Carta de petroleiro da P-18 a Pedro Bial

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Helena Vetorazo

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Mar 19, 2008, 6:04:07 PM3/19/08
to Wagner Vetorazo, VIVI-HIST, VIVIAN-MAT, THIAGO-MAT, Sueli Conti, SOLANGE-ESP, Rachel, perezsinhorini, MIRIAM-PORT, Marcos Moura, Luise Mattioti, LAERCIO-CIHUM, Juliane Bitencourt Bitencourt de Almeida, Helena Vetorazo, geografiae...@googlegroups.com, EDY-INGLES, Debora Agripino, Claudia Baratella, Claudia Baratella, CIDINHA-FILO, Carla Coordenação, BETH-BIO, ANTONIETA-QUIM, Andrea Silva, Ana Cristina, ALINE-PORT, ALE-PORT, Agatha Tochetti
 
Vale a pena ler..
Precisamos de outros referenciais de heróismo.
 
 

 

 

Carta ao Sr Pedro Bial. ( Acidente na P-18)

 

Prezado Senhor Pedro Bial Digníssimo Jornalista, apresentador da Rede Globo

de Televisão.

 

Confesso Sr.Bial que não sou espectador do programa o qual o senhor

apresenta. Talvez para felicidade da minha cultura e para infelicidade do

índice de audiência, ao qual seu programa está atrelado. Mas, tive durante

um dia desses, num dos raros casos fortuitos que o destino apresenta, a

oportunidade de, por alguns minutos, apreciar o tão falado Big Brother

Brasil, o BBB.

Para minha surpresa, durante uma ou duas vezes o senhor, ao chamar os

participantes para aparecerem no vídeo o fez da seguinte maneira:

- Vamos agora falar com nossos heróis!

De imediato tive uma surpresa que me fez trepidar na cadeira.

Heróis????

O senhor chama aqueles que passam alguns dias aboletados numa confortável

casa, participando de festas, alguns participando até de sessões de sexo

sob os ededrons, falando palavras chulas e no fim podendo ganhar um milhão

de reais, de heróis?

Pois bem Sr. Pedro Bial, eu trabalho numa Plataforma Marítima que se

localiza a aproximadamente 180 km da costa brasileira e contribuimos,

mesmo modestamente, para que o nosso País alcançasse a auto-suficiência em

petróleo e continuamos lutando, todos nós, para superar esse patamar.

Neste último dia 26 de Fevereiro presenciamos um acidente com um dos

helicópteros que faz nosso transporte entre a cidade de Campos e a

Plataforma. As imagens que ficaram em nossa mente Sr. Bial, irão nos marcar

para o resto das nossas vidas. Os seus "heróis" Sr Bial, são meros

coadjuvantes de filmes de segunda categoria comparados com os atos de

heroísmos que presenciamos naquele momento.

Certamente o Senhor como Jornalista que é, deve estar a par de todo o

acontecido. Mas sei que os detalhes o Sr. desconhece.

Pois bem, perdemos alguns colegas. Colegas esses, Sr Bial, que estavam indo

para casa após haver trabalhado 15 dias em regime de confinamento.

Não o confinamento a que estão sujeitos os seus "heróis", pois eles têm

toda uma parafernália de conforto, segurança e bem estar, que difere um

pouco da nossa realidade. Durante esse período de quinze dias esses colegas

falaram com a família apenas por telefone. Não tiveram oportunidade de

abraçar seus filhos, de beijar suas esposas, de rever seus amigos e

parentes... Logo após decolar desta Plataforma com destino a suas casas o

helicóptero caiu no mar ceifando suas vidas de modo trágico e desesperador.

E seus "heróis" Sr Bial, a que tipo de risco eles estão expostos? Talvez

aos paredões das terças-feiras, a rejeição do público, a não ganhar o

premio milionário ou a não virar a celebridade da próxima novela das oito.

Os heróis daqui Sr Bial foram aqueles que desceram num bote de resgate,

mesmo com o mar apresentando um suel desafiador. Nossos heróis Sr. Bial

desceram numa baleeira, nossos heróis foram os mergulhadores, que de pronto

se colocaram à disposição para ajudar, mesmo que isso colocasse

suas vidas em risco. Nossos heróis Sr. Bial, não concorrem ao Premio de um

milhão de reais, não aparecem na mídia, nem mesmo os nomes deles são

divulgados. Mas são heróis na verdadeira acepção da palavra. São de carne e

osso e não meros personagens manipulados pelos índices de audiência.

Nossos heróis convivem aqui no dia-a-dia, sem câmeras, sem aparecerem no

Faustão ou no Jô Soares. Heróis, Sr Bial são todos aqueles que diariamente,

saem das suas casas, nas diversas cidades brasileiras, chegam à Macaé ou

Campos e embarcam com destino as plataformas marítimas, sem saber se

regressarão as suas casas, se ainda verão seus familiares, ou voltarão

ilesos, pois tudo pode acontecer: numa curva da estrada, num acidente de

helicóptero, no vôo comercial de regresso a sua cidade de origem....

Não tenho autoridade suficiente para convidá-lo a conhecer nosso local de

trabalho e conseqüentemente esses nossos heróis, mas posso lhe garantir

Senhor Bial, que caso o Sr estivesse presente nesta plataforma durante

aquele fatídico acidente seu conceito de herói certamente seria outro.

Carlos Augusto Lordelo Almeida.

Técnico de Segurança

Plataforma P-XVIII

Em memória dos colegas:

Durval Barros

Adinoelson Gomes

 

 

 


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