mil africanos por ano no Rio de Janeiro e ningum via. Legalmente, nos termos da prpria legislao brasileira, eram gente livre mas viraram escravos, como explico adiante. E isso manteve a unidade nacional, porque o imperador agora se legitimava com todas as oligarquias dando cobertura a essa pirataria.
Por que voc diz que 1850 termina sendo uma data mais decisiva para a formao do Brasil do que 1808?
Esse o assunto do meu segundo livro, mas j o tenho debatido bastante. Fiz uma crtica s comemoraes do bicentenrio de 1808, em artigo na Folha. Nas comemoraes o Brasil aparecia como pas que entra na modernidade por causa da mudana da Corte, com a monarquia se instalando, como no acontecera em nenhum lugar das Amricas. A historiografia dominante diz que 1808 foi na realidade o comeo da Independncia do Brasil, porque houve a abertura dos portos, a Inglaterra se meteu aqui na economia e no saiu mais, e Portugal foi pra escanteio. Ento, 1808 e 1822 aparecem como rupturas e o que vem depois novo. Mas no .
Eduardo CesarE por qu?
Porque antes de 1808 o primeiro porto do comrcio brasileiro era Lisboa e o segundo era Luanda. Depois de 1808 e at 1850 o primeiro passa a ser Liverpool, mas o segundo sempre Luan-da. Ento o que eu chamo de matriz espacial colonial, a matriz do Atlntico Sul, no foi quebrada em 1808 nem em 1822. Os pulmes do Brasil continuaram na frica, em Angola e na Costa da Mina e em Moambique.
At que o trfico de fato acabe.
Sim, at 1850. E tinha gente importante como Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850), mineiro, pai da ptria, ministro importante durante a Regncia, senador e membro do Conselho do Estado, que achava que ainda dava para empurrar com a barriga, enfrentar a Europa e a marinha de guerra britnica, porque acabar com o trfico ia arruinar todo mundo no Brasil. O Brasil deu errado no sculo XIX porque os governantes, a elite do pas tomou o bonde errado em 1822 e o preo pago foi alto.
O bonde errado foi continuar apostando suas fichas no trfico, nessa relao econmica com a frica por quase 30 anos?
Sim, claro que isso permitiu o desenvolvimento do caf, mas o peso do atraso para o pas, a explorao brutal da mo de obra, o afundamento, a destruio de boa parte da frota mercantil brasileira pelos ingleses, o encarecimento do transporte, tudo isso constituiu um preo muito alto. Sobretudo, houve o sacrifcio das duas ltimas geraes de negros e mulatos livres ilegalmente mantidos na escravido. De fato, quando acabou o trfico legalmente em 1831, a lei dizia: 1) o trfico est proibido, 2) o africano que desembarcar aqui do navio negreiro livre quando pisar na praia e 3) quem mantiver essa gente na escravido um sequestrador, est mantendo gente livre em cativeiro privado. Mas a lei no pegou. Depois o imperador foi embora, a Regncia quis faz-la cumprir. A, em 1848, Eusbio de Queirs assumiu como ministro da Justia, os ingleses estavam endurecendo as presses, e Eusbio, que tinha sido chefe de polcia durante 11 anos e nunca pegou ningum, chamou os negreiros para dizer que no dava mais. E eles votam a Lei Eusbio de Queirs em sesso secreta no Parlamento, acabando definitivamente com o trfico. Como acaba mesmo, claro que houve uma negociao. Uma atividade que dura 300 anos, clandestina h 30 anos, lucrativa para um monte de gente e de repente acaba de uma vez s, no indica que a polcia ficou tima ou que subitamente todo mundo ficou decente. O fim brusco do trfico em 1850 mostra que houve uma negociao intensa entre as partes envolvidas, entre a bandidagem negreira, os fazendeiros e o governo.
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