Quando Ele Voltar (Ricky Medeiros)

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Marcia Ismerim Barreto

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Mar 18, 2015, 9:09:24 AM3/18/15
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Levando Paulo pela mão, ela caminhou em direção a Almeida, que se levantou e deu-lhe as boas-vindas.

- Por favor, não fique nervosa. Eu sei por que você está aqui. 

- Como você pode saber? — retrucou ela, dando-se conta de que estava mesmo nervosa, porque sua resposta fora mais agressiva do que desejava.

A atenção de Almeida voltou-se para o menino:
- E qual é o seu nome? — perguntou, curvando-se à frente para alisar o cabelo do garoto.
- Paulo, meu nome é Paulo.

- Como posso ajudar você? — perguntou Almeida a Inês, mas o garoto interrompeu e perguntou a Almeida se ele sabia fazer uma borboleta.

Almeida, sem esperar pela resposta de Inês, olhou para o menino e disse:
- Eu tenho certeza, Paulo, de que ninguém poderia fazer uma borboleta mais bonita do que a que você tem em tua cabeça.

Inês explicou o motivo de sua ida até lá. Contou que o tinha visto na televisão, lido sobre ele nos jornais.

Secamente, perguntou quem ele era. Almeida olhou para ela e para o menino, e, rindo, disse:
— Ah! A pergunta do "quem é você"... As pessoas me perguntam isso o tempo todo. Meu nome é Antônio. Se você pensa que sou mais do que isso, então eu sou. Por favor — antecipou ele, cortando seus protestos —, eu não estou lhe respondendo com um enigma. Um monte de gente acha que sim. Acham que estou fugindo da pergunta. Mas minha resposta é, realmente, simples e reveladora.

Inês dava a ele toda a atenção, enquanto Paulo corria e ria ao redor da sala.
- As pessoas precisam acreditar — continuou Almeida. — As almas humanas estão se perdendo neste mundo moderno e eficiente. Estão construindo paredes ao seu redor, isolando-se umas das outras. Olhe em sua volta. As pessoas amontoam-se em seus pequenos cantos, protegidas por suas próprias crenças, convicções, valores e preconceitos. Se eu saísse por aí dizendo: "Eu sou Jesus, ou "Eu sou Buda", ou Maomé ou Krishna, você pode imaginar o que aconteceria. As pessoas, isoladas em seus pequenos cantos de preconceito e medo, iriam me atacar violentamente. Alguns me defenderiam, mas outros... como posso dizer?... me crucificariam — acrescentou com um sorriso. — Sendo assim, prefiro responder que eu sou quem você pensa que eu sou. E nesta afirmação está a maior verdade. Se você acredita que sou Jesus reencarnado, então eu sou. Se você acredita que sou um Buda moderno, eu sou também. Se você acredita que sou um Moisés da Nova Era, tudo bem, eu sou. Na verdade, eu sou mais e sou menos o que você pensa que eu sou. Eu não vim como um salvador. Não vou voar com ninguém para o céu em nuvens de glória. Mas você deve acreditar que sou alguma coisa, senão você não teria vindo procurar respostas para suas perguntas.

Inês olhou para o rapaz. Ela acreditou em cada palavra suavemente dita. Ela lhe contou que seu filho era retardado, tinha a síndrome de Down, e ela queria saber por quê.

— Por que o quê? — ele perguntou. E, sem esperar por uma resposta, Almeida olhou para Paulo e disse a Inês: 
— Se você pudesse ver seu filho como eu o vejo, você veria que não há absolutamente nada de errado com ele. Na verdade, seu espírito é luz, sua aura e pura.

Inês, chocada, explodiu:
- O que você quer dizer com isso? Que não há nada de errado com ele? Você não vê? Olhe para ele, ele é mongolóide. Você o viu falar, ele mal sabe conversar direito.

Almeida sorriu para Inês e disse que ele realmente viu seu filho.. Não o Paulo que ela via, mas o espírito encarnado como Paulo. Inês não se conteve:
— Ele não pode aprender, ele nem sabe contar. Ele está em uma escola especial e nem sabe como amarrar os sapatos, soletrar o próprio nome ou mesmo falar sem pronunciar errado as palavras. Ele jamais aprenderá alguma coisa!

- Ele não pode aprender porque ele não precisa aprender. Há poucas coisas para esse espírito aprender, entender estudar — respondeu Almeida calmamente.

- O médico disse que ele vai morrer daqui a três ou quatro anos - disse ela.

- É porque ele não precisa viver mais que isso — respondeu Almeida.

- Então por que ele nasceu? Por que ele foi colocado nesta Terra? E por favor, não me venha com aquela resposta estúpida: "vontade de Deus". Eu não suporto mais ouvir isso. Por que ele foi dado para mim e por que agora será tirado de mim? Responda isso, se você puder.

Ela encarou Almeida e esperou impacientemente a resposta
— A vontade de Deus... — Almeida refletiu. — Essa expressão é tão mal usada! Ele é culpado de tudo, não é? Nós damos: a ele tanto poder... Talvez façamos isso para não colocar a responsabilidade em quem merece: nós mesmos.

Almeida fitou dentro dos olhos de Inês, vendo sua raiva, se ressentimento e a ferida na sua alma. Ele viu uma mãe que em breve perderia seu único filho. Ele viu uma esposa que já havia perdido o marido.

— A Terra não existe para nosso prazer e para diversão -continuou ele. — Esta dimensão existe e nós estamos aqui por uma razão.

Inês o interrompeu com uma pergunta:
— Você pode curar meu filho?

Antônio passou a mão no cabelo e respondeu:
— Eu poderia. Pode ser feito. Mas, neste caso em particular não é necessário. Quando um milagre acontece, é o espírito que está sendo curado não o corpo físico. Por exemplo, os médicos que tão descobrindo que um grande número de doenças está relacionado às emoções da pessoa. O problema, muitas vezes, é com a alma e não com o corpo físico. Pode ser dada a visão a um cego? — perguntou. — Claro que pode, se seu espírito equilibrou seu carma aprendeu as lições que tinha que aprender vivendo como cego.

Inês esperava ansiosamente, e Almeida olhou para Paulo que estava na dele, brincando num canto da sala. Antônio virou se e falou para ela:
— Em seu filho não há nada para curar. É verdade que seu espírito está preso dentro de um terrível defeito. Mas, muito ante de nascer, o espírito que você conhece como Paulo escolheu esta vida. Ele escolheu esse corpo específico não visando apenas seu próprio desenvolvimento ou a solução de algum carma. Ele quis voluntariamente reencarnar nesta Terra por amor a você e a seu marido. A cura, neste caso, não é dele. É sua e de seu marido.

- Eu sabia! — murmurou ela. — Estamos pagando pelos pecados de nossos pais.

Almeida irritou-se com as palavras de Inês:
- Você quer parar com essa história de pecado? Você não está pagando por nada, muito menos pelas ações alheias. Paulo veio até você e seu marido para que vocês pudessem aprender compaixão, amor, compreensão e sacrifício.

Almeida tomou as mãos de Inês e segurou-as enquanto continuava a falar:
- Você precisa aprender amor. Você precisa aprender compaixão. Ã vida lhe deu uma criança que depende de você para respirar, um filho que não é inteligente, nem bonito, desembaraçado ou jovial. A vida lhe deu a chance de aprender uma
lição preciosa: sentir e se identificar com Paulo e com outros seres humanos que não são tão brilhantes ou sofisticados como seu círculo de amigos. A lição não é para ele. É para você e seu marido. O menino não é uma compensação para o egoísmo e ambição dos avós; ele é uma lição para você e Ricardo.

Almeida parou um segundo antes de prosseguir. Olhando para Paulo, que ainda estava brincando num dos cantos da sala, o rapaz continuou:
— Isso não é para compensar os egos ambiciosos e inescrupulosos de seus pais e avós. Essa lição é para você e Ricardo. Vocês podem aprender agora, ou acabarão aprendendo de alguma outra forma mais cedo ou mais tarde. A alma de vocês vive nesta Terra para poder, através dos tempos, quebrar seu próprio ego, vaidade e orgulho, purificando-se enquanto evolui.

- Meu marido não quer saber de Paulo. Nem de mim. Ele tem uma amante. Nós não dormimos mais na mesma cama — disse Inês, soluçando.

Almeida continuou, segurando a mão da mulher:
- Esse garoto não é um castigo. Antes de você nascer, Inês, você escolheu a vida que está levando agora. Quando seu espírito estava do outro lado, sabia as lições que teria que aprender, a ajuda de seus guias e professores, seu espírito delineou a vida que você está vivendo. Aprenda, cresça e acenda o fogo do amor, da compreensão e da compaixão que está dentro de você. 

Fez uma breve pausa e continuou:
— Paulo entrou em sua vida por sua causa. O espírito que vive naquele corpo entende uma das leis básicas do universo, a de que nenhum espírito pode unir-se novamente com o Criador até que todos estejam prontos. O todo que era um não pode ser um de novo se uma parte for deixada para trás. Ele encarnou para ajudá-la em seu trajeto. Mas, Inês, é você que precisa aprender.

Enquanto ela enxugava as lágrimas que corriam pelo rosto Almeida acrescentou, muito delicadamente:
— Há uma outra coisa que você precisa aprender com Paulo. Ele veio para a Terra a fim de ajudá-la crescer. Faça o mesmo pelo homem com quem casou.Ajude-o a crescer também Seu espírito está confuso, ele tem sofrido. Eu sei que ele a machucou, mas lembre-se disso: não poderemos ser um inteiro nova mente se uma parte estiver faltando. Ajude Ricardo a encontrai seu caminho.

Inês perguntou o que ela deveria fazer. Com um sorriso compreensivo, ele disse:
— A resposta é simples: amor. Ame seu filho, ajude-o e cuide dele da mesma forma como gostaria que cuidassem de você. Faça para os outros o que você faria para você. Não há nada mais para dizer, exceto isto: abrace esta chance que para aprender. Agradeça a Deus por e para seu marido evoluírem.


Do livro "Quando Ele Voltar" de Ricky Medeiros.

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Paz e Luz!
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