Inclusive, o assunto chamou a atenção do MPF (Ministério Público Federal), que recomendou à presidência do Instituto a dispensa temporária da exigência de cadastro biométrico como condição para a concessão de benefícios previdenciários e assistenciais enquanto perdurar a suspensão do cadastramento eleitoral (de 7 de maio a 2 de novembro de 2026).
Há uma ironia cruel no funcionamento da Previdência Social brasileira: justamente quem mais depende dela é, muitas vezes, quem encontra as maiores barreiras para acessá-la. Em nome da modernização, o Estado digitalizou serviços, criou aplicativos, instituiu autenticações eletrônicas e transformou o celular em porta de entrada para direitos fundamentais. O problema é que essa porta permanece fechada para milhões de brasileiros.
A exigência de que idosos, pessoas analfabetas ou com baixa escolaridade utilizem plataformas digitais para solicitar benefícios, atualizar cadastros ou cumprir exigências administrativas revela uma inversão preocupante de prioridades. Em vez de a tecnologia servir às pessoas, são as pessoas que precisam se adaptar à tecnologia —sob pena de perderem o acesso a um direito garantido pela Constituição.
Não se trata de rejeitar a inovação. A digitalização pode reduzir filas, agilizar processos e ampliar o alcance dos serviços públicos. O erro está em transformar o meio no único caminho possível. Quando um aposentado de 80 anos precisa criar uma conta, memorizar senhas, validar identidade por reconhecimento facial ou navegar por aplicativos complexos para comprovar que continua vivo ou requerer um benefício, a eficiência administrativa passa a competir com o princípio da dignidade humana.
Há algo profundamente perverso em um Estado que promete proteger os mais vulneráveis, mas exige deles competências que sabe que muitos não possuem. A Previdência Social brasileira, criada para assegurar dignidade a quem envelheceu depois de uma vida de trabalho, passou a impor um filtro silencioso: o domínio da tecnologia.
Não basta ter contribuído durante décadas. Não basta preencher os requisitos legais para receber um benefício. Agora é preciso saber baixar aplicativos, criar contas, memorizar senhas, autenticar documentos, enfrentar reconhecimento facial, acompanhar notificações e responder a exigências em plataformas digitais. Para milhões de idosos e pessoas analfabetas, isso equivale a transformar um direito constitucional em um labirinto burocrático.