Quem tem medo da arte contemporânea?

151 views
Skip to first unread message

Daniel Lie

unread,
Jun 10, 2009, 1:37:11 PM6/10/09
to grupocolectivo
Peve que passou esse texto muito interessante sobre a arte de hoje.
 
 



QUEM TEM MEDO DA ARTE CONTEMPORÂNEA?
Do incômodo à perplexidade, da repulsa ao encanto: a arte capaz de
despertar os mais variados sentimentos no público

Por Luciana Veras

Quem tem medo da arte contemporânea? Se por um lado essa pergunta
remete a algo capaz de provocar pavor, por outro retrata um sentimento
comum quando o assunto é arte. Não por acaso, tal indagação dá título
a um livro publicado em 2007 pela Fundação Joaquim Nabuco, do Recife,
com base em uma série de aulas ministradas pelo crítico de arte e
curador Fernando Cocchiarale. E por que a arte contemporânea suscita
temores? Porque, como descreve o autor, "habituamo-nos a pensar que a
arte é uma coisa muito diferente da vida, dela separada pela moldura e
pelo pedestal e, aliás, a arte foi mesmo isso durante a maior parte de
sua história". Assim foi no Renascimento, no século XVIII, e também
até meados do século XX, antes de o planeta assistir ao ocaso de sua
própria ideia de mundo com guerras e novas tecnologias de produção e
comunicação.

Dessa forma, continua Cocchiarale, "a ideia de uma arte que se
confunda com a vida é difícil de assimilar porque o nosso repertório
ainda é informado por muitos traços conservadores". Uma primeira
conclusão seria, portanto, que a arte contemporânea é a que se produz
nos dias atuais, que é impossível dissociá-la das sensações e
descobertas que torpedeiam o mundo ou mesmo da existência cotidiana de
um cidadão. Mas é viável demarcar fronteiras cronológicas para seu
surgimento. "De um ponto de vista consagrado em termos
historiográficos, é a arte feita a partir do início da década de 1960,
quando as certezas e utopias que definiam o projeto da arte moderna se
esgotam, e outras possibilidades (arte pop, minimalismo, arte
conceitual) se impõem como alternativas. É razoável, ainda, defini-la
como a arte que se debruça sobre as questões de seu tempo e que
problematiza o mundo em que vivemos", sustenta o pesquisador, crítico
e curador Moacir dos Anjos, responsável pela curadoria do Panorama da
Arte Brasileira no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em 2007.

PIONEIRISMO E AMBIVALÊNCIA
Por "problematizar", é saudável entender não uma postura de combate às
instituições, mas um tipo de produção que busca na invenção formal uma
maneira diferente de analisar tudo o que a cerca. A arte contemporânea
mete medo porque, ao se deparar com algumas de suas obras, o público
vê suas convenções embaralhadas. A fruição desses trabalhos pode ser
frustrante porque o observador se põe em dúvida, ainda que em breves
segundos, sobre o que está à sua frente.


Foi assim em 1917, quando Marcel Duchamp submeteu Fonte a um concurso
nos Estados Unidos. A obra consistia num urinol branco, com a
assinatura R. Mutt, ou seja, um objeto trazido da esfera da vida
cotidiana para o circuito de museus e galerias. Nascia o readymade, e
a ousadia do artista causou furor e o colocou em um patamar de
destaque em relação à arte que seria concebida e concretizada em
seguida. "Era um visionário que prenunciou uma época. O contemporâneo
na arte não diz respeito a uma temporalidade específica, e sim a uma
espécie de diálogo com o espírito de uma época. Nem tudo o que se faz
hoje, por exemplo, é arte contemporânea. Trinta anos depois de
Duchamp, houve a bomba em Hiroshima e o mundo perdeu a inocência.
Vieram a crise dos papéis sociais, dos lugares das coisas e uma
insegurança na classificação das obras de arte. Duchamp antecipa isso
ao assinar o mictório, dando ao artista o poder de decidir o sistema
de legitimação", observa a curadora e crítica Cristiana Tejo, ex-
diretora do Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, do Recife, e
coordenadora de capacitação e difusão científico-cultural da Fundação
Joaquim Nabuco.

Para ela, não se pode pensar em arte contemporânea sem o pioneirismo
de Marcel Duchamp e a ambivalência de Andy Warhol. A pop art defendida
pelo artista é essencial por transformar em matéria-prima o mundo de
então. "Ele é cínico e crítico. Ao constatar que, no futuro, todos
terão 15 minutos de fama, Warhol falava da vida, da velocidade com que
as coisas mudam, do artista que faz do mundo seu ateliê. Na arte
contemporânea, o que importa não é a linguagem, e sim a forma de
operar", pontua Cristiana. As obras passam a dispor de vários
suportes, ganham espaço as performances, a interação com novas mídias,
as instalações - ou seja, algo que não se assemelha a ícones como os
quadros de Van Gogh, ou mesmo a Mona Lisa, de Da Vinci, apenas para
citar a arte ocidental.

IDEIAS CIRCULANTES
"A característica da arte contemporânea é a multiplicidade de
expressões. Em uma Bienal de Veneza ou na Documenta de Kassel se
encontram performances em vídeo, arte conceitual e instalações se
confrontando numa sinergia. Há uma convergência. Se antes as coisas
eram mais estanques, a contemporaneidade fez com que essas expressões
interagissem em diálogos, interfaces, trocas. O cinema incorpora
literatura, pintura, dramaturgia, e o teatro incorpora o cinema. Há
uma circularidade dos formatos e das ideias estéticas", argumenta o
crítico, professor e doutor em cinema pela Universidade de Sorbonne -
Paris 3 Alexandre Figueirôa. Na produção cinematográfica, por exemplo,
é possível distinguir os autores que romperam as estruturas
tradicionais. "F. W. Murnau, Luis Buñuel, Dziga Vertov, Jean Rouch,
Sergei Eisenstein quebraram paradigmas. Aos poucos o fazer artístico
passou a exigir um olhar mais atento e uma abertura por parte do
espectador", pontua Figueirôa.

Tal abertura é essencial para a apreciação da arte em todas as suas
manifestações - cinema, literatura, teatro, dança -, pois todas estão
conectadas a uma noção de contemporâneo. "Desde que se entenda essa
noção não como um estilo, mas como um modo de pensar, de organizar os
pensamentos que ajudam a formular as proposições artísticas sobre o
mundo", salienta a pesquisadora e coordenadora do programa de pós-
graduação em dança da Universidade Federal da Bahia Fabiana Dultra
Britto. Ela defende que "as modificações históricas nos modos de
pensar e produzir arte" advêm menos de "gênios iluminados" e mais de
um "processo contínuo de contaminação das ideias circulantes em cada
contexto". Pode-se, contudo, rastrear os artistas que catalisaram
"certo modo de pensamento artístico e procedimento compositivo
fortemente identificado com princípios lógicos contemporâneos, como a
não-linearidade, o acaso, a complexidade". Na dança, Fabiana cita
Merce Cunningham, Trisha Brown, Lucinda Childs, Steve Paxton, Jèrôme
Bel e Meg Stuart, entre outros.

No cinema, o radicalismo de Jean-Luc Godard e a poética de Pier Paolo
Pasolini, por exemplo, nem sempre agradam; e, no teatro, Samuel
Beckett enfrentou resistência com sua visão ácida, da mesma maneira
que existem detratores das encenações de Zé Celso Martinez Corrêa. "A
suposta 'dificuldade' em 'entender' a arte contemporânea está em
querer medi-la e julgá-la a partir de parâmetros que não reconhecem as
suas especificidades. Como qualquer outro campo de expressão e de
conhecimento humano, as artes visuais possuem uma história que
continuamente (re)constrói convenções sobre as quais operam. É preciso
pensar se faz realmente sentido a ideia de 'entender' a produção
contemporânea em artes visuais, já que não cobramos um 'entendimento',
por exemplo, da música que escutamos no rádio", pondera Moacir dos
Anjos.

A arte contemporânea, portanto, não deve ser enquadrada em conceitos
anacrônicos, e sim sentida como eco de um mundo voraz, múltiplo e
vasto. Esse mundo é representado não pela verossimilhança, e sim pela
liberdade. A produção atual se dirige a espectadores/fruidores/
consumidores que acolhem a pluralidade e exercitam a generosidade no
olhar, e oferece a quem se aproxima de uma pintura, uma instalação, um
filme ou uma performance um caminho no qual os significados estão
abertos e ainda em construção.


@ http://www.itaucultural.org.br/index.cfm?cd_pagina=2720&cd_materia=846

Matsuhei

unread,
Jun 10, 2009, 10:34:03 PM6/10/09
to grupocolectivo

Bastante pontual esse texto que você postou em Dan.
Espero que as pessoas leiam para que possamos discutir no próximo
encontro.

É interessante como a medida que a arte se aproxima da vida as
pessoas sentem que ela se distancia de sua realidade compreensível
Sou entusiasta da arte de nosso tempo, mas temos que ter um olhar
sempre crítico cauteloso.

Gostaria realmente de conversar com vocês sobre o texto

Lendo um pouco sobre arte contemporânea, pensando sobre Duchamp,
Beuys, Mondrian, uiu cavalheiro, Arthur Danto e a morte da história da
arte , uma idéia martela na minha cabeça e eu queria jogar a questão
para vocês:
Vocês acham que a Arte(A maiúsculo do Gombrich) sincera e atual visa
a auto-extinção(conceitual), no sentido de acabar as barreiras entre
artista e não artista?

Beatrix Oliveira

unread,
Jun 11, 2009, 9:26:42 AM6/11/09
to grupoco...@googlegroups.com
vou ler o texto ainda, mas por ora digo que se a arte contemporânea aidna não visa isso
anda meio atrasada no tempo, porque é inevitável. ridículo dizer que artista é só a pessoa
consciente de que produz arte e tachar "artesanato" as tradições ou desconsiderar a produção esquizo, p.e.
vivemos também numa época em que não faz mais sentido falar em "autor", só em
"primeiro leitor", afinal de contas o que se faz é reorganizar cenas que já existem.
a criação artística não é muito diferente de outros processos mentais do quotidiano,
e também não desce como uma dádiva dos céus, destinada a poucos escolhidos afortunados. 
é preciso despertar nas pessoas a consciência de que arte é inerente ao ser humano,
não existe civilização sem ela. o conceitualismo serve para o mercado, é claro, assim
como toda a organização atual e hierarquias artísticas estabelecidas. é uma faceta do conheci
mento humano como qualquer outra, e ao restringir o espaço a galerias (como exemplo
de repressão; tipo os monges que regulavam os codexes, ficava tudo mofando na abadia)
há um afastamento do pensamento artístico do resto da população - porque é cómodo
para uns poucos que se mantenha assim.
 
como sempre foi, a arte é o reflexo direto de mudanças grandes. diria que é quase uma
terapia da humanidade, ou melhor, a terapia veio para substituir a expressão obtida
através do fazer artístico que foi elitizado. e nesta época de queda do copyright, abalo na noção de
"plágio" (termo que também é diretamente relacionado ao mercado e ao sistema vigente),
e anarquia informacional, nada mais natural que a arte adquira características semelhantes.
 
depois discutimos mais sobre isso,
ainda preciso desenvolver melhor as ideias.
 
como foi o último encontro? peço desculpas pela ausência, problemas de família e tal.
sei que minha casa é longinha também, quando (se) for lá de novo a gente pega o metrô que é mais fácil.
 
beijos a todos.
 
obs. eu tenho muito medo da arte contemporânea, principalmente dos seus feitores.
 
> Date: Wed, 10 Jun 2009 19:34:03 -0700
> Subject: Re: Quem tem medo da arte contemporânea?
> From: leoma...@hotmail.com
> To: grupoco...@googlegroups.com

See all the ways you can stay connected to friends and family

Daniel Lie

unread,
Jun 11, 2009, 11:30:47 PM6/11/09
to grupoco...@googlegroups.com


Então Trix,

Na última reunião fizemos uma tempestadecerebral (brainstorm) bem legal, a Vivi até anotou o caminho que o assunto foi levando. Falamos do Pornovidro, que aliás tem no momento 1.097 visualizações, e daí partimos para um monte de assuntos.
Depois nós fizemos outra tempestade pensando num futuro video que tem por temática o Quase, por exemplo um video de uma banda se preparando, parecendo que são fodas, eles vão dar os primeiros acordes e...corta. Pensamos em vários videos em que a cena chave é cortada.
 
Depois fomos tomar breja de litro que custa 3 real!!!!!!
 
 

Vinicius De Assis

unread,
Jun 14, 2009, 6:04:07 PM6/14/09
to grupoco...@googlegroups.com


Vale salientar que a idéia do vídeo é do Sr Lucas Fiacadori. =)

uiu

unread,
Jun 14, 2009, 9:19:01 PM6/14/09
to grupoco...@googlegroups.com
matsu


"Duchamp, Beuys, Mondrian, uiu cavalheiro, Arthur Danto e a morte da história da
arte "
fico lisongeado e meio q sementender por que meu nome tá ali no meio...


quanto à pergunta. ainda acho sim que há esse afastamento e cisão, e não sei se é por estarmos/estarem regulando a mixaria. às vezes me pergunto o quanto a arte é realmente necessária aos artistas,e o quanto ainda ela é necessaria aos nao artistas (por ora desconsiderando toda essa discussão sobre quem é artista, quem é o primeiro fruidor/observador, etc...).
isso entra num âmbito maior, e eu acho que as vezes somos um tantoquantopretenciosos em achar que as pessoas precisam de arte pra viver. o queanto elas precisam de um conhecimento apurado. Baumgarte ja deu um peteleco inicial há um tempão, e eu continuo a pensar e assimilar O saber estético como uma ciência como outra qualquer. assim como mita gente mao precisa de um saber quimico específico, ainda acho que muita gente podenão querer ter o saber artisto. e por que? por que simplesmente não apetece.
ta, dai vem e me dizem que isso tem a ver com a emoção, e quimica nõa tem nada aver. e, como todos temos emoçoes, a arte deveria nos tocar naturalmente. balela. euestou inserido nos meandros da arte. e muita coisa (Repito: Coisa pra caralho) nao me toca.

a questao do Dom (não o divino, necessáriamente,mas também), aquela facilidade que certas pessoas tem pra certas coisas, me pega muito

hoje tive uma tarde muito foda, conheci uma rapaziada q tocava, e dentre eles havia uma menina que cantava. e ela contava OTIMAMENTE BEM. sim, dentro de padroes préestabelecidos. e umamigo meu toca varias coisas. e eu fico embasbacado comoele tem facilidade pra criar coisas que soam agradáveis.
e eu ficome questionando sobre esse tal chamado. essa tal vocação. eu naosei muito bem o que dizer sobre, mas eu sei que tem a ve com a coisa toda ai da arte e dos artistas.

to com preguiça de escrever agora, esperonao ter fica muitomuitomuito superficial,mas a gente conversa sobre

Beatrix Miranda

unread,
Jun 14, 2009, 10:14:42 PM6/14/09
to grupoco...@googlegroups.com
concordo bastante com isso de que não se precisa saber que é arte, inclusive acho que mencionei rapidamente no que disse, deveria ter desenvolvido melhor.
há vários tipos de incorporamento* da informação, e a abstração racional é só uma delas. há certos conhecimentos intrínsecos na humanidade; não gosto da palavra "verdades" porque já admite um ponto de vista imutável. mas como disse o Benjamin, a condição da Verdade absoluta é ser icognoscível, se auto-representar eternamente: portanto creio que todas as histórias já foram mesmo contadas e sabemos todas elas. o que muda é a maneira de contar. e Arte é só mais uma nomenclatura. e toda a teorização é banal.


*pequeno desvio para evitar a rima indesejada


Date: Sun, 14 Jun 2009 22:19:01 -0300

Subject: Re: Quem tem medo da arte contemporânea?

What can you do with the new Windows Live? Find out

uiu

unread,
Jun 14, 2009, 11:20:22 PM6/14/09
to grupoco...@googlegroups.com
so pra consatar : minha barra de espaços ta com defeito (assimcomo varas letras d teclado emprerram)

Daniel Lie

unread,
Jun 14, 2009, 11:52:54 PM6/14/09
to grupoco...@googlegroups.com


Não sei se a extinção vai rolar, talvez aconteça, ou já está acontecendo uma mudança na Arte.
Já tinha conversado com Matsu sobre isso. Eu acho que qualquer um tem potencial de criar arte, ou que cada um já cria sua arte. O engenheiro cria, o matemático cria, o biólogo e assim vai.
Nós talvez focamos em outra parte, na visual, acho que o artista de hoje tem algo disforme que não sabe oque é tenta colocar/ coloca isso para fora da sua melhor maneira. A expressão. Ou seja, ontem um homem na caverna precisou projetar seu interior para fora, cuspiu terra pela boca em cima da sua mão e fez uma impressão. Hoje pega uma lata de tinta e faz o mesmo.
 
Acho que todos são artistas em potencial. Mas aqueles que querem ir a fundo para colocar aquela coisa disforme, si mesmo, para fora, são poucos, somos nós.
 
Também tem muita coisa que vejo que não me toca. Mas já tive momentos que quando me tocou tive vontade de chorar. Recentemente tive isso na expo do Sesc Pompéia Arte para crianças, na real acho que foi a primeira vez que senti isso. Aí tudo faz sentino na arte, é necessário, precisa e sempre teremos ela de uma forma ou de outra.
 
Ih tem pano pra manga essa conversa.
 
beijos
 
 
Reply all
Reply to author
Forward
0 new messages