Por Tiago Soares
Em 1886, o
condado de Santa Clara, nos EUA, enfrentou nos tribunais a Southern Pacific
Railroad, poderosa companhia de estradas de ferro. No veredicto, sem maiores
explicações, o juiz responsável pelo caso declarou, em sua argumentação, que "a
corporação ré é um individuo que goza das premissas da 14ª Emenda da
Constituição dos Estados Unidos, que proíbe ao Estado que este negue, a qualquer
pessoa sob sua jurisdição, igual proteção perante a lei". Isso significa que, a
partir daquele momento, era estabelecida uma jurisprudência através da qual,
perante as leis norte americanas, corporações poderiam considerar-se como
indivíduos.
Apesar do peculiar raciocínio por trás do veredicto do caso
de Santa Clara, corporações, é claro, não podem ser consideradas como "pessoas".
Tecnicamente, elas nada mais são do que um instrumento legal através do qual
determinado negócio é transformado numa estrutura cujo funcionamento transcende
as limitações individuais de seus responsáveis de carne e osso. Por conta disso,
apesar das posições individuais de seus fundadores, e mesmo após a morte destes,
uma corporação segue em sua existência, operando como um "organismo" autônomo em
busca de um objetivo bastante específico - o lucro.
Mesmo assim, ainda
que o bom senso determine uma linha bastante clara entre pessoas reais e
corporações, ambas seguem merecendo, perante a Constituição dos EUA, o mesmo
tipo de tratamento. Mas, e se corporações fossem mesmo indivíduos? Que tipo de
gente seriam? Em busca da resposta para essa questão, o escritor Joel Bakan e os
cineastas Mark Achbar e Jennifer Abbott resolveram adentrar os subterrâneos do
mundo e da cultura corporativa, analisando os motivos e conseqüências das ações
das companhias transnacionais através de um método de estudo que,
distanciando-se da análise sócio-política, aproxima-se da psicanálise. O
trabalho dos três, que resultou no documentário A Corporação (The
Corporation), aponta para uma conclusão perturbadora.
Lucros sem
culpa
O documentário, baseado no livro The corporation - the
pathological pursuit of profit and power*, de Joel Bakan (que também assina
o roteiro do filme), é uma profunda e divertida análise do mundo corporativo. A
partir do estudo de crimes cometidos por transnacionais, e de dezenas de
entrevistas com gente direta ou indiretamente ligada ao mundo corporativo, como
ativistas de esquerda e de direita, acadêmicos, jornalistas, executivos, e
espiões industriais, os autores fazem uma radiografia das corporações como
"seres" autônomos, que funcionam de acordo com um conjunto específico e
determinado de regras e motivações, bastante distintas daquelas partilhadas
entre os homens comuns. Um "comportamento" que, de tão voltado à busca pela
realização pessoal em detrimento de qualquer dano causado a terceiros,
resvalaria, segundo alguns dos entrevistados, na psicopatia.
Montado
sobre uma estrutura ágil, baseada numa esperta colagem de cenas de filmes B,
vídeos institucionais antigos, imagens documentais e entrevistas nas quais,
contra um fundo negro, representantes das mais distintas correntes políticas,
como Noam Chomsky, Milton Friedman, Sir Mark Moody-Stuart (ex-dirigente mundial
da Shell) e Vandana Shiva têm seu discurso contextualizado em relação ao
"comportamento" institucional das grandes corporações, o filme faz uma análise
dos vetores "psicológicos" responsáveis por regular o relacionamento das grandes
companhias com o indivíduo - social, cultural e politicamente.
Criadas
com o objetivo único de tornar mais eficiente o acúmulo do capital, corporações
seguem uma dinâmica própria, que transcende as vontades individuais de seus
acionistas e executivos. Mas, mais do que criar estruturas de produção viciadas,
a lógica do lucro é responsável também pelo modo como é construída a cultura
corporativa e suas noções de responsabilidade social e política. "Pedir a uma
corporação que seja socialmente responsável faz tanto sentido quanto pedir a um
edifício que o seja", dispara, em depoimento, Milton Friedman, economista
vencedor do prêmio Nobel. Ou, como lembrado em outra entrevista, desta vez pelo
historiador Howard Zinn, "corporações sempre foram amigas de políticas
totalitárias".
Isso é refletido também nas relações de trabalho. Seja no
que diz respeito à dissociação entre atos individuais de funcionários e
realizações criminosas cometidos pela companhia, seja na desumanização do
processo de produção, existe, no ideal corporativo, algo próximo da diminuição
do homem à condição de máquina. O esforço humano despe-se de qualquer carga
moral ou ideológica, aproximando-se de um ideal de eficiência análogo à idéia
pré-fordista de automatização. As cenas e depoimentos do filme sobre as rotina
de trabalho nas sweatshop (veja texto) são a demonstração desse
processo.
Por amorais, as grandes transnacionais têm no lucro o único
mediador de suas responsabilidades e ações em relação ao público. A não ser que
interfira de alguma maneira em sua capacidade de acumular capital, corporações
não se sentem responsáveis por danos políticos, sociais, ambientais ou culturais
que possam causar. Uma atitude que, em casos extremos, pode levar grandes
companhias à autodestruição. "Como um mercador que, de tão ganancioso, vende a
corda com a qual ele próprio vai ser enforcado", afirma, no documentário, o
jornalista e documentarista Michael Moore.
Chamando o
blefe
Produto de intensa e ampla pesquisa, A Corporação
procura, mais que trazer o debate sobre poder corporativo à agenda do dia, criar
mobilização. "Nós queremos mostrar às pessoas que elas ainda podem mudar as
coisas", disse, em entrevista à agência de notícias IPS, o roteirista Joel
Bakan. O caráter de guerrilha, que permeia todo o filme, é estendido também à
estratégia de divulgação. Sem grandes investimentos em publicidade, os
realizadores do filme apostam na propaganda boca-a-boca para conquistar
espectadores. No que depender da recepção ao documentário em festivais ao redor
do mundo, a publicidade positiva parece certa. Vencedor do prêmio de melhor
documentário nos festivais de Sundance e Amsterdam, o filme tem tido recepção
calorosa de público e crítica ao redor do mundo. No Brasil, foi exibido no
festival É Tudo Verdade, além de estar programado para o festival de cinema de
Brasília, em junho.
Obra essencial da nova safra de documentários
críticos do modelo de produção desumanizado, como Tiros em Columbine e
Supersize Me (ainda inédito no Brasil), A Corporação pretende, com
seu mergulho nos sombrios e amorais subterrâneos da "psique" corporativa,
lembrar que a sociedade não é impotente ante o monstro que criou. Afinal, como
lembra a ativista Vandana Shiva, "Em todo o período da história...
eventualmente, se você chamar o blefe, as mesas acabam sendo
viradas".