📖 Austeridade, Humildade e Diligência: Os Três Pilares da Vida Religiosa

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Austeridade, Humildade e Diligência: Os Três Pilares da Vida Religiosa



Podemos nós, como um grupo pequeno, refletir sobre estas coisas e, libertando-nos de todas as superstições inventadas da religião, descobrir o que é uma vida religiosa e, desse modo, preparar o terreno para o florescimento da bondade? Sem a mente religiosa, a bondade não pode existir. Para compreender a natureza da religião, requerem-se três fatores: austeridade, humildade e diligência.



Austeridade não significa reduzir toda a vida a cinzas mediante a disciplina severa, a repressão de todos os instintos, de todos os desejos e até da beleza. A expressão externa disso no mundo asiático é a túnica açafrão e a tanga. No mundo ocidental, é fazer votos de celibato, tornar-se monge e submeter-se a uma obediência total. A simplicidade da vida costumava expressar-se em vestimentas exteriores e em uma restrita, estreita existência celular; mas no interno, a chama do desejo com seus conflitos seguia ardendo firmemente. Essa chama devia extinguir-se mediante a estrita adesão a um conceito, a uma imagem. O livro e a imagem converteram-se nos símbolos de uma vida simples. A austeridade não é a expressão externa de uma conclusão baseada na fé, mas a compreensão da complexidade interna, da confusão e angústia da vida. Esta compreensão, não verbal nem intelectual, exige uma muito cuidadosa e alerta percepção, uma percepção que não é a complexidade do pensamento, mas a claridade — esta claridade origina sua própria austeridade.



A humildade não é o oposto da vaidade, não consiste em inclinar a cabeça em reverência ante alguma autoridade abstrata ou ante o sumo sacerdote. Não é o ato de submissão a um guru ou a uma imagem, que são a mesma coisa. Não é a total negação, um sacrifício de si mesmo a algum ser físico ou imaginário. A humildade não vai unida à arrogância. A humildade carece do sentido interno de posse. A humildade é a essência da inteligência e do amor; não é uma conquista pessoal.



E o outro fator é a diligência: cabe ao pensamento dar-se conta de suas atividades, de seus enganos, de suas ilusões; deve discernir o verdadeiro e o falso — no falso, o verdadeiro se converte em 'o que deveria ser'. Deve dar-se conta das reações ao mundo exterior e das sussurrantes respostas internas. Isto não é um estado de vigilância egocêntrica, mas implica ser sensível a toda relação. Por cima e mais além de tudo isto, estão a inteligência e o amor. Quando há inteligência e amor, todas as outras qualidades vêm atrás. É como abrir a porta à beleza.



Agora volto, como educador e como pai, à minha embaraçosa pergunta. Meus estudantes e meus filhos têm que enfrentar o mundo, que é qualquer coisa menos inteligência e amor. Esta não é uma afirmação cínica, mas é assim, trata-se de algo palpável e evidente. Têm que enfrentar a corrupção, a brutalidade e a insensibilidade mais absoluta. Estão atemorizados. Sendo responsável (estou usando essa palavra com sumo cuidado e com intenção profunda), como hei de ajudá-los para que enfrentem tudo isto? Não formulo a pergunta a ninguém em particular, formulo-a a mim mesmo, para que na própria pergunta possa surgir a claridade. Estou muito perturbado por isto e, certamente, não quero uma resposta consoladora. No ato de perguntar a mim mesmo, revelam-se os começos da sensibilidade e da claridade. Afeta-me muito profundamente o futuro destes filhos e estudantes, e ao ajudá-los a usar as palavras, a inteligência e o amor, estou adquirindo força interna. Ajudar nisto a um rapaz ou a uma moça é suficiente para mim, porque o rio começa nas altas montanhas como um regato muito pequeno, solitário e distante, mas adquire ímpeto até chegar a ser um rio enorme. De modo que é preciso começar com os poucos.

A humildade não é o oposto da vaidade, não consiste em inclinar a cabeça em reverência ante alguma autoridade abstrata. A humildade carece do sentido interno de posse. A humildade é a essência da inteligência e do amor; não é uma conquista pessoal.

— Cartas às Escolas — J. Krishnamurti

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