Interessante matéria que relaciona a geometria sagrada e
a maçonaria operativa somada o história da construção
gótica de Milão.
O caso da construção da Catedral de Milão – IL Duomo – é de extrema importância no estudo da geometria sagrada. Ele interessa em dois sentidos, o documental e o simbólico. A Catedral de Milão foi fundada em 1386 e, por essa razão, estava no centro de um encarniçada controvérsia relativa a que forma de geometria sagrada deveria ser utilizada: ad quadratum ou ad triangulum.
http://www.youtube.com/watch?v=g70IlbxTrhg&feature=player_embedded
___________________________________________________________
- Milão secreto e sagrado -
Por Vitor Manuel Adrião
18/05/2011
Biscione: o brasão esotérico de
Milão
A
cidade de Milão tem por Armas um brasão carregado de simbologia
esotérica, cuja peça heráldica apresenta em fundo prateado uma serpente
azul coroada de ouro vomitando um jovem cor de carne descrito como mouro.
Trata-se da vipera (“víbora) ou bissa, mais conhecida entre os milaneses como
biscione (“cobra grande”).
A História afirma que este brasão foi
criado por Ottone Visconti, dito Ottorino (1207 – 8.8.1295), que nasceu em Milão
e foi arcebispo desta cidade. Era filho do poderoso feudatário Ubaldo Visconti,
família que dominava a Lombardia, e com o senhorio de Ottorino a capital ficou
sob o poder dos Visconti, que durou até 1447. A eleição arcebispal de Ottone
Visconti, depois de severas controvérsias e lutas com um outro candidato a esse
cargo, Martino della Torre, acabou reconhecida pelo Papa Gregório IX, cujo nome
era Tedaldo Visconti (1210-1276). Como agradecimento, Ottone Visconti perpetuou
no seu brasão “o mouro vomitado pela serpente” referindo-se ao
envolvimento de Gregório IX, antes de ser eleito Papa (1271-1276), na Nona
Cruzada (1271-1272) a São João de Acre, na Terra Santa, com o príncipe futuro
rei Eduardo I de Inglaterra.
De fato, o biscione é historicamente o brasão de armas
da Casa dos Visconti, instalada no Palácio dos Arcebispos na Piazza del Duomo da
cidade milanesa. Por vezes, no brasão aparecem as iniciais IO (HANNES),
indicando o nome do arcebispo Giovanni Visconti (1290-1354), amigo e protector
do grande poeta e humanista Francesco Petrarca (1304-1374), frequentemente
chamado de “Pai do Humanismo”.

Além de se referir no plano imediato ao exclusivo
senhorio dos Visconti, o biscione coroado é sobretudo emblema hermético
ou esotérico de origem muitíssimo anterior a Ottone Visconti, que o
terá adoptado para brasão familiar. O primeiro indício está na própria
vipera que afinal é um basilisco, o animal mitológico que Plínio o Velho
descreve como uma serpente verde com uma coroa dourada. Na Alquimia, o
basilisco é chamado a “Criança dos Filósofos” e expressa a natureza inferior do
homem transmutada e redimida pela sua natureza superior, que assim o “vomita”
como Espírito Vivente ou Ego Integrado na Natureza Divina do Universo.
Representa o verdadeiro Alquimista, o Filósofo do Fogo Sagrado, o Delfim
Iluminado ou Adepto Perfeito, tanto valendo por Ser Eucarístico ou “Pedra
Filosofal” Viva. Ora é isto mesmo que está retratado no brasão do biscione. E o
IO de Iohannes (Giovanni) pode muito bem reforçar o sentido oculto do brasão se
for transposto para essa outra IO de que fala Apuleio no seu Asno de Ouro, ou
seja, a Mónada imperecível integrada no Todo Divino e iluminando o Tudo
Humano.
Os
tratados orientais de Tantra-Yoga do Hinduísmo primitivo, referem a Força
Electromagnética que jaze no interior do Homem e da Natureza a que chamam
Kundalini e retratam esta como uma serpente coroada que se eleva iluminando
espiritualmente o homem. Decerto por esta razão
os antigos egípcios, cuja cultura e religião os greco-romanos posteriormente
adotaram e adaptaram à sua mentalidade, retrataram o seu deus Serapis com corpo
de serpente e cabeça humana, algo semelhante ao que aqui se apresenta. Serapis
foi assim representado por ser o deus dos Mistérios Subterrâneos, celebrados em
criptas e grutas sagradas, e também por representar a Força Vital da Terra, o
seu telurismo, circulando no seu interior como uma serpente, ou seja,
serpenteando pelos veios ou linhas telúricas que animam o
Globo.
Por essa
razão de geradora e mantenedora da Vida, a “serpentária” Kundalini veio a ser
associada ao Fogo do Espírito Santo e à própria Mãe Divina. Ora os Ínsubres celtas que por volta do ano 600 a. C. fundaram
Mediolanum, Mediolano ou Milão, dedicavam profunda adoração à serpente por verem
nela a representante zoomórfica da Deusa-Mãe, pois acreditavam ter sido a
serpente marinha que ao sair das Águas Originais da Criação havia povoado a
Terra. As crenças primitivas consideravam a serpente como a serva do Altíssimo,
sendo muitas vezes figurada com a cabeça coroada.
As ondas do mar
– a matéria por excelência – foram representadas nos hieróglifos egípcios por
uma linha sinuosa. Naturalemente que o animal mais conforme a esta linha é a
serpente, pelo que os ofídios foram escolhidos como totem da Acqua Mater, a
matéria fecudante da Natureza. Esta está assinalada no nome do Orago da
catedral milanesa: Santa Maria Nascente.
Este simbolismo
aquático ou genesíaco da serpente está implícito no nome que certos povos lhe
deram. Assim, dos temas semita asiáticos Na, “água”, e Aha, “santa”,
engendraram-se os nomes Nahas (hebraico) e Nagas (hindustânico), ambos
significativos de “serpente”, sobretudo com o sentido de Serpente de
Sabedoria ou Ser-Apis, ou seja, Ser Divino que é todo o Iluminado
Perfeito.
Nesse sentido vai também a
iconografia paleocristã para a história bíblica de Jonas e a baleia Leviatã, no
ato de engoli-lo e regurgitá-lo, que é um motivo comum representativo da morte
profana e da ressurreição iniciática. Esse
episódio bíblico reaparece na lenda de Teodórico, o Grande, rei da Itália
Ostrogoda (493-526 d. C.), que diz ter sido engolido e vomitado por uma serpente
monstruosa na cidade de Arona, a qual significativamente era propriedade da
família Visconti.
Como esta figura do biscione amplamente
conhecida das tradições e tratados herméticos milenares pode ser rastreada até à
Casa de Visconti, com inteira comprovação, permanece desconhecida a maneira como
chegou aí, todavia ficando a suspeita que Ottone Visconti talvez não fosse
inteiramente alheio à antiga Sabedoria
Tradicional.
Panetone: de iguaria ritual a doce
regional
O panetone é a iguaria tradicional do
Natal na Lombardia, sendo um pão doce recheado de frutas secas (passas de uvas e
frutas cristalizadas tais como damasco, laranja, limão, figo e maçã) e com
fragrância de baunilha, tendo uma consistência macia resultado do processo de
fermentação natural. A sua origem permanece um mistério, que várias lendas
tentam explicar sem explicar coisa alguma excepto o seguinte: o panetone tem
origem em Milão.
Sabe-se que o panetone também existe
noutras partes de Itália e até de França, mas invariavelmente afirma-se que a
sua origem é Milão. Esta palavra panetone deriva daquela outra italiana panetto,
indicando um pão de forma pequena. O sufixo italiano um que se pronuncia one,
mudou o sentido para “pão grande”.
Quando Milão se
chamava Mediolano e fora fundada pelos ínsubres celtas por volta do ano 600 a.
C., estes por altura do Solstício de Inverno nas proximidades do que viria a ser
o Natal dos cristãos, celebravam o renascimento do Sol então recolhido sob o
manto invernoso da Natureza, evocando o seu reaparecimento para que propiciasse
boas sementeiras, por norma começando em Janeiro e inícios de Fevereiro.
Esta celebração celta chamava-se Midwinter ou Yule e foi a primeira
festa sazonal comemorada pelas tribos neolíticas do Norte da Europa.
Durante esse festejo os druidas, que eram os sacerdotes da religião celta,
ofereciam entre si e depois ao povo um pão doce feito de cevada recheado de
maçãs e uvas, que era o principal alimento sagrado do Yule. Acompanhavam-no com
uma bebida de fermento de cevada (que veio a dar na actual cerveja, cuja base de
fabricação é a cevada) adocicada com mel de abelhas que, há falta de designação
apropriada, actualmente alguns folcloristas dum pretenso e ingénuo
“neopaganismo” urbano chamam inapropriadamente “hidromel”, mas nada tem a ver
com este que, dentre outros elementos, comporta mel e cidra.
Quando Milão foi
ocupada pelos romanos em 222 a. C. e passou a pertencer ao Império sob o nome
Mediolanum, os usos e costumes celtas foram incorporados aos latinos,
razão de na mesma época do Solstício de Inverno celebrar-se o Nascimento
de Mitra que viria a corresponder ao nascimento de Cristo como Sol Invictus,
como também se designava o deus solar Mitra. Simultaneamente, eram
celebradas as Saturnais romanas, festejando-se o triunfo de Saturno (Sol
Subterrâneo, Inverno) sobre Júpiter (Sol Celeste, Verão), isto porque Saturno
representava a Idade de Ouro de Roma e era o próprio Sol original de quem
Júpiter descendia. Nesta época ninguém trabalhava, acendiam-se velas e grandes
fogueiras para iluminar a noite e havia muita comida. Nas Saturnais, os
celebrantes deram origem ao costume agradável de um doce ritual que era servido
na altura após as celebrações, constando de um fermento de trigo ou cevada
adocicado com mel e recheado com frutas da época. Desse fermento de trigo
originou-se a hóstia das celebrações cristãs, e foi assim que os historiadores
romanos do século II-III d. C. descreveram a origem milanesa do panetone como um
“pão doce grande”, confeccionado com uma massa conservada pronta, modelada e
depois posta a assar.
O panetone, por
sua fama e singularidade, seria definitivamente identificado ao Natal cristão no
século XVIII, por via dos escritos do filósofo e historiador Pietro Verri
(1728-1797), onde ele refere o panetone como pane di tono, ou seja, “pão
de luxo”, só para ser consumido em ocasiões especiais. Já antes, no
século XVI, o pintor flamengo Pieter Bruegel, o Velho (1525-1569), pintara o
panetone num quadro como “bolo de frutas da época”, possivelmente inspirado na
menção a ele que terá encontrado num livro de receitas escrito pelo lombardo
Bartolomeo Scappi (1500-1577), mestre de culinária dos Papas Pio IV e Pio V.
Também o pintor holandês Jan Albert Rootins (1615-1674) representou no centro do
seu quadro “Natureza morta com frutas”, um magnífico
panetone.
O pane di
tono, por já se ter perdido o seu sentido
original e o povo gostar de simplificar e dar lógica imediata , deu origem à
lenda do pane di Toni: o panetone foi criado por um padeiro chamado Toni, que
trabalhava na padaria Della Grazia, em Milão, na época de Ludovico, o Mouro
(1452-1508). O jovem padeiro, apaixonado pela filha do patrão, teria inventado o
pão doce para impressionar o pai da sua amada. Os fregueses passaram a pedir o
pane di Toni, designativo que evolui para o panatón (vocábulo milanês) e depois
para o panetone (italiano).
Segundo outra lenda, o panetone foi
inventado na corte de Ludovico, o Mouro, na véspera do Natal, entre os anos
1494-1500. Conta a lenda que o Natal era uma grande festa celebrada com grandes
banquetes. Em um dos Natais, a sobremesa que havia sido preparada queimou ao ser
assada. Um dos empregados da cozinha, chamado Toni, havia preparado uma massa
com sobras de ingredientes, que pretendia levar para sua casa. Sem outra opção,
ofereceu a sua massa para servir como sobremesa para a corte. Diz a lenda que a
sobremesa foi tão apreciada que Ludovico perguntou qual era o nome da iguaria. O
jovem Toni, chamado para responder à pergunta do monarca, disse que a sobremesa
não tinha nome. Ludovico resolveu chamá-la de pane di Toni, dando origem ao nome
panetone.
O formato típico
do panetone deu-lhe o apelido de doce do duomo de Milão, para vincar bem o lugar
de origem da sua confecção. Com o passar do tempo, na Itália, passaram a surgir
novos tipos de panetones baseados em duas escolas: a primeira, descrevendo-o
como um panetone redondo, com base larga, bastante baixo e achatado, comum
durante a Páscoa; a segunda, preferida pela indústria de doces, descrevendo-o
como um panetone alto, com base estreita e uma cúpula bastante acentuada, comum
durante o Natal.
Depois, conforme o panetone foi cada vez
mais consumido em outros países, novos tipos foram surgindo, novos ingredientes
foram acrescentados para satisfazer o paladar e os gostos. Assim, esta singular
iguaria ritual se transformou num doce regional, nascido nos templos e crescido
nos gostos dos milaneses.
A Ordem dos
Templários em Milão
A Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e
do Templo de Salomão, vulgo Ordem dos Templários (1118-1312), teve uma presença
marcante em Milão e, contudo, hoje não restam vestígios dela, a ponto de
duvidar-se de ter estado realmente nesta cidade.
Mas esteve.
Segundo diversos autores, os Templários chegaram a Milão entre 1132 e 1135 e
deixaram traços da sua passagem desde a basílica de Sant´Ambrogio, na qual o seu
antigo Crucifixo diz-se que foram eles quem trouxeram-no de Jerusalém, até à
abadia cisterciense de Chiaravalle (Claraval), fundada em 22 de Janeiro de 1135
sob a evocação Sanctae Mariae Claraevallis Mediolanensis, mais conhecida como
Santa Maria de Roveniano. Este edifício religioso ainda conserva os traços e a
planta originais dessa época em que a arquitectura sagrada era exercida por
monges-construtores protegidos do Templo. Esta proteção temporal e espiritual
está representada no claustro da abadia, num aro de corrente prendendo quatro
colunelos que têm por cima, dirigidas aos quatro pontos cardeais, águias de asas
abertas, representando a espiritualidade maior de São João Evangelista, cujo
símbolo iconográfico é essa ave.
O primeiro
documento milanês atribuído à Milícia do Templo porta a data de 29 de Abril de
1142, e descreve a doação de Ugo e Guglielmo Girindelli, cidadãos milaneses, de
um campo nas proximidades de Chiaravalle a Bacone, um cisterciense do mosteiro,
para que o mesmo fosse ampliado. O pergaminho dá como data dessa doação Outubro
de 1135. O documento porta a cruz a cruz templária e é autenticado pelo juiz e
notário Martino, templário, além das assinaturas de várias testemunhas e dos
doadores.
Uma outra carta de 25 de Maio de 1149,
escrita pelo mestre templário Bonifácio, descreve que “a igreja e casa do Templo
está edificada fora da muralha da cidade de Milão”. A comenda templária estaria
fora da antiga Porta Romana, nas proximidades da desaparecida igreja, com
convento anexo, consagrada a Santa Maria Latina, e do hospital dedicado a São
João Baptista, que pertença da Ordem dos Hospitalários que também aí tinham a
sua comenda. Segundo o mesmo documento, os templários estariam domiciliados no
“pomar de Santo Ambrósio” que é chamado de brolium (brolio), podendo-se traduzir
como um espaço cingido a bosque algo parecido a um parque ou jardim moderno.
Sobre esse brolio ou brolo, “espaço grande”, está hoje a Piazza Mercato di Porta
Ticinese. Dentro da cidade, os templários também foram donatários de pequenos
espaços chamados broletum ou broletos, como o Broletto Vecchio (Palácio Real), o
Broletto Nuovo (Praça do Mercado) e o Broletto Nuovissimo (Via Rovello, S.
Tommaso, Broletto). Ainda hoje existe a Via Brolo e a Piazzetta di San Nazaro in
Brolo, com igreja próxima.
Segundo o Liber notitiae Sanctorum
Mediolani. Manoscritto della Biblioteca capitolare di Milano, de Goffredo da
Bussero, possivelmente sacerdote templário que o terá publicado por volta de
1289, e que em 1917 voltou a ser dado à estampa nesta cidade por Marco
Magistretti e Ugo Monneret de Villard referindo-o como integrante o espólio da
Biblioteca Ambrosiana, a primeira construção templária milanesa iniciou-se por
uma casa modesta, mas foi aumentada e enriquecida sucessivamente até se
transformar num palácio, na verdadeira e própria comendadoria militar,
compreendendo a capela chamada Santa Maria do Templo instalada entre as actuais
Vias Santa Barnada e Commenda. A construção da comendadoria fora da muralha,
entre a Porta Romana e a Porta Tosa, teve como motivo principal a posição
estratégica: por estar junto à via principal de acesso à cidade e por a
cavalaria puder agir com rapidez num vasto raio de
acção.
Ainda segundo Goffredo da Bussero, a
comenda templária milanesa tinha como distintivo inicial a “dupla cruz
patriarcal”, ou seja, a possuída de dois travessões horizontais que é atribuída
ao Patriarcado de Jerusalém, mas que na segunda metade do século XII
transformou-se em “cruz patente”, com braços triangulares distendendo-se do
centro para o exterior. Isto é comfirmado pela descoberta recente, na igreja de
São João Baptista em Cesano, ao oeste de Milão, de um túmulo do século XII
precisamente com a “cruz patente” vermelha dos templários, o que constitui uma prova irrefutável da presença
Templária aqui.
Em torno da cidade a Ordem do Templo trazia arrendadas
terras de cultivo, e tinha mercado ou feira em dia de festividade fixa. Segundo
alguns, essa feira ficaria na actual Via Larga que então se chamava Contrada del
Brolio, não devendo descurar-se o facto de acaso o Brolo chamar-se “de
Sant´Ambrogio”, porque nesse período os bens móveis e imóveis de Sant´Ambrogio
pertenciam ao património do patrono da Igreja milanesa, na pessoa do Arcebispado
de Milão.
A comenda
milanesa da Milícia Templária é descrita como composta por um mestre e vários
irmãos, todos de linhagem nobre. A esta comenda pertencia Dalmazio de Verzario
que doou os seus bens ao diácono Adelardo Comino, e cuja família poderosíssima
deu o nome à zona do Verziere. Além do mestre e do sacerdote, que aquele
reconhecia neste ser espiritualmente maior do que ele, havia ainda a hierarquia
dos cavaleiros, escudeiros e irmãos laicos ou
serventes.
Frederico Barbarossa, educado em sua
juventude pela Ordem do Templo, quando invadiu Milão a primeira vez em 1154,
poupou a cidade, por certo a pedido dos templários, e da segunda vez, em que foi
mais austero, em 6 de Agosto de 1158, ainda assim, segundo as crónicas, instalou
o seu quartel-general “no Solar Templário de Brolo”, o que
comprova estar inteiramente ativa a comenda templária nessa
data.
Com o aproximar do século XIV e as
perseguições aos bens materiais e espirituais dos templários pela coroa e o
clero, ou seja, o rei de França Filipe IV e o papa de Roma, Clemente V, a Ordem
do Templo foi decrescendo a sua actividade e desaparecendo aos poucos até só
restar a vaga memória dela em Milão, por os seus vestígios também terem sido
apagados para rapidamente o esquecimento geral, mas cuja lembrança e presença
incontornáveis na História de Milão foram aqui
evocadas.
O Duomo de Milão e os desentendimentos
maçônicos
O Duomo ou Catedral de Milão, capital da
Lombardia, é dedicado a Santa Maria Nascente e situa-se na praça homônima no
centro da cidade. Por superfície, é a quarta igreja da Europa, depois de São
Pedro no Vaticano, São Paulo em Londres e a Catedral de Sevilha. É a sede da
Arquidiocese de Milão e da paróquia de Santa Tecla no Duomo de
Milão.
A catedral é imensa, com 157 metros de
comprimento e 109 metros de largura. O interior tem cinco naves com uma altura
que chega aos 45 metros, divididas por 40 pilares. Possui um transepto com três
naves. A sua construção começou em 1386 sob iniciativa do arcebispo Antonio da
Saluzzo, num estilo gótico de influência francesa e centro-europeia distinto do
estilo corrente na Itália de então, ao qual se chamou “arte lombarda”. Os
trabalhos foram apoiados pelo senhor da cidade, o duque Gian Galeazzo, que
impulsionou a obra através de facilidades fiscais e promoveu o uso do mármore de
Candoglia como material de construção. As obras sofreram várias interrupções que
as arrastaram até aos inícios do século XIX, da última vez recomeçadas em 1805
por iniciativa de Napoleão Bonaparte, que entretanto havia invadido a Itália.
Nessa época, a fachada principal e grande parte dos detalhes exteriores, tais
como os pináculos, foram completadas num mistura de estilos, entre o neogótico e
o barroco. Apenas em 1813 a catedral foi dada por finalizada, mais de 400 anos
após o início das obras. Porém, no século XX foi julgado necessário mudar as
cinco portas da fachada, o que só foi acabado em
1965.
O motivo do Duomo de Milão ter levado
tanto tempo para ser construído deve-se ao fato de ter sido pomo de
controvérsias e discussões infindáveis entre os mestres arquitetos das
corporações de muratori ou pedreiros que intervieram na sua edificação. Logo ao
início estalou uma encarniçada controvérsia relativa a que forma de
geometria sagrada deveria ser utilizada na base ou chão da sua planta: o ad
quadratum (ao quadrado) ou o ad triangulum (ao triângulo). Reuniu-se um
grande número de peritos e a discussão arrastou-se sem fim à vista, uns querendo
um sistema e outros o outro. Ainda assim e inicialmente a planta baixa da
catedral foi desenhada de acordo com o ad quadratum,
baseado no quadrado e no quadrado duplo, com uma nave central
pronunciada e naves laterais de altural igual. Mas essa planta foi logo
abandonada e substituída pelo ad triangulum, para a elevação do
edifício. Foi quando a discussão se intensificou por aparecerem
problemas aparentemente insolúveis: a altura de um triângulo equilátero, a base
do ad triangulum, era incomensurável com o lado do mesmo triângulo. Colocá-lo
sobre uma planta baixa baseada no ad quadratum resultaria alterar todos os
princípios da geometria sagrada e todas as proporções estariam completamente
erradas.
A fim de retornar à lógica da
geometria sagrada, foi chamado um matemático de Piacenza, Gabriele Stornaloco,
que recomendou um arredondamento da altura das naves de 83,138 braccia (braças)
para 84 braças, que poderia ser facilmente dividida em seuis unidades de 14
braças. Embora fosse aceitável em princípio, o
esquema de Stornaloco foi posteriormente modificado, produzindo-se uma dedução
na altura e trazendo a catedral para mais perto dos princípios clássicos. O
mestre muratori alemão, Heinrich Parler, enfureceu-se com esse compromisso da
medida verdadeira, e os seus protestos levaram-no a demitir-se do posto de
consultor, em 1392. Em 1394, Ulrich von Ensigen veio da cidade de Ulm como
consultor, mas ficou apenas seis meses em Milão. Os muratori da Lombardia não se
entendiam e lutaram entre si até 1399, cada qual defendendo a sua tese, quando o
mestre arquitecto francês, Jean Mignot, foi chamada de França para supervisionar
as obras.
Mignot também não ficaria no cargo muito
tempo. As suas críticas aos princípios muratori locais foram tão severas que se
formou um comité para discutir as questões que ele levantou. Pretendendo a
inculcação dum estilo próprio no esquisso da catedral, indo mesmo contra os
princípios geométricos e mecânicos góticos, os muratori lombardos argumentaram
que os arcos pontiagudos não poderiam justificar a geometria aberrante
pretendida para o edifício, o que levou Mignot a dizer exesperado: “Ars sine
scientia nihil est” (a arte não é nada sem a ciência), recebendo a réplica
imediata dos mestres milaneses: “Scientia sine arte nihil est” (a ciência não é
nada sem a arte). Mignot regressou a Paris em 1401, sem ter feito progresso
algum com os intransigentes muratori de Milão. Por métodos pragmáticos, eles
improvisaram e terminaram o coro e os transeptos da catedral por volta de
1450.
A geometria do Duomo foi
preservada numa edição de Vitrúvio, publicada em 1521. Ela mostra o plano e a
elevação da catedral como uma ilustração dos princípios
vitruvianos. Só essa ilustração é uma prova dos
sistemas clássicos e muratori da geometria sagrada. O esquema apresentado
baseia-se no rombus ou vesica: a elevação triangular do corte transversal da
catedral é mostrada em sobreposição a círculos concêntricos em que o quadrado e
o hexágono são desenhados, mostrando a relação da elevação com o ad quadratum do
plano básico.

Essa
exposição da geometria sagrada muratori de uma catedral é indicativa da atitude
modificada diante dos mistérios antigos da Maçonaria Operativa exibidos por
vários escritores da Renascença. Ela encaixa-se
perfeitamente na tradição de Matthäus Röriczer, falecido em 1492 e que pertencia
à terceira geração de uma família que servia de mestres construtores na catedral
de Regensburg. Embora estivesse preso ao juramento de silêncio em não
revelar os segredos de Arte Operativa aos não-iniciados, Röriczer quebrou o
mesmo publicando muitos detalhes que até então permaneciam escondidos nos livros
de anotações reservados dos mestres
construtores.
Embora a única obra publicada por
Matthäus Röriczer fosse um pequeno panfleto, ela tem importância fundamental por
ser a única sobrevivente da geometria sagrada maçônica
medieval. Essa obra, intitulada On the
Ordination of Pinacles, forneceu a solução de como erigir um pináculo
de proporções corretas a partir de uma dada planta baixa. O liberi muratori,
equipado com esse esquema e utilizando-se da régua e compasso,
podia tomar uma dimensão como ponto de partida e fazer a sua geometria chegar ao
plano do tamanho natural, desenhado sobre um “piso de decalque” de gesso,
fazendo-se em seguida os gabaritos ou moldes de madeira, segundo os quia as
pedras finais eram cortadas e talhadas. A exposição do sistema por Röriczer
demonstra a simplicidade desse método canônico, pois invés da referência
constante a medidas num plano, como se faz na prática mederna e profana da
arquitectura, o pináculo (ou pinásio, a ombreira da porta, o componente da
abóbada, etc.) era “desenvolvido” a partir de um quadrado. A geometria,
diferentemente da medida, é auto-reguladora e quaisquer erros podem ser
identificados de imediato. Seja qual for o tamanho do quadrado inicial,
todas as partes do pináculo estão relacionadas a ele, em proporção natural. Como
as medidas do quadrado original podem ter sido derivadas como uma função da
geometria global da catedral, o tamanho do pináculo ficou relacionado
harmoniosamente com o todo.
O livreto de
Matthäus Röriczer foi dedicado ao príncipe Wilhelm, bispo de Eichtadt, descrito
na dedicatória como “um cultor e um patrono da arte livre da geometria”. Esse
príncipe fora um notável patrono dos maçons primitivos e um grande curioso em
conhecer a metodologia exata da geometria
sagrada.
Por fim, o Duomo de Milão foi construído
sobre as bases dum primitivo templo romano, e na sua entrada fica a escada que
leva às escavações feitas no seu subsolo. Nestas escavações, podem ser vistos
ainda os restos do antigo templo e as relíquias que o
decoravam.
Alquimia na basílica de Santo
Ambrósio
A basílica de Santo Ambrósio de Milão,
seu padroeiro, conserva no interior vestígios significativos da tradição
hermética que vêm a pôr este santo em relação direta com a
mesma.
Ainda antes de entrar na basílica, vê-se
na praça junto à mesma uma coluna de mármore com capitel romano
conhecida como o pilar do Diabo. Possui dois buracos
que deu azo à lenda da luta entre Ambrósio e o Diabo. Pretendendo
trespassar o santo que se esquivou, o Diabo cravou os seus chifres na coluna e
Ambrósio exorcisou-o, fazendo com que ele conseguisse libertar-se e escapar
aterrorizado. A tradição popular conta que esses buracos às vezes exalam cheiro
a enxofre e colocando-se o ouvido junto à pedra pode-se ouvir os sons do
Inferno.
Na realidade essa coluna foi usada para
a coroação dos primitivos imperadores germânicos, como descreve Galvano Fiamma
(1283-1344), cronista dominicano milanês, dizendo que após jurarem sobre o
missal recebiam a coroa de ferro das mãos do próprio Santo Ambrósio, coroando-os
reis da Itália, e a seguir abraçavam esta coluna. Isto significa a
legitimação do Poder Real pela Autoridade Sacerdotal, cujo abraço final à coluna
era a comprovação efetiva do abraço e conversão definitiva à romana Igreja,
“Coluna viva” de Cristo na Terra. Essas conversões impossíveis,
explicáveis exclusivamente por pactos políticos na época, de reis pagãos ao
Cristianismo que acabavam abraçando a coluna da Igreja, a sua assembleia de
fiéis, aos olhos do povo
supersticioso e ignorante este pilar só poderia ter predicados diabólicos ou
sobrenaturais, e foi assim que nasceu a lenda dele estar relacionado com o poder
do Diabo.

O tema da coluna repete-se dentro da basílica, desta
feita numa coluna de granito romana sobre cujo capitel vê-se a serpente de
Moisés. É
uma escultura em bronze (no passado acreditava-se que era a original de Moisés)
doada à basílica pelo imperador Basílio II em 1007. Ainda hoje as
pessoas dirigem orações à serpente para afastar algum tipo de doença, e diz-se
que o fim do mundo será preanunciado com a descida da serpente do cimo da
coluna.
Se
a primeira coluna tem um sentido de conversão temporal, já esta segunda coluna
abriga o significa de afirmação espiritual. A serpente moisaica é simbólica da
medicina universal ou taumaturgia, aquela que cura todos os males, sobretudo os
morais que a doutrina da Igreja se encarrega de extirpar, e é assim que por
vezes se iconografa a serpente por vezes cravada na cruz, indicativa da
sabedoria cristã salvadora dos corpos e das almas que, como o próprio Santo
Ambrósio afirmou, perdurará até ao Fim dos Tempos, adiantando que o pão
transubstanciado na eucaristia era a própria medicina divina,
universal.

O tema das duas colunas de certa maneira é reproduzido
nas duas torres sineiras da basílica: à direita, o Campanile dei Monaci
(“Campanário dos Monásticos”), datado do século IX e prefigurando o sentido de
Autoridade Espiritual, e à esquerda o Campanile dei Canonici (“Campanário dos
Cónegos”), iniciado em 1128 e concluído só em 1888, vindo a prefigurar o
predicado de Poder Temporal.
Sobre um capitel paleocristão, vê-se um
grifo alado em atitude de proteção ou domínio a um outro animal indefinido
parecendo beber de um vaso. Esta é uma clara figuração alquímica: na
Alquimia o grifo é símbolo do Mercúrio dos Sábios ou Mercúrio Hermético,
elemento indispensável para se fabricar a Pedra Filosofal. Os antigos
Alquimistas chamavam à fase em que se procede à fabricação da Pedra Filosofal de
Águia. O fato é que o grifo é a forma mitológica da própria águia, esta que está
patente nas colunas junto ao altar-mor da igreja, o que não deixa de ser
significativo.
O Ouro
Filosófico, símbolo da Perfeição Espiritual e Humana, está presente no próprio
Altare d´Oro, coberto com lâminas de ouro e prata e com figuras que representam
a vida de Cristo e de Santo Ambrósio.
Este templo
românico cuja construção iniciou-se no ano 379 d. C. e sete anos depois foi
sagrado pelo próprio Santo Ambrósio, chamava-se originalmente Basilica
Martyrum, por estar situado no lugar onde havia o cemitério dos
mártires cristãos. Depois da morte de Santo Ambrósio (Tréveris, 339 – Milão,
4.4.397), a basílica passou a ser chamada com o nome do santo. Diariamente uma
multidão de peregrinos fiéis diariamente visita esta igreja indo venerar os
despojos do santo padroeiro milanês na cripta da basílica, e com eles se mistura
um outro tipo de peregrinos também “Filhos de Maria” mas a da Ciência Hermética
ou Alquimia, precisamente por o próprio Santo Ambrósio ser identificado como
praticante de Alquimia tendo atingido o seu grau supremo: a fabricação
da Pedra Filosofal, isto é, a verdadeira Realização
Espiritual.
Aurélio Ambrósio ou Ambrósio de Milão, um
dos vários autores dos Atos Apócrifos dos Apóstolos, cuja origem situa-se no
século IV, mas que não devem ser confundidos com os chamados Evangelhos
Apócrifos, alguns dessa época e outros anteriores ou posteriores situados no
período gnóstico da Igreja, é desta um dos seus quatro primitivos Doutores e o
pressuposto responsável pela conversão do próprio Santo Agostinho. Por
seu discurso fácil e fluente, por sua palavra conciliadora e doce, é chamado de
“língua de Mel”, e por isso tem por símbolo iconográfico as abelhas. No contexto
tradicional, o mundo das abelhas, a colmeia, representa uma comunidade
coerentemente trabalhada posta sob a advocação da Grande Mãe, popularmente a
própria Igreja e reservadamente a Alquimia que tem Maria por Orago, a cujo seio
se acolhem todos os fiéis.
Pelas reformas
que inculcou no rito litúrgico da Igreja, Santo Ambrósio também aparece
iconografado ostentando um templo ou capela. Nisto, há uma relação
oculta, que à primeira vista não se aprecia, entre as primitivas Lojas de
Construtores e os Doutores da Igreja. Em ambas as categorias podia-se
alcançar a qualificação de pontífice, relativa àqueles considerados como
construtores da ponte que une o Homem com o Eterno, uns desde a sua cátedra
teológica e outros desde o seu prumo e compasso, uns desde o conhecimento
exotérico e outros desde a sabedoria esotérica. Por isto é que surgem
iconografados santos com um templo ou capela em miniatura entre as suas mãos.
São imagens que foram muito possivelmente concebidas pelos construtores e de
imediato adaptadas ao contexto da doutrina oficial da Igreja. Por isto, Santo
Agostinho não se coibiu de chamar a Santo Ambrósio de Pontífice Máximo da
Igreja.
As Sibilas de San Vittore al
Corpo
O mosteiro de San Vittore al Corpo dos
frades Olivetanos, da Regra Beneditina, originou-se de uma basílica paleocristã
do século IV frequentemente identificada com a desaparecida basílica Portiana,
que estava numa área de enterramentos e ligada ao mausoléu octogonal onde jaziam
os corpos dos imperadores arianos Graziano e Valentiniano II, o qual ainda
existia no século XVI conhecido como “São Gregório”.
Esta basílica de
San Vittore al Corpo foi ampliada no século VIII para hospedar as relíquias dos
santos Vittore e Sátiro, transladadas da capela de San Vittore in Ciel d´Oro na
basílica de Santo Ambrósio. Por volta do ano 1000 foi-lhe anexado um mosteiro
beneditino, tendo passado para os Olivetanos em 1507. No início deste século
XVI, os edifícios da basílica e mosteiro receberam profundos restauros e
reformas, que tornaram San Vittore al Corpo um exemplar da arquitectura
monástica de Milão dessa época.
Ignorada pelas
fontes historiográficas clássicas, a cerca quinhentista do antigo mosteiro na
Via degli Olivetani era um recinto poligonal que dentro de si “comprimia” um
espaço octogonal com 42-44 metros de lado, com cerca de 100 a 132 de
comprimento. Em cada canto havia uma torre semi-circular, a modo de atalaia ou
posto de vigia. Parece que o recinto destinava-se a proteger o mausoléu dos
imperadores arianos – seguidores da doutrina de Ário (Líbia, 256 –
Constantinopla, 356) cuja concepção do Cristianismo foi considerada herética no
Concílio de Niceia, em 20 de Maio de 325 – e o cemitério dos equites
singulares, ou seja, dos cavaleiros e guarda pessoal desses
imperadores.
Há, pois, um ponto de encontro entre a
heterodoxia “herética” de Ário e a ortodoxia “hierática” dos primitivos Padres
Apostólicos aqui mesmo em San Vittore al Corpo, e que está assinalado pela
presença singular das Sibilas pintadas em volta da cúpula da basílica. Esses
frescos das Sibilas, dos quatro Apóstolos e dos Anjos tendo no topo a
Pomba do Espírito Santo, foram pintados em 1617 por Guglielmo Caccia,
chamado il Moncalvo (1568-1625).
As Sibilas são descritas
como Mulheres-Oráculos da Grécia e Roma antigas possuídas de poderes proféticos
sob a inspiração de Apolo ou Helius, o Logos Solar, projetando o seu Raio de Luz
do Céu à Terra através dos Anjos que vinham aportar à mente das Sibilas os
prognósticos divinos. Por isso se vê a abside da basílica decorada por Anjos
e no topo a Pomba do Espírito Santo como a transmissora da Sabedoria Divina.
Mais abaixo estão as Mulheres-Oráculos e os quatro Evangelistas sinópticos:
Mateus, Marcos, Lucas e João.

Esses Oráculos sibilinos permeio aos Apóstolos,
estabelecem a ponte entre a antiga e a nova tradição, prefigurada religião, esta
não abjurando aquela mas retificando-a nos pontos considerados ultrapassados ou
já vivenciados pelo coletivo humano, adaptando-os assim à vivência presente.
O conjunto pictórico parece sugerir o Espírito Santo manifestando-se
através dos Anjos que segredam vaticínios do passado, presente e futuro à mente
intuitiva das Sibilas que, por sua vez, parecem intuir os Apóstolos na sua
escritura dos textos sagrados.
Aparecem
retratadas as Sibilas de Cumes (Cumana), de Delfos (Délfica), de Elesponto ou
Helesponto (Heliopolis), de Samos (Samo), de Eritreia, da Líbia (Líbica), da
Pérsia (Pérsica) e da Suméria (Siméria).
De todas, a que parece mais
importante relativa ao Cristianismo será a Sibila de Cumes, a mesma que
profetizou o futuro advento do Cristo, e o seu símbolo iconográfico é uma taça
de ouro. A
Sibila de Delfos previu a vinda da Idade de Ouro para a Terra, e tem por símbolo
uma coroa de espinhos. A Sibila de Helesponto profetizou a queda do Império
Romano e o nascimento de uma Nova Civilização, aparecendo carregando uma cruz. A
Sibila de Samos ditou que o futuro Salvador do Mundo nasceria numa manjedoura
dentro de uma gruta, e por isso carrega nas mãos uma manjedoura. A Sibila de
Eritreia fez o Anúncio do Nascimento do Messias, Messiah ou Avatara Jesus
Cristo, razão do seu símbolo ser a flor do lírio. A Sibila da Líbia registou as
suas Profecias sobre o Advento do Salvador, sendo o seu atributo simbólico um
pergaminho. A Sibila da Pérsia vaticinou de forma nebulosa que a verdadeira Luz
haveria de iluminar a noite dos homens, e aparece representada com um rolo ou
pergaminho fechado. A Sibila da Suméria, simbolizada com um espelho ou um vidro,
fez vaticínios sobre a Virgem Divina, a maior das Sibilas do Templo de Jehovah
ou Júpiter, assim identificado pelos antigos, e Serva do Senhor Deus Único e
Verdadeiro.


As Sibilas, nome grego dórico significando “Vontade de
Júpiter” (Zeus ou Deus), eram originalmente sacerdotisas virgens e sábias desse
deus que é tido pelos poetas como o rei dos deuses e dos homens e que, lá do
Olimpo, agita o Universo com um simples mover da sua cabeça… mais tarde, porém,
transformaram-se de imaculadas sacerdotisas em famosas profetisas, e o dom da
adivinhação por clarividência intuitiva espalhou-se por toda a Grécia alastrando
aos países mais distantes dela.
Os gregos também davam o título
de Pitonisa ou Pythia às mulheres preparadas em Escolas Iniciáticas para serem
Oráculos, ou seja, Profetisas. Isto porque,
segundo a mitologia grega, Apolo, filho de Júpiter e Latona, nascera na Ilha de
Delfos onde veio a matar a serpente Python, alegorizando a tomada da Sabedoria
Divina pelo Fogo da Razão, já que a Serpente representa o Fogo Criador que
crepita e se agita no escrínio de tudo e todos. Era com a pele da serpente piton
se recobria o trípode onde ardia o Fogo Sagrado e se queimavam folhas de
loureiro, e sobre o qual se inclinavam a Pitonisa perscrutando dos segredos do
futuro.
Hoje, com o declínio da ordem do
sistema tradicional tanto espiritual como social, aumentando a eterna ansiedade
humana que a impele a procurar saber do seu futuro por obscuras e confusas
sendas, vêem-se homens e mulheres de vidas estraçalhadas a quem resta só a
esperança na resposta certa de adivinhos e adivinhas a quem recorrem como último
recurso numa vida ausente de verdadeira cultura espiritual. Mas tais adivinhos e
adivinhas, frutos da ignorância sem ordem nem regra que só gera impuberdade
psíquica, em nadíssima podem ser comparados e tampouco assemelhados aos Magos,
Pitonisas e Sibilas de antanho. Em suma, o
original sacerdócio feminino todo ele expressando pureza física e moral e
espiritualidade esclarecida, tem atualmente como oposto caótico as famosas
bruxas cujas práticas divinatórias, inteiramente psíquicas não raro falíveis e
até falsárias, correspondem com inteira justeza ao termo bruxaria, isto é,
confusão.
Os três Reis Magos de
Sant´Eustorgio
A basílica de Sant´Eustorgio de Milão tem
como relíquia maior nada mais, nada menos que os pressupostos corpos dos três
Reis Magos que seguindo a Estrela do Natal foram a Belém visitar o Menino Deus,
Jesus Cristo, acabado de nascer numa gruta que de manjedoura de animais
transformou-se em presépio de almas ficando eterno na memória devota
cristã.
Por
esta razão de ser o lugar do túmulo dos Reis Magos, a basílica de Sant´Eustorgio
foi durante largos séculos da Idade Média um importante centro de peregrinação
visitado por romeiros indo a Roma ou por peregrinos indo à Terra Santa, que
obrigatoriamente iam primeiro aí. Este templo românico terá sido fundado no século IV
pelo bispo de Milão, Eustorgius I (morto cerca de 350 d. C.), de quem a basílica
herda o nome. A lenda diz que foi ele quem trouxe as relíquias dos três Reis
Magos de Constantinopla para Milão no ano 344, transportando o grande sarcófago
de mármore num carro puxado por dois bois, como conta a Vita Beati Eustorgii
Confessoris, datada do ano 1200. Mas no século XII o sacro imperador germânico
Frederico Barbarossa ocupou Milão e apropriou-se das relíquias dos três Reis
Magos, levando-as consigo para a Alemanha entregando-as ao arcebispo de Colónia,
Reinaldo de Dassel, em 1164. Só na passagem de 1903 para 1904 é que os
pressupostos fragmentos dos ossos e roupas dos três Reis Magos foram devolvidos
à basílica de Sant´Eustorgio de Milão. Actualmente estão no altar dos três Reis
Magos junto ao sarcófago vazio dos mesmos.
Extraído de: http://lusophia.wordpress.com/2011/05/18/milao-secreto-e-sagrado-po...
http://lusophia.portugalis.com/
E trecho e vídeo extraído de: http://filhosdehiran.blogspot.com/2011/10/catedral-gotica-de-milao-...