Carol (à esq., quando criança) queria identificar raízes ruivas de sua irmã (dir.)
Outros dos meus ancestrais vêm de lugares igualmente remotos em países
que não existem mais, como "Áustria-Hungria". Isso dificultou a identificação
das minhas raízes.
Trinta e quatro anos depois da entrevista com minha
avó, descobri que existem novos e reveladores modos de montar uma árvore
genealógica. Avanços no campo genético permitem usar o DNA de alguém para
descobrir a origem dos seus antepassados. Diversas empresas já oferecem esses
exames, e algumas estimativas ajudam a diferenciar a ciência da fraude.
A
questão era: será que isso vai funcionar para mim?
Por cerca de US$ 200
dólares (R$ 370), contratei a empresa chamada 23andMe (o nome deriva do fato de
termos 23 pares de cromossomos).
Em pouco tempo eu estava cuspindo em um
tubo plástico e mandando minha saliva para a companhia.
"A primeira coisa
que fazemos é extrair o DNA da saliva", conta Joanna Mountain, diretora-sênior
de pesquisa da 23andMe. "O DNA é cortado em pequenos pedaços e colocado no que
chamamos de chip."
Código
O DNA humano é como um
código feito de três bilhões de letras.
Empresas como a 23andMe não leem
todas essas letras (ou posições, como as chamam). Olham apenas uma porcentagem
delas - cerca de 1 milhão, em um processo chamado de "genotyping" (ou
genotipificação). As posições são então estudadas para a descoberta de todos os
tipos de informação, de doenças que corremos o risco de desenvolver no futuro a
detalhes sobre o nosso passado.
Sempre soube que minha família era judia.
Toda a minha árvore genealógica, até onde sei, consiste de judeus europeus
conhecidos como Ashkenazi. Sempre imaginei meus ancestrais como pessoas que
falassem iídishe, vivessem no Leste Europeu e ouvissem músicas tradicionais
("klezmer").
No entanto, como os Ashkenazis passaram séculos vagando pela
Europa, vivendo em meio a diferentes populações, me perguntava se eles não
teriam se casado e tido filhos com pessoas de outras etnias.
Afinal, a
mãe da minha mãe e todos os seus irmãos tinham cabelos ruivos e olhos azuis. E
em geral as pessoas acham que a minha irmã - ruiva de sardas - é de origem
irlandesa.
Resultados
Algumas semanas depois do
exame, chegaram os resultados.
"Parece que dois terços (do seu DNA) podem
ser rastreados a ancestrais judeus Ashkenazi na Rússia, na Polônia, em Belarus e
outros países vizinhos", conta Joanna Mountain.
"É aqui que a sua
ancestralidade judia realmente se sobressai", continua Mountain, enquanto me
mostra meus cromossomos, divididos em segmentos que eu compartilho com outras
pessoas do banco de dados da 23andMe que também têm origem Ashkenazi.
É
assim que as empresas de teste determinam ancestralidade - comparando seus genes
a populações conhecidas que servem de referência, para ver com quais você mais
se parece.
Nenhuma surpresa nos meus resultados, e nenhuma pista sobre a
origem ruiva da família.
Mas isso não significa que eu não tivesse nada
em comum com outros grupos. Meu DNA tinha alguma semelhança, por exemplo, com
genes de judeus marroquinos. Só que isso é pouco comparado com o número de
segmentos genéticos idênticos que eu compartilho com os
Ashkenazi.
"Sempre há ao menos algum grau de interação entre populações
Ashkenazi e todos aqueles que viveram ao seu redor", explica David Goldstein,
diretor do Centro de Vriação do Genoma Humano da Universidade Duke (EUA). "Então
(eles têm) uma história incrivelmente complicada de inserções (genéticas) de
diversas populações."
15 mil anos atrás
Não pude
evitar: fiquei um pouco decepcionada.
Duzentos dólares e alguns cuspes
para identificar algo que eu já sabia, com a adição de alguns detalhes
curiosos.
Meu "DNA mitocondrial" (o pedaço especial de DNA que passa de
mãe para filho) pode ser rastreado a um ancestral feminino comum na Península
Ibérica - atual Espanha e Portugal -, cerca de 15 mil anos atrás.
Outra
coisa interessante que aprendi remete à Idade da Pedra. O teste que eu usei
permite ver qual porcentagem de seu DNA vem dos neandertais. E 2,7% do meu é
neandertal.
Isso não é algo inesperado. Quase todos os que não descendem
de africanos tem um pouco de DNA neandertal. Acho fascinante pensar que, em
algum momento da história, eu fui um cintilho nos olhos de um
neandertal.
À medida que as pesquisas genéticas avançam a um ritmo
inédito, na próxima década, o custo de ter seu genoma inteiro sequenciado -
todas as 3 bilhões de letras do código - se tornará viável. Isso mudará a
genealogia genética completamente, dizem os especialistas com quem
conversei.
"Você poderá olhar o genoma de um indivíduo e dizer, 'eles têm
esta mutação, que surgiu nesta aldeia específica no sul da França', por
exemplo", diz o geneticista da Universidade de Harvard Joe
Pickrell.
Agora, estou esperando pelo dia em que poderei ver a sequência
completa do meu DNA e finalmente descobrir por onde minha família passou - antes
de Kashuki
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