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Resumo - Os sapatos representam composio importante nas produes culturais e artsticas, tendo evoludo praticamente em conjunto com a civilizao. Nesse sentido, esta pesquisa elencou as possveis simbologias associadas a calados, erotismo e ps-humano, usando, para tanto, comparaes entre literaturas de Lngua Portuguesa, a citar: os contos Preciosidade, de Clarice Lispector, A Filha do Diabo, de Maria Ondina Braga, e o primeiro captulo do livro A Mquina de Joseph Walser, de Gonalo M. Tavares, aliados a leituras suplementares como Os Sapatinhos Vermelhos, de Caio Fernando Abreu, e A Perfeio, de Ea de Queiroz, de forma a coletar os elementos simblicos e construir, juntamente ao referencial terico, um paralelo que vai do sapato ao erotismo (nos contos comparados) e do erotismo ao ps-humano (no captulo analisado), retomando o sapato, por fim, como figura menosprezada no ps-humano pela suposio de que, no pice da robotizao, o erotismo se transforma - alterando tambm a valorao dos calados.
Abstract - The shoes represent important composition in the cultural and artistic productions, evolving parallel to civilization. In this sense, this research listed the possible symbologies associated with footwear, eroticism and post-human using comparisons between Portuguese language literatures - to mention: Preciosidade by Clarice Lispector and A Filha do Diabo by Ondina Braga - and the first chapter of A Mquina de Joseph Walser book by Gonalo M. Tavares, allied to additional readings such as Caio Fernando Abreu's Red Shoes and Ea de Queiroz's Perfection, in order to collect the symbolic elements and build, along the theoretical reference, a bridge from the shoes to the eroticism (in the compared stories) and from the eroticism to the post-human (in the analyzed chapter), resuming the shoes as a despised figure in the post-human by the fact that, at the apex of robotization, eroticism would be transformed, changing the valuation of footwear as well.
Elifas Andreato, jornalista e conhecido ilustrador de capas para a msica popular brasileira, era especialmente interessado em sapatos (ULBRATV, 2016). Uma das antologias do autor Murilo Rubio, O Pirotcnico Zacarias (publicada em 1974 pela editora tica), demonstra essa obsesso do artista Elifas ao dar nfase, na capa, a um par de calados brancos de ponta e cadaro negros que se destaca em meio grama (COMPANHIA DAS LETRAS, 2019). Van Gogh foi outro dentre os diversos artistas que escolheram pares de sapato como temtica para suas telas, chegando a pintar por cima de outra obra sua para dar lugar ao couro velho e amarronzado das botinas do quadro Shoes, atualmente em exposio no Van Gogh Museum, em Amsterd (SHOES, 1886).
Seguindo a lgica, na literatura so muitos os textos que trazem os sapatos como parte fundamental do enredo, como o conto de fadas Os Sapatinhos Vermelhos, publicado inicialmente em 1845 por Hans Christian Andersen (2012), em que os sapatos so a causa da ascenso e derrocada da personagem Karen - que chega a amputar os prprios ps para se ver livre dos sapatos amaldioados. Esse mesmo conto foi adaptado para o cinema por Michael Powell (IMDB, 1948) numa histria em que a personagem principal, uma bailarina, fica dividida entre a escolha de viver um romance ou dedicar-se unicamente carreira (e s sapatilhas).
Demonstrando a fora da intertextualidade - ou seja, do texto entendido como retomada de outros textos (Kristeva, 2005), encontra-se, ainda, outras vrias referncias ao conto de Andersen, como Os Sapatinhos Vermelhos retratado por Caio Fernando Abreu (2006). Abreu adaptou a histria para uma data religiosa no Brasil, Sexta-Feira Santa, com uma personagem adulta que procura alcanar a redeno por meio de seus sapatos vermelhos e da busca desenfreada pelo amor barato, causando um efeito pastiche em relao ao conto original.
Figurando ainda como peas principais ou decorativas, os sapatos aparecem nas mais diversas produes filmsticas - a exemplo da capa do filme O Diabo Veste Prada (IMDB, 2006) e do alerta sobre o consumismo na cena de abertura do filme Os Delrios de Consumo de Becky Bloom (baseada no livro homnimo de Sophie Kinsella - IMDB, 2009). Na msica, a letra Walking in my Shoes, da banda Depeche Mode (Letras, 2019), traz a interessante conotao de trocar de lugar com o outro, num processo de empatia; no menos empticas, s orlas do Rio Danbio (em Budapeste, Hungria) h esculturas de sapatos que funcionam como memorial das vtimas do holocausto (TAYLOR-TUDZIN, 2011).
Destarte, seja na literatura, nas artes audiovisuais ou nas reprodues esculpidas mo, os sapatos so amplamente utilizados como recurso ou parte fundamental de produes artsticas e culturais. Mas como os calados, inicialmente desenvolvidos com a simples proposta de proteger os ps, evoluram para um contexto de sentidos to amplificados? Isso pode ser explicado, em parte, por conta dos diferentes contextos sociais, econmicos e identitrios que envolvem a produo dos calados, avultando no somente a complexidade de seus formatos, como tambm as intenes de uso frente multiplicidade de modelos elaborados ao longo dos sculos.
A inteno deste artigo residiu, assim, em descobrir nos referidos textos de Clarice Lispector e Maria Ondina Braga os emblemas refletidos nos sapatos utilizados pelas personagens principais, o que foi feito a partir da seguinte pergunta: quais os indcios, nos textos, de que os calados no conto Preciosidade e em A Filha do Diabo representam uma associao entre poder, feminilidade e erotismo? Nesse sentido, o objetivo principal desta pesquisa foi elencar os elementos comparveis entre ambos os contos e as respectivas ideias que esto ali apresentadas na forma de smbolos de poder, de feminilidade e de erotismo, sendo que outro conto - Os Sapatinhos Vermelhos, de Caio Fernando Abreu (2006) - foi utilizado de forma breve para complementar esse entendimento.
E como ao falar de sapatos, ps e erotismo acaba-se indo de encontro s representaes corpreas, o objetivo secundrio deste trabalho foi buscar o contraste entre a simbologia do corpo apresentada nos contos (de Clarice e Ondina Braga) e do corpo retratado na literatura do ps-humano - o que foi feito a partir da leitura do primeiro captulo do livro A Mquina de Joseph Walser, de Gonalo Tavares, que traz um dilogo focado nos sapatos utilizados pelo personagem Walser. Para reforar a anlise entre erotismo e ps-humano, contemplou-se, por sim, o conto A Perfeio, de Ea de Queiroz, como leitura suplementar.
No se pretendeu neste artigo, contudo, beber to a fundo dessas razes tericas, e sim esboar a ideia sinttica que permitiu alar as imagens simblicas que foram correspondidas adiante, na anlise dos contos. Para iniciar tal entendimento, assim, recorrer-se- a uma definio mais direta do que seria o poder e a feminilidade.
Como se entende, ento, que entre os sexos essa reciprocidade no tenha sido colocada, que um dos termos se tenha imposto como o nico essencial, negando toda relatividade em relao a seu correlativo, definindo este como a alteridade pura? (Simone de Beauvoir, 2009)
Encarando-se os discursos que regem a relao entre poder e feminilidade, assim, logo se descobrem interdies que rebaixam o feminino quele que intenta apoderar-se de uma condio de autoridade - posio que no deixa de ser, por lgica, a mais oportuna. Nessa ideao, o discurso verdadeiro deixa de ser o mais precioso e desejvel, visto que o que se almeja o discurso ligado ao exerccio do poder. Voltando-se o foco para o contexto literrio, possvel localizar o discurso de poder na fala e nas relaes entre os personagens de um enredo, seja esse discurso parte de uma realidade ficcional ou reflexo de uma situao histrica / cotidiana.
Isso posto, imagina-se que a feminilidade possa estar inserida, em um texto, de modo a sugerir ou criticar uma situao (como desabafo ou constatao de um fato exterior, por exemplo), replicando ou inserindo um novo formato de discurso que, se analisado junto aos elementos correspondentes, poder revelar desejos e intenes daquele que fala - seja ele o personagem, o narrador ou o prprio autor. Dentro disso o feminino, quando utilizado em um texto, pode refletir um significado que vai muito alm da silhueta da feminilidade - permitindo inserir reflexes que englobam a ampla discusso sobre poder e questes de gnero.
[...] tal feminilidade puramente representao, um posicionamento inserido no modelo flico de desejo e significao; no se trata de uma qualidade ou de uma propriedade da mulher. (Teresa de Lauretis, 2019)
Encarando-se a feminilidade dessa forma - como um padro, um modelo a seguir, pode-se compreender como o relacionamento do feminino com os sapatos cai facilmente na vala do fetichismo. Antes de abordar os fetiches em torno da feminilidade - e dos sapatos, porm, ser importante acatar o conceito de erotismo trazido por Georges Bataille.
Embora o paralelo entre o erotismo e o ps-humano parea uma relao improvvel em primeira instncia, ao embarcar na teoria do erotismo batailliano (da qual emergem acepes to profundas quanto o fascnio pela morte) percebe-se como o erotismo, estando associado ao mago do desejo humano em uma busca incessante pela completude, pode ser relacionado a qualquer questo que envolva as necessidades humanas e suas motivaes.
Em existindo, no ps-humano, uma intensa aspirao por ultrapassar os limites do corpo e alcanar o patamar da perfeio robtica, o homem vai contra o envelhecimento e desafia os apelos da prpria morte, onde acaba resvalando no campo do ertico e suas associaes - como ser melhor explicitado nas discusses a seguir.
Georges Bataille (1987) comea suas consideraes sobre o erotismo explicando como o ertico est ligado ao pavor, sendo a "aprovao da vida at na morte". Para compreender essa afirmao, contudo, antes preciso chegar ao raciocnio que conduz a tal elucidao. Para tanto, Bataille traz a interessante definio de que todos os entes vivos seriam seres descontnuos, uma vez que vivem de forma nica e experimentam de forma individual o seu nascimento e a morte.
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