Sobre o modelo de cidade e de bairro em que estamos inseridos ...

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Pablo Florentino

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Dec 10, 2014, 8:46:56 AM12/10/14
to bairro-escolaRV, gt-praca-...@googlegroups.com
Car@s, compartilho aqui um pouco do que passei uma semana atrás ...
Não é sobre bicicletas, mas sobre o modelo de cidade em que vivemos
... E tudo aconteceu em um local muito próximo ao Rio Vermelho ...

Em torno de um mês atrás um grande amigo meu do Rio perdeu sua mãe.
Ela estava em um carro que foi ESMAGADO na pista da Lagoa Rodrigo de
Freitas por um ônibus.
Morte.

Isso é somente para demonstrar como todos nós estamos expostos a
diferentes níveis de violências diariamente, independente da posição
ou do veículo que ocupamos. Não quero aqui me vitimizar, mas acho
necessário compartilhar e tentar trazer um pouco de reflexão sobre
esta realidade que segue brutalizando as
pessoas diariamente, não só nas violências físicas diretas, como estas
que relato, mas nas indiretas, da forma desrespeitosa que motoristas
tratam pedestres, que condutores tratam passageiros idosos, fazendo-os
cair, pela falta de espaços para simplesmente estar na cidade de
maneira mais suave, lúdica, tranquila e relaxada ...

Compartilho com minha experiência, seja visualmente, seja de forma
escrita ... Acho importante que possamos ecoar isso por onde for ...
estou buscando isso pois sei que poderia ter sido qualquer um de nós
aqui, destinatári@s, ou um dos noss@s filh@s, parentes, amig@s ... E
sei que, no final, estamos todos preocupados com esta situação.
Estamos todos expostos e "semi-nus", ou totalmente "nus".

abcs

pablito, still alive

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Fiquei imaginando vários títulos para este relato do cotidiano da vida
urbana ... Pensei em um simples e direto: "O sistema é bruto"
Outro seria: "O "mel" desceu pela mão"

Ou poderia ser também: "Velozes e furiosos: tudo por 5 segundos"

Ou poderia simplesmente ser: Não foi acidente ...

Salvador Vai de Bike Transalvador Mobicidade Salvador

A verdade é que é mesmo difícil falar e descrever este momento, quando
tudo fica muito frágil e nos sentimos ainda mais violentados. É
difícil ser frio na descrição do que ocorreu, sem envolver emoções
diversas nas palavras ...

A velocidade dos pensamentos num espaço muito curto de tempo é tão
alta quanto a do ônibus que passou pela minha vida no dia 3/12/2014

Como certa vez relatou meu amigo Eduardo Luedy, nós que estamos aí na
rua pedalando sabemos que nossa vez de levar este susto está sempre
por
chegar ...

E aí chegou a minha ... O mais inusitado é que não ocorreu numa
avenida de vale, onde as velocidades são no mínimo de 60km/h ( e na
prática, 70km/h em média) mas na orla de Salvador. Geralmente, as
regiões de orla são locais de contemplação, corporalidades, admiração
e lazer. São locais onde as pessoas deveriam se sentir seguras em
relação a velocidade dos carros para que possam ali desenvolver
contato com a natureza e a geografia da orla, realizando atividades ao
ar livre das mais diversas formas, oportunidade única de expandir o
corpo e a mente. Orlas são, antes de tudo, grandes parques aquáticos e
públicos, funcionando em muitas cidades como grandes válvulas de
escape à forma desordenada e brutalizante a que estamos submetidos.

Mas aqui em Salvador, se partirmos da Morro do Cristo até Itapoan pela
Orla encontraremos como velocidade mais baixa 50 km/h (o que seria a
velocidade máxima aceitável para compartilhamento de ruas entre
motorizados, pedestres e usuários de bicicletas) em pequenos trechos,
sendo a maior parte da orla entre 60 e 70 km/h. E o meu ocorrido foi
justamente em um local onde a velocidade máxima é de 60km/h.
Neste caso, o impacto direto de um carro sobre uma pessoa tem 85%
de chance de morte. Os 15% restantes sairão com graves lesões.

Para além da Orla, meu ocorrido se deu numa região com alta densidade
de escolas, colégios (ISBA), faculdades e universidades (UFBA e Fac.
Social), um teatro, além de abrigar, também, um centro de atenção a
pessoas com necessidades especiais de locomoção, ou seja, cadeirantes
ou pessoas que possuem um caminhar auxiliado e/ou mais lento que a
maioria. Mesmo neste contexto, a velocidade é completamente adversa e
não existem: 1) sinalizações indicando que ali é uma região escolar,
logo, exigindo atenção redobrada de condutores e 2) intervenções
urbanas que forcem fisicamente a redução de velocidade ( quebra molas,
faixas de travessia elevadas, no nível da calçada, tachões ostensivos
demarcando o espaço dos automotores, entre outras coisas ).

Mesmo diante de todos estes fatores, e mesmo com a ausência de outros,
devo partir da premissa que um motorista profissional, que transporta
vidas humanas, deve ter habilidade e conhecimento suficientes para que
sua prática ao volante seja sempre defensiva protegendo, como rege o
Código Brasileiro de Trânsito, a vida humana e os veículos menores.
Devo partir do pressuposto também que a empresa que o contrata lhe dá
treinamentos, suporte psicológico e boas condições de trabalho.

Então, quarta, voltando de uma reunião com meu orientador, na Ufba,
para encontrar com minha mãe e um casal de amigos que estão hospedados
em minha casa, tomei a orla saindo da Ademar de Barros (também uma
avenida amplamente utilizada por pedestres e usuários de bicicletas,
muito por conta da Ufba, das escolas, do zoológico, das diversas
clínicas e consultórios que atendem crianças e idosos), respeitando
todos os sinais de trânsito e me colocando ao bordo direito da pista.

Logo após passar pelo ponto de ônibus que fica antes das quadras de
esportes de Ondina, de forma súbita, sem haver qualquer possibilidade
ou tempo de reação, um ônibus da empresa Joevanza Tranportes surgiu,
apareceu,
passando por mim em altíssima velocidade. Com o acumulado de finas e
fechadas que já tomei nestes quase 15 anos pedalando, o ouvido já
bastante treinado e apurado para inclusive identificar, só pelo ronco
do motor, qual o tipo de veículo se aproxima, teria naturalmente
percebido a aproximação de um veículo de grande porte.
Não houve tempo de me deslocar à direita ou mesmo parar. A parte
lateral do ônibus bateu no meu guidão ( lado esquerdo), deixando as
cores da lataria do ônibus encrustadas no mesmo, e jogando este lado
do guidão para a frente. Nestes casos, o que acontece geralmente é a
bicicleta naturalmente deslocar-se para o lado direito e cair, no
entanto, o corpo da pessoa irá tender a tombar para o lado esquerdo,
neste caso, o lado do ônibus. É aí que a velocidade dos pensamentos
que correm nossas cabeças num espaço tão curto de tempo são tão
intensas quanto a força necessária para mover um veículo que pesa
toneladas, transporta centenas de quilos a uma velocidade de 60 ou 70
km/h. Se a tinta da carroceria ficou gravada no guidão, como pode ser
visto na foto, qual deveria ser a velocidade dele naquele momento ?

Bem, o flash de pensamentos é realmente muito grande. Passa muita
coisa. Como já estou bem "rodado" usando a bike para me transportar,
desenvolvi uma certa experiência em como cair (já tomei uns tombos bem
"gostosos"). E como já li muitos relatos de atropelamentos, já sabia
como a dinâmica da física e dos corpos se dava naquela situação. A
diferença de tempo entre o momento em que o ônibus surgiu e que me
tocou foi de milissegundos. E quando senti o solavanco, consegui um
mínimo de controle para não cair de qualquer forma. Mas o primeiro
pensamento que veio: "fudeu, já era, vou cair e o pneu do ônibus virá
em seguida, impiedoso, lascou tudo " ... Neste intervalo de tempo das
velocidades dos corpos e dos pensamentos, não sei como, consegui cair
à frente e não ao lado esquerdo ... Talvez uma reação inconsciente do
corpo ...

Sim, estou bem!!! Sim, estou vivo porra !!! Mas também estou me
sentindo completamente violentado ...É uma forma de ter o corpo
estuprado!!! Sim, eu vi o beijo da morte bem de perto: não é drama, é
a realidade das grandes cidades brasileiras!!!
Fatos que se repetem todos os dias. E eu quase entrei
para as estatísticas. Tentei encontrar a dignidade e o
direito de poder estar na rua, como cidadão, ocupando o espaço público
e compartilhando o mesmo com todos, pedestres, carros, ônibus,
bicicletas, motocicletas, skates, patins, carrinhos de bebê, crianças
e idosos ... Encontrei desrespeito e brutalidade ... individualidade e
um desejo doentio de estar sempre à frente, em alta velocidade, mesmo
que para isso seja necessário passar por cima de outras vidas. O que
chega para mim são micro e macro violências urbanas ...

Então, o respeitável condutor para vários metros a frente (muito
provavelmente porque alguém do ônibus viu, pois ele não deve ter
percebido nada) e desce. Outras pessoas já tinham se aproximado para
me dar socorro. Tudo muito rápido, a palma da minha mão esquerda
esfolada e
pintada de vermelho, derramava o "mel" ... A perna esquerda doía com a
pancada... 5 segundos de tontura. Um anjo de bike ( Jorge, que tinha
sido atropelado alguns meses atrás, também de bike ) surge, de bike, logo
em seguida e me dá a primeira mão junto com as primeiras palavras. Um
outro condutor também aparece pedindo para me acalmar e sentar. Já
recomposto do susto, a sensação de revolta com violência ao corpo é
maior. Naquele momento, tudo que queria era registrar os dados do meu
quase assassino - sim, consegui cair por sorte ou por alguma reação
orgânica e impensada, fora da trajetória dos pneus, mas a poucos
centímetros dos mesmos - imaginem ... Começo a fotografar... as
primeiras palavras do condutor quase assassino são no sentido de
colocar a culpa em mim, querendo dar a entender de que eu teria jogado
a bicicleta na direção do ônibus. Surreal !!!!

Difícil ter calma neste momento, não o xinguei, não ofendi, mas o
chamei de assassino SIM !!! Isso chama-se imperícia profissional !
Isso chama-se atentar contra a vida alheia ... Uma pessoa como esta
não tem qualquer capacidade de transportar vidas nem de compartilhar o
espaço com outras formas de locomoção. Uma pessoa como esta é, antes
de tudo, vítima de um sistema fodido e opressor, está sob a pressão de
metas de tempos e n° de viagens por dia a serem realizadas. Existe
todo um sistema bem maior que chancela comportamentos deste tipo, que
chancela as altas velocidades nas ruas das grandes cidades
brasileiras. Será que recebeu os devidos treinamentos para exercer
seu ofício ??? Isso não é acidente: em tese, ele recebeu horas e
horas de treinamento, ele sabia das leis e das responsabilidades, ele
sabia das implicações, e mesmo assim, acelerou e forçou a passagem.

Imprudência !!!

(Ou seria tão custoso a um motorista frear, diminuir e depois retornar
a uma velocidade compatível com as demais vidas que estão nas ruas ? )

Enquanto isso, o outro motorista tentava colocar panos quentes pedindo
para me acalmar. Fui fotografar o ônibus de perto para pegar todos os
dados. Era visível que ele já não sabia o que fazer, começava a tomar
ciência da gravidade dos fatos, voltou para o ônibus já com a cabeça
baixa (fotos). Entrou no mesmo e não quis me dar sua identificação.
Virou o rosto para que não aparecesse nas fotos. Em nenhum momento ele
me pediu calma ou fez menção de chamar o SAMU, Transalvador ou
polícia.

Entrei no ônibus, tentando achar algo que o identificasse. Nada. Ele
queria fechar a porta e seguir viagem. E de fato tentou ... Forcei a
porta impedindo ... Fiz questão de frisar para todos os passageiros
que aquele condutor quase havia tirado minha vida (simplesmente pq não
poderia aguardar alguns segundos até um trecho da via em que ele
pudesse me ultrapassar com espaço de segurança mínimo).

Consegui sair do ônibus, já em movimento ... esqueci de todas minhas
coisas, inclusive minha mochila com meu computador. Por sorte, Jorge,
este anjo, cuidou de tudo (muito obrigado Jorge).

Junia, uma moradora das redondezas viu tudo e também foi fundamental
para me acalmar.

Comecei a me dar conta do que tinha acontecido com o corpo, das
escoriações mais leves, do guidão agora empenado e com a marca de
tinta das cores da Joevanza. Jorge me acalmou. Coloquei a corrente da
bike no lugar e fomos juntos pedalando até mais a frente. Jorge ficou
no caminho e segui até a Fonte do Boi pedalando, mas com corpo e a
mente "em chamas" ...

Difícil negociar com a emoção. Sabia que precisava ser discreto com
minha mãe. Gabriel Schvarsberg foi um anjo e super me ajudou,
juntamente com Maíra Spanghero e Liló.

Fiz todas as chapas de raio-x. Nada quebrado. O pulso esquerdo dói em
certos movimentos, assim como a coxa ... Mas estou vivo, caminhando, e
quase pronto para voltar a pedalar ... Não vou parar de girar
correntes, catracas, coroas, aros e raios ...

E no fim, o mais louco de toda esta história, é que, junto com o
Coletivo Mobicidade (http://mobicidadessa.wordpress.com/), e outros
companheir@s, estamos realizando cursos para os condutores de ônibus
de Salvador sobre como compartilhar as ruas com bicicletas desde 2012.
Isso é o mais inusitado. Agora em 2014, fomos convidados pela
Prefeitura de Salvador e pelo Salvador vai de Bike para participar
desta capacitação (fotos) ...

Ironia do destino ?

As fotos estão aí ...

https://plus.google.com/photos/111781864572968205839/albums/6090475822363999169

--
@pablovieiraf
"Todos os dias nascem deuses maiores ou menores do que você"
(N. Zumbi)
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