Quando se pergunta a um estudante de uma instituição privada o porquê de ele desistir de um curso, a resposta é previsível e taxativa: a maioria diz que não conseguiu arcar com os custos da mensalidade. Mas o que faz um aluno desistir de cursar sua graduação em uma das melhores universidades públicas do País?
Para responder a essa pergunta, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) decidiu escutar esses universitários prestes a se desligarem do curso ou da instituição. "Havia muitos pedidos de remanejamento interno, os alunos estavam insatisfeitos", conta a psicóloga Rafaela de Menezes Souza Brissac, responsável pelo desenvolvimento de todos os módulos do Projecta, o programa de orientação da carreira da instituição.
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No País todo, são 1,7 milhão de universitários nas instituições públicas e o índice médio de evasão anual é de 11%. Isso significa que, de 100 alunos matriculados em um ano, 11 não renovam a matrícula no seguinte. Na Unicamp, o índice de 2011, o último divulgado, foi de 8,38%.
Por lá, desde que o Projecta teve início, em 2011, foram mais de 2,5 mil beneficiados. Só no ano passado, foram mais de 1,5 mil estudantes atendidos no projeto que, além da orientação a quem está insatisfeito com o curso, ajuda também os formandos no planejamento da carreira e no preparo para os processos seletivos das corporações que estão de olho nesse público qualificado, mas que estranha a imaturidade corporativa de boa parte dos recém-formados.
Matheus Antonio Borges, de 23 anos, foi um dos beneficiados. Em 2010, ele foi aprovado no curso de Engenharia da Computação. No meio do ano seguinte, percebeu que não tinha talento para a área. "Dia após dia, eu tinha certeza de que tinha me enganado. Não me interessava pelas disciplinas, não conseguia me ver naquilo o resto da vida."
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Foi quando soube do Projecta. Durante alguns meses, ele assistiu a palestras, participou de dinâmicas de grupo e recebeu atendimento individual de psicólogos. "Foi bom ver que eu não era o único a ter esses dilemas que parecem estranhos quando a gente está numa instituição de ponta. As reuniões eram quase um Alcoólicos Anônimos", brinca. "Eu tinha os menores problemas. Lá, tinha gente muito perdida, alguns deprimidos às vésperas da formatura."
Todo o processo lhe fez ter mais convicção da decisão equivocada. "Percebi que tinha feito a escolha pela credibilidade da instituição. Como a Engenharia de Computação da Unicamp é a melhor do País, acabei sugestionado, sem ter conhecimento do que era o curso." Consciente de que estava perdendo tempo, prestou Engenharia Mecânica na própria Unicamp e foi aprovado. Vai iniciar, em 2013, o 3.º semestre. "Agora, sim, estou feliz. Gosto das aulas e até já consegui um estágio."
Motivos
O desconhecimento sobre o curso escolhido gera uma expectativa que não é correspondida e, logo, torna-se uma das principais razões da evasão nas instituições públicas. Além disso, pesam fatores como a precocidade da escolha da especialidade - caso das Engenharias, em que o vestibulando já deve optar se quer Civil ou Mecânica, por exemplo -, o déficit de repertório da Educação Básica e a dificuldade de se adaptar à metodologia da academia, que exige mais autodisciplina.
"Isso é tão claro que o índice de evasão nos anos iniciais é muito mais alto", afirma o consultor Roberto Lobo, diretor do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação. "É por isso que os cursos de nivelamento são importantíssimos. Para não perder seus alunos, as universidades públicas precisam cuidar dessa formação heterogênea da turma, buscar a equidade." Afinal, evasão significa recursos públicos investidos sem o devido retorno, além de gerar ociosidade de professores, equipamentos e espaço físico. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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Muitos são os motivos que levam o aluno a evadir-se da escola, necessidade de entrar no mercado de trabalho, deficiência no transporte até a escola, falta de incentivo da família, doenças crônicas, mudança de endereço, motivos externos que não dependem diretamente dos gestores escolares embora sejam de cunho do poder público, contudo existem motivos internos que podem e devem ser foco do trabalho. A falta de interesse, baixos rendimentos, pouco envolvimento nas atividades, apatia, atrasos constantes podem ser sintomas que antecedem a evasão e precisam ser trabalhados por todos se entendermos que todos são educadores e responsáveis pela dinâmica dos ambientes educacionais, metodologias, estratégias e técnicas de ensino. Nesta perspectiva é válido dizer que a evasão está relacionada não apenas ao aluno, mas também à família, às políticas de governo, a própria escola e ao professores.
Conforme Arroyo (1997, p.23), na maioria das causas da evasão escolar, a escola tem a responsabilidade de apontar a desestruturação familiar, e o professor e o aluno não têm responsabilidade para aprender, tornando-se um jogo de empurra. Sabe-se que a escola atual é preciso estar preparada para receber e formar estes jovens e adultos que são frutos dessa sociedade injusta e, para isso é preciso professores dinâmicos, responsáveis, criativos, que sejam capazes de inovar e transformar sua sala de aula em um lugar atrativo e estimulador.
Na opinião de Charlot (2000, p. 18), a problemática da evasão escolar deve ser vista sob vários ângulos, tais como:
“sobre o aprendizado... sobre a eficácia dos docentes, sobre o serviço público, sobre a igualdade das chances, sobre os recursos que o país deve investir em seu sistema educativo, sobre a crise, sobre os modos de vida e o trabalho na sociedade de amanhã, sobre as formas de cidadania”.
ARROYO, Miguel G. da. Escola coerente à Escola possível. São Paulo: Loyola, 1997 (Coleção Educação popular – nº 8.).
CHARLOT, Bernard. Da Relação com o Saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000.Eulália