Livro Querido Diario Otario Pdf

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Nadal Braymiller

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Aug 5, 2024, 8:30:58 AM8/5/24
to gieclerfesre
Esteartigo uma breve tentativa de se pensar algumas das muitas ideias e representaes construdas no passado sobre o universo do livro. A pesquisa que o originou partiu exclusivamente do exame das correspondncias recebidas e acumuladas pelo extinto Centro Cultural Euclides da Cunha, uma agremiao de intelectuais que funcionou de 1948 a 1985 na cidade de Ponta Grossa, no Paran. Em termos estruturais, o estudo aqui conduzido busca comentar inicialmente alguns aspectos pontuais da referida instituio, procurando enfatizar em seguida o enorme entusiasmo que ali gravitava em torno das lides literrias. Para finalizar, so ento examinados os traos maiores do inusitado sistema de representaes em que tal entusiasmo se apoiava, tentando integrar seus elementos num sentido um pouco mais amplo. Em linhas gerais, o objetivo do artigo delinear e compreender algumas das possveis relaes que, na metade do sculo passado, ainda se estabeleceriam entre cultura, livro e intelectualidade.

This article is a brief attempt to think about the many ideas and representations built in the past about the book universe. The research which originated it was exclusively done by examining the mail received and kept by the former Centro Cultural Euclides da Cunha, in Ponta Grossa, Paran, Brazil. In structural terms, this study seeks to comment, initially, some punctual aspects of the referred institution, emphasizing, in sequence, the enormous enthusiasm which gravitated around the literary battle. To conclude, the larger traces of the unusual representation system on which such enthusiasm was based are, then, examined, trying to integrate the elements in a little broader sense. In general terms, the aim of the article is to outline and understand some of the possible relations which, in the middle of the last century, would be still established between culture, books and intelligentsia.


Entusiastas da cultura: O universo do livro e suas representaes nas cartas do Centro Cultural Euclides da Cunha1 1 Este trabalho est vinculado ao Centro de Estudos em Histria da Leitura, do Livro e da Biblioteca (CEHBIB), do Departamento de Histria da Universidade Estadual de Ponta Grossa.


IMestrando em Histria - Programa de Ps-Graduao em Histria - UNESP - Univ. Estadual Paulista, Campus de Assis - Av. Dom Antonio, 2100, CEP: 19806-900, Assis, So Paulo, Brasil. Bolsista do CNPq. Professor Colaborador do Departamento de Histria da UEPG. E-mail: itama...@rocketmail.com


Este texto encerra uma breve tentativa de se pensar algumas das muitas ideias e representaes construdas no passado sobre o universo do livro. Em termos mais precisos, ele procura iniciar uma reflexo mais atenta sobre os pressupostos, implcitos ou no, que na metade do sculo passado ainda pautavam o desempenho e a atuao de muitos grupos de intelectuais no Brasil.


Partindo assim destes apontamentos, o presente artigo buscar delinear e compreender algumas das possveis relaes que ento se estabeleceriam entre cultura, livro e intelectualidade. A formulao destas questes, bem como a maneira encontrada de adentr-las, se deu por meio do exame de um corpus documental particularmente interessante: as correspondncias recebidas pelo extinto Centro Cultural Euclides da Cunha (CCEC), uma agremiao de intelectuais que funcionou de 1948 a 1985 na cidade de Ponta Grossa, no Paran. Essas correspondncias, produzidas e acumuladas pela instituio ao longo do exerccio de suas atividades, foram trabalhadas dentro de um recorte temporal que se iniciou em 1948 e se estendeu at 1959, quando se observa uma drstica diminuio no nmero de cartas recebidas (ver Tabela 01).3 3 Entre 1960 e 1980 h 43 cartas recebidas. Optamos ento por exclu-las da anlise, dada sua rarefao e descontinuidade.


Estruturalmente, os resultados desta pesquisa so aqui apresentados em quatro itens, que procuram respectivamente: a) levantar algumas informaes gerais sobre o CCEC; b) enfatizar o entusiasmo singular que ali gravitava em torno das lides literrias; c) investigar mais detidamente o conjunto das representaes em que tal entusiasmo se apoiava; d) tentar compreender e apontar possveis relaes que estes elementos mantinham entre si, dentro de um quadro mais amplo.


Antes de seguir em frente, porm, gostaramos de incluir mais duas palavras de justificativa, que serviro tanto para o nosso intento no presente artigo, quanto para reafirmar a legitimidade da pesquisa sobre o que se convencionou chamar de "universo da palavra impressa" (ROSE, 2003). Devemos nos lembrar, afinal, que no momento vivemos o acesso a todo o patrimnio escrito da humanidade, ainda que de modo virtual, e isso parece finalmente possvel atravs das possibilidades abertas pelas novas tecnologias digitais. Neste caso, uma reflexo sobre o mundo dos livros e dos intelectuais sem dvida bastante oportuna, principalmente se considerarmos o fato de que essa reflexo se assenta no uso de cartas escritas, cujos gestos especficos no constituem mais os nossos. A troca e a circulao de informaes atravs de dispositivos eletrnicos pessoais como microcomputadores e aparelhos de telefone celular, que caracterizam e marcam profundamente nossa sociedade contempornea, constituem uma nova economia e exigem igualmente uma outra gesto da informao. Em longo prazo, as rupturas decorrentes deste mesmo processo podero acarretar srios problemas ao trabalho dos historiadores.


Diante disso, qual seria, afinal, a pequena contribuio desta pesquisa? Em que medida nossa limitada reflexo poderia ajudar na abordagem das questes suscitadas por essas novas tecnologias? Para responder a tais perguntas poderamos fazer nossas as palavras de Roger Chartier (1999, p.10): "Reintroduzindo a variedade e a diferena, l onde surge espontaneamente a iluso do universal, ela nos ajuda a nos desprendermos de nossos limites muito seguros e de nossas evidncias por demais familiares".


O estudo do material acumulado pelo CCEC no constitui um feito indito. H pouco mais de dez anos, a historiadora Carmencita de Holleben Mello Ditzel (1998) procurou elucidar algumas questes referentes criao, ao e significao educacional da instituio junto cidade de Ponta Grossa, e mais recentemente o rico acervo documental4 4 Doada em 1995 ao Departamento de Histria da Universidade Estadual de Ponta Grossa, a documentao do Centro Cultural Euclides da Cunha apresenta um acervo com cerca de 5.000 livros, 345 ttulos de revistas, alm de um grande nmero de cartas enviadas por intelectuais do Brasil e do exterior como Gilberto Freyre, rico Verssimo, Roquete Pinto, Cndido Rondon, Lus da Cmara Cascudo, Roger Bastide, Valfrido Pilotto, Raul Gomes, entre outros. Tambm fazem parte deste acervo alguns recortes de jornais, somados a outros manuscritos, discursos e peridicos literrios como o jornal Tapejara, editado pelo prprio Centro no perodo de 1950-1976 (GOMES; SACCHELLI, 2001, p.109-116). deixado pelo rgo se tornou alvo de um projeto que rene vrios estudantes e pesquisadores.5 5 Trata-se do j mencionado CEHBIB. Alm do presente artigo, algumas recentes investidas do CEHBIB podem ser encontradas em: BARUFI, C. A. Espao feminino e prticas de leituras femininas no Centro Cultural Euclides da Cunha. Monografia (Graduao em Histria) - Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2006; DENIPOTI, C.; GONZATTO, C. Horizontes de expectativas: leitores e continuadores de Euclides da Cunha nas pginas do jornal Tapejara em Ponta Grossa, 1952. In: Revista de Histria Regional, Ponta Grossa, vol. 12, n. 2, p.65-92, Inverno, 2007; PINTO, L. C. O livro como ddiva: as dedicatrias manuscritas dos livros do Centro Cultural Euclides da Cunha de Ponta Grossa - 1950-1960. Monografia (Graduao em Histria) - Universidade Estadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2006.


Segundo Ditzel (2001, p.211-212), as razes do CCEC remontam ao sculo XIX. Mais especificamente, ao processo de "nacionalizao cultural", encetado pelo Romantismo, que ela atribui as condies da sua criao. Sentido com um vigor desigual na literatura, o impacto deste processo no menos pujante no campo da histria: em 21 de outubro de 1838 funda-se, no Rio de Janeiro, o Instituto Historico e Geographico Brasileiro, incumbido a partir de ento de forjar uma histria e um passado para a nao recm-emancipada (SCHWARCZ, 1995, p.101). "Essa tradio originria do sculo XIX permanece na contemporaneidade e chega a cidades afastadas dos grandes centros culturais, como Ponta Grossa. Herdeiro desta tradio surge o CCEC" (DITZEL, 2001, p.212).

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