O Projeto Nheengatu Digital é uma iniciativa que reúne a USP, a IBM Research e comunidades tradicionais com o objetivo de revitalizar idiomas indígenas por meio da inteligência artificial. Nesta série de reportagens especiais, o professor Claudio Pinhanez, vice-diretor do Centro de Inteligência Artificial (C4AI) da USP e coordenador do projeto, apresenta os desafios técnicos e éticos envolvidos nesse processo, passando pelas complexidades gramaticais da língua Nheengatu — que dificultam a tradução automática — e pelo risco de que sistemas de IA reproduzam visões coloniais, preconceitos ou distorções sobre a realidade indígena.
Um dos pontos centrais da entrevista é a discussão sobre como avaliar a qualidade dessas traduções em contextos com poucos recursos digitais. Pinhanez explica a necessidade de criar métricas que levem em conta o julgamento humano e não apenas critérios estatísticos, além de abordar o problema das chamadas “alucinações” da inteligência artificial — quando sistemas inventam respostas plausíveis, mas incorretas. Para enfrentar esse desafio, o projeto envolve não só pesquisadores, mas também as próprias comunidades indígenas, que participam ativamente do desenvolvimento das ferramentas.
A conversa avança para uma reflexão sobre o que o pesquisador define como “dados culturalmente tóxicos” e os riscos de treinar modelos com conteúdos que carregam vieses históricos. Nesse contexto, ganha destaque a questão da propriedade dos dados e da autonomia das comunidades, que buscam garantir controle sobre suas línguas e conhecimentos, inclusive por meio da criação de infraestruturas digitais locais.
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