O que há de errado na área acadêmica de Administração no Brasil – Parte 1

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Clebson Costa

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Sep 26, 2010, 4:53:08 PM9/26/10
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O que há de errado na área acadêmica de Administração no Brasil – Parte 1

Por que nossa produção acadêmica em administração não tem nenhum impacto mundial? Primeiro artigo analisando os problemas.

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De volta ao espaço aqui no Administradores, depois de um semestre que não me possibilitou uma contribuição regular ao site. E retomo com um assunto que faz tempo quero escrever aqui: a área acadêmica de administração no Brasil poderia ter um destaque mundial muito maior do que tem – mas vários fatores impedem que isso aconteça. Nessa semana e na próxima vou explorar alguns problemas que senti na pele: fiz meu doutorado fora e decidi voltar por um misto de idealismo e vontade de estar no Brasil. Mas depois de 5 anos encontrando os problemas que vou resumir a seguir, desisti e vim para os EUA. A intenção não é criar polêmica – apenas trazer à tona a questão, porque acho relevante ela ser discutida. E porque vejo acadêmicos de enorme capacidade no Brasil tendo seu talento muitas vezes desperdiçado – e será bom para o país se isso mudar.

 

Não é falta de qualidade, certamente: as melhores escolas de administração do Brasil tem alunos de alta capacidade, tão bons quanto os alunos das melhores escolas mundiais. E com professores que poderiam estar entre os mais respeitados mundialmente em suas áreas – mas que, salvo raríssimas exceções, não são conhecidos internacionalmente (e portanto não se tornam referência na disciplina).

 

Em algumas outras áreas acadêmicas, esse problema é bem menor: áreas como economia ou matemática tem professores baseados no Brasil publicando nos periódicos mais respeitados e sendo referência em sua área. Mas em administração isso não acontece.

 

Muitas razões levam a isso – a intenção aqui não é fazer uma lista exaustiva. Nem tampouco objetiva: ela reflete minha experiência em escolas do Brasil, EUA e França, além da experiência de colegas em escolas na Ásia. Cito a Ásia porque países como Coréia do Sul, China e Cingapura conseguiram estabelecer presença de destaque mundial na área de administração num tempo relativamente curto, e estão num estágio bem mais avançado que o Brasil.

 

Hoje apresento 3 fatores, semana que vem trago mais.

 

O jogo dos pontinhos da Capes

 

Para mim, o fator que mais mediocriza a produção acadêmica brasileira. Toda escola que oferece programa de pós-graduação está sujeita a um sistema de medida elaborado pela Capes para manter seus programas. Entre alguns outros critérios, os professores de cada escola de administração que oferece mestrado e/ou doutorado têm que atingir uma certa média de pontos por pessoa para a escola ser considerada boa. Publicações contam pontos dependendo da qualidade do periódico.

 

Poxa, até aí tudo ótimo, um sistema de avaliação que dá incentivo para a produtividade. Mas... a lista de publicações é ruim - já houve muitas mudanças ao longo dos últimos 10 anos, desde versões que não incluíam nenhum dos periódicos mais importantes da área (ou seja, se alguém publicasse no melhor periódico da sua área não ganhava nenhum ponto) até versões que dão a mesma pontuação para períodicos bons e medíocres (ou seja, publicar nos melhores, que é muito mais difícil, não vale o esforço). E, mesmo com as médias sendo calculadas a cada 3 anos, as escolas colocam pressões em seus professores para fazer pontos no curto prazo – o que faz com que ninguém queira correr o risco de submeter para os melhores periódicos, já que o ciclo para ter um artigo publicado neles leva de 2 a 5 anos. A consequência? Todo mundo finge que está fazendo algo importante, mas na verdade só está pensando em maximizar os tais pontinhos gerando quantidade (ao invés de qualidade).

 

Como é no resto do mundo? Na sua grande maioria, os sistemas são elaborados pelas próprias escolas. As melhores geralmente colocam como objetivo publicar 5 ou 6 artigos em 6 anos (dependendo do impacto dos artigos e da escola, esse número pode ser menor). Só vale publicação nos periódicos considerados "A", uma lista ao redor de 6 periódicos por área. Conseguindo-se esse objetivo (junto com objetivos de qualidade de ensino e contribuição à instituição), voce está livre para publicar o que quiser na velocidade que quiser (sistema chamado de "tenure"). Não conseguindo, tem que procurar emprego em outra escola. Os prazos são maiores, os objetivos mais ambiciosos, e depois de alguns anos você conquista liberdade para fazer coisas mais arriscadas. No Brasil, ao contrário, você esta sujeito eternamente aos pontinhos, à obrigação de gerar artigos em certa quantidade, artigos que não estabelecerão diálogo com pesquisadores pelo mundo porque foram publicados no periódico onde era mais rápido conseguir os pontinhos.

 

Triste, mas verdadeiro.

 

Em terra de economista, quem administra se estrumbica

 

Nos EUA, professores de business school ganham pelo menos 50% a mais que professores de economia (salários universitários norte-americanos variam de área para área). As melhores escolas da Europa pagam o mesmo ou mais que nos EUA, para atrair bons professores. Se isso é "certo" ou não sob ponto de vista de criação de valor, eu não sei – mas sempre que vejo economistas tentando ser científicos e errando feio em seus conselhos, acho que faz sentido os administradores ganharem mais.

 

Já no Brasil, com sua eterna obsessão por fatores macro e sua paixão por "especialistas" fazendo previsões, economistas são reis: tem universidades onde professores de economia ganham o dobro dos de administração. Para alguém terminando o PhD em economia, voltar para o Brasil não significa uma perda de salário – às vezes ganhando até mais do que ganharia nos EUA ou Europa. Já para o PhD em administração, a diferença é grande, geralmente ganhando o dobro fora do país. E para os cursos executivos (geralmente adicionais ao salário normal), as diferenças no valor por hora-aula variam de 4 a 10 vezes – pelo simples fato que vim para os EUA, o valor de minha hora-aula cresceu 5 vezes. Mesma aula, mesmo tipo de alunos.

 

"Ah, mas no Brasil os salários são mais baixos mesmo". Hmm. Isso não é verdade para os economistas, e não é verdade para recém-MBAs, que atualmente conseguem melhores ofertas no Brasil que no exterior. Banqueiro ganha a mesma coisa no Brasil que nos EUA, consultor ganha mais, diretor ganha a mesma coisa ou mais... por que o professor de administração tem que ganhar metade ou menos?

 

Relacionado a isso, há também as diferenças de salário num mesmo departamento, que criam problemas ainda maiores – disso falarei mais na semana que vem.

 

Aulas, aulas, aulas

 

Um professor nas melhores escolas de administração dos EUA ou Europa tem uma carga horária entre 75 e 120 horas de aula.

 

Por ano.

 

No Brasil, mesmo as escolas muito generosas pedem no mínimo mais que o dobro disso. E há casos que chegam a mais de 500 horas/ano.

 

O que o professor das melhores escolas do mundo faz no resto do tempo? Produz artigos, visita empresas, conversa com executivos, dá palestras, viaja, apresenta idéias, expande as fronteiras do conhecimento. Recicla-se. Planeja com cuidado seus cursos. Sobretudo aprende, para fazer com que seus alunos aprendam mais.

 

O que o professor no Brasil faz com o que resta do seu tempo? Dá mais aulas, para aumentar seu salário (vide discussão do item anterior). E faz pontinhos para a Capes ficar feliz e os burocratas poderem mostrar a pretensa "pujança" do nosso ambiente acadêmico.

 

E sabe o que é pior? A lista de fatores continua semana que vem. Até lá!

Clebson Costa

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Sep 26, 2010, 4:55:29 PM9/26/10
to Prof Adlice IFBA, IFBA GPII

O que há de errado na área acadêmica de Administração no Brasil – Parte 2

Por que nossa produção acadêmica em administração não tem nenhum impacto mundial? Segundo artigo analisando os problemas

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O artigo da semana passada gerou tantas leituras e comentários que preferi estender a discussão por mais uma semana – hoje trago então a segunda parte, mas ainda há alguns pontos que eu queria levantar na semana que vem.

 

Hoje quero discordar de duas premissas muito populares sobre ensino e pesquisa de administração no Brasil – porque acho que elas atrapalham o desenvolvimento da área. Mas antes disso, um comentário relativo ao artigo da semana passada: nessa semana saiu a avaliação trienal da Capes (2007/2009). Para a área de administração, além da lista de periódicos continuar ruim, há algumas aberrações nos resultados que são dignas de nota. A única escola que tem um professor com várias publicações nos principais periódicos do mundo (além de outros professores com ótimo nível) recebeu um "regular" para seu mestrado; uma outra escola, bastante ávida por lucros e com nenhum professor que publicou algo de destaque em administração (alguns com certo nível de publicação em outras áreas, mas não administração), levou um "bom". Conselho: ao escolher um mestrado em administração, não se baseie pela classificação da Capes.

 

Bom, vamos às premissas (mitos?) que quero ir contra nessa semana:

 

Premissa 1: Quem tem que ensinar administração é executivo com experiência profissional na área

 

Essa premissa parece tão popular que a maioria das escolas tenta usá-la para atrair mais alunos – e dá-lhe anúncios dizendo que os professores são "gente que faz", coisas desse tipo. Glorifica-se o "profissional do mercado", na premissa que quem tem uma carreira de destaque pode transmitir a "receita de sucesso" aos alunos.

 

Bobagens, meu filho, bobagens.

 

Vamos então à primeira evidência: pegue a lista dos 50 melhores MBAs do mundo (o Financial Times é meu preferido na elaboração de rankings de MBA, mas você pode escolher qualquer fonte confiável). Veja que nessas escolas, algo como 99.5% dos professores são PhDs com dedicação integral à vida acadêmica. Nada de "profissional de mercado" – a não ser num curso ou outro (geralmente palestrantes em cursos ministrados pelos professores "acadêmicos").

 

Outra evidência: acadêmicos como Porter ou Kotler, que geraram conceitos usados por milhares de empresas pelo mundo, nunca tiveram nenhuma experiência como "executivo" antes de gerarem suas teorias.

 

Por que experiência profissional não habilita alguém a dar aulas de administração? O problema é, como se diz em inglês, o "sample of one": acreditar que uma experiência pode gerar generalizações que podem ser usadas em qualquer contexto. A pessoa cria regras baseadas no que viveu – mas quem garante que a relação causa-efeito foi aquela que ela acha que é? E se foi sorte? Intuição? Fatores difíceis de reproduzir em outros contextos? Veja que muitos executivos de sucesso numa empresa, ao mudar de emprego, enfrentam muitas dificuldades. O contexto mudou, o ambiente mudou, e aquilo que parecia regra básica começa a mostrar seus limites. A "receita de sucesso" revela-se transitória e limitada.

 

Por que os acadêmicos conseguem superar esse problema? Porque podemos basear nossos cursos na experiência de centenas de empresas e milhares de gestores, dando uma contextualização aos problemas que a maioria dos executivos não consegue. Podemos mostrar os limites de quando um conceito funciona ou não, podemos comparar dados de múltiplos estudos, podemos através de nossos métodos afirmar com maior segurança se determinada ação leva a determinado resultado. O objetivo é ensinar o aluno a pensar, não dar a receita pronta. Para que ele possa criar suas próprias receitas, porque os problemas que enfrentará são de certa forma únicos e demandam uma capacidade de análise que vai além da simples aplicação de um conceito. E para que consigamos criar esse ambiente de aprendizado, precisamos de anos de estudo num programa de doutorado e precisamos de dedicação integral à atividade acadêmica.

 

Isso não significa que ex-executivos não possam ser bons professores. Por exemplo, Clayton Christensen (professor de Harvard e "guru"de inovação) era um executivo de sucesso, CEO de uma empresa de tecnologia. Por gostar da vida acadêmica, quando estava próximo dos 40 anos resolveu abandonar a vida de executivo e fazer um doutorado em Harvard. Completou seus estudos em menos de 3 anos – a experiência que ele tinha acumulado facilitou em muito sua pesquisa – e foi contratado pela escola, logo publicando artigos e livros que o tornaram referência na área de inovação. O importante nessa história é que ele teve a humildade de começar um doutorado mesmo sendo um executivo de enorme sucesso, e teve a disciplina de se dedicar à vida acadêmica a partir daí.

Isso tudo não quer dizer que acadêmicos são sempre melhores professores que executivos – porque tem muito acadêmico ruim (assim como muito executivo ruim). Mas, se for para escolher entre uma escola com 99.5% de professores acadêmicos e uma escola com "profissionais de mercado", eu não teria dúvidas de que lado ficar (e parece que os alunos também não, dado o padrão nos rankings de melhores MBAs do mundo).

 

Fica então uma frase de Kurt Lewin, um dos pais da moderna psicologia: "Não há nada tão prático como uma boa teoria". Não as temam: aprender boas teorias é a forma mais eficiente de se dar bem na prática.

 

Premissa 2: As teorias vindas "de fora" não se aplicam ao Brasil

 

Junto a essa premissa bastante popular entre acadêmicos e executivos no Brasil, às vezes vem a versão mezzo-paranóica que "as teorias americanas são um instrumento de dominação imperialista". O resultado disso? O Brasil tem um número enorme de professores fazendo pesquisa na área de "critical management studies", estudos que criticam / se opõem às teorias mais estabelecidas da área. Um monte de gente criticando, mas bem poucos construindo.

 

Eu acho abordagens críticas muito importantes, acho que para evolução do conhecimento precisamos de constante questionamento sobre suas premissas, métodos e consequências. Mas daí a ter departamentos onde quase todo mundo passa o tempo inteiro criticando o que se pesquisa em administração é um salto grande demais.

 

Já passamos por isso na macroeconomia: depois de anos tentando soluções heterodoxas que partiam da premissa que "o Brasil é diferente" e resultavam em maior e maior descontrole, a coisa só começou a dar certo quando se aplicou a receita básica global: gastar menos e arrecadar mais (que aliás os EUA tem esquecido e logo se verá em apuros por isso). Claro, foram medidas que se adaptaram a características únicas do país mas preservaram alguns preceitos básicos de teorias mais gerais. E tem dado certo.

 

A maioria das teorias em administração é contextual – temos muito cuidado em determinar as condições em que determinado estudo se aplica. Então dizer que "as teorias de fora não se aplicam ao Brasil" é ter uma certa ingenuidade (ignorância?) quanto às teorias: a maioria delas não diz "A causa B em qualquer contexto", mas algo como "A causa B quando os fatores C, D e E estão presentes". Se no Brasil os fatores forem diferentes, você pode ir lá e refinar a teoria, mostrando seus limites e como a relação entre A e B muda no contexto específico. É assim que se constrói conhecimento; é assim que pesquisadores em muitos países emergentes tem desenvolvido suas teorias. Mas no Brasil, parece que a reação mais comum é dizer "A e B não valem nada". E ficar só nisso.

 

Na versão mais paranóica, alguns acham que os acadêmicos baseados nos EUA são todos acríticos, pessoas que pensam todas de forma igual e que querem dominar o mundo com seu pensamento único. Vai ver até somos todos assim mesmo. Mas não é a impressão que eu tive nos 15 anos que tenho convivido com acadêmicos das principais escolas dos EUA e Europa. A maioria é bastante crítico, bastante capaz, e se há alguns viés político / ideológico, nas escolas de elite em administração esse viés é decididamente mais para a esquerda (exceto em departamentos de finanças, onde a média estaria mais para o que é considerado "direita"). Então essa visão de renegar tudo que vem dos EUA parte de um preconceito infundado contra as pessoas baseadas no país, e da falta de conhecimento mais profundo da diversidade de pensamento (e da liberdade para pensar diferente) que há nas escolas "de fora".

 

Ao invés de ficar procurando o Santo Graal da "Grande Teoria Brasileira de Administrar", acho que é mais eficiente e eficaz estabelecer diálogo com o que é produzido por alguns dos melhores acadêmicos pelo mundo, e contribuir no processo de geração global de conhecimento partindo das especificidades brasileiras. Um equilíbrio entre crítica e construção.

 

É isso por hoje. Semana que vem falo de outra premissa falha ("escola tem que ser administrada como empresa"), da inutilidade das conferências locais, dos jogos políticos nos departamentos... e voltando a algo que citei na semana passada: o que trago aqui é subjetivo, minha visão pessoal a partir do que vivi e observo. Posso estar totalmente errado, totalmente certo, mas provavelmente há um meio termo entre o "certo" e o "errado" que pode servir para melhorar nosso ambiente acadêmico em administração. O espaço de comentários abaixo está ai para isso: vamos estabelecer o debate.

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