Diz-se por ai que Che Guevara fez uma má leitura da conjuntura política
boliviana e por isso a sua guerrilha fracassou e ele foi assassinado.
Diz-se também que Marx errou ao anunciar os operários como sujeito
revolucionário e os camponeses como reacionários. Será?
Che
Guevara e o seu legadoChe Guevara chegou à Bolívia nos
finais de 1966 com a ideia de fazer uma revolução armada, assim como foi
feita em Cuba no ano de 1959 com apoio dos camponeses. Sua guerrilha
obteve apoio dos trabalhadores mineiros, mas não dos camponeses,
diferente do que havia passado em Cuba. Isso porque no ano de 1967 a
Bolívia estava governada por uma ditadura militar que, aproveitando as
conquistas da Revolução de 1952, que começou um processo de Reforma
Agrária, fez um acordo com o setor camponês. Além desse acordo, a
publicidade contra a guerrilha era muito forte e espalhou-se o terror
entre os camponeses. Diziam que os guerrilheiros comunistas queriam
tirar as terras conquistadas pelos camponeses durante a Reforma Agrária
para dar a outras pessoas. Nesse momento Marx estaria certo em relação
aos camponeses bolivianos do meio do século XX, assim como estava certo
em relação aos camponeses do século XIX. Muitos dos camponeses se
opuseram ao movimento guerrilheiro-revolucionário por falta de
informação e por defender a sua propriedade e acabaram por delatá-lo ao
exército boliviano, o que fez com que os guerrilheiros fossem
assassinados aos poucos. No dia 08 de outubro 1967 o comandante Che
Guevara foi capturado e, por ordem da CIA, executado no dia seguinte.
Até aqui poderíamos pensar que Che Guevara teria se equivocado, já que
ele morreu e a sua guerrilha desaparecu. Porém, a Revolução Boliviana
não acaba no dia 09 de outubro de 1967. Pelo contrário. É aqui que ela
começa.
Após a morte de Che Guevara uma imensidão de gente
descobre quem ele era de fato. Melhor que a publicidade anticomunista
dos militares e dos EUA e qualquer publicidade que a guerrilha poderia
ter feito a seu favor, a morte de Che a fez. A sua guerrilha
desapareceu, mas foi com a sua morte que o seu exército começou a
aumentar. Diversos grupos de esquerda e grupos guerrilheiros inspirados
na figura de Che começaram a surgir e crescer cada vez mais. Che se
tornou um símbolo e uma inspiração para a juventude, para os
trabalhadores e em especial para os camponeses na Bolívia. Até mesmo
dentro do exército boliviano começaram a surgir guevaristas. Assim que
nos finais da década de 1960 as lutas populares e socialistas começam a
intensificar-se.
Universidade Autônoma - La Paz
Os
povos originários e os camponeses já estavam cansados de quase 500 anos
de barbárie, exploração e de apenas resistir. As manifestações começam
com o levante indígena na década de 1980. Resolveram sair da resistência
e chegar às reivindicações. Feito que só se realizou porque estavam
organizados. As reformas neoliberais e os abusos da direita não poderiam
resistir a essa organização e a disposição à luta do povo boliviano.
Rádio no bairro Plan 3000 - Santa Cruz
Os dois maiores marcos na história
contemporânea da Bolíviaa) No ano 2000 o governo
boliviano provou a Lei nº2029 que permitia a venda dos recursos da água e
que obrigava a população a pagar até mesmo para pegar água da chuva,
além de outros absurdos. Assim que assumiu o controle da água, a empresa
responsável aumentou a tarifa em 35%, tornando-a impagável para muita
gente. Manifestações tomaram conta do Departamento de Cochabamba e os
empresários que compraram Água de Tunari foram expulsos à força. Esse
fato deu origem ao que se chama de A Guerra da Água. A pressão popular
fez então com que a lei fosse modificada. Todo esse processo foi
intensificado pelos trabalhadores das minas, pelos movimentos camponeses
e indígenas, os quais já tinham como representante o então Deputado de
Cochabamba Juan Evo Morales Ayma.
Debates políticos que acontecem todos os finais
da tarde na praça 14 de Setembro - Cochabambab) Em
2003 o governo decide construir um gasoduto que iria até o Chile para se
exportar gás natural ao México e aos EUA. O problema é que a população
pagava caro pelo gás e nunca havia recebido benefícios pela sua venda. A
idéia do governo era privilegiar a exportação em relação ao mercado
interno boliviano. Foi então que os camponeses que haviam sido expulsos
de suas terras e que foram viver na cidade de El Alto, região periférica
da capital La Paz, resolvem fazer um paro cívico. O governo na
tentativa de acabar com a revolta enviou o exército e o autorizou a
disparar contra os manifestantes. No conflito o exército matou 5
pessoas, dentre elas uma criança. As manifestações então se
massificaram, ganhando apoio dos movimentos sociais, dos camponeses e
dos trabalhadores, e intensificam-se. Começam a exigir a renúncia do
então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada. Pressionado, Lozada
renunciou em outubro de 2003 e em seguida fugiu do país. Assumiu a
presidência Carlos Mesa que também foi obrigado a renunciar em 2005 pela
radicalização das manifestações. A população estava esgotada e queria
eleições antecipadas para eleger um representante do povo. São
realizadas eleições no final de 2005 e ganha Evo Morales com quase 54%
dos votos, junto com seu vice-presidente Álvaro García Linera
(ex-guerrilheiro e importante intelectual marxista).
O proletariado e o protagonismo camponêsNa
página 24 do Manifesto Comunista, Marx e Engels escrevem: “De todas as
classes que ora enfrentam a burguesia, só o proletariado é uma classe
verdadeiramente revolucionária. As outras classes degeneram e perecem
com o desenvolvimento da grande indústria; o proletariado pelo
contrário, é o seu produto mais autêntico. As classes médias – pequenos
comerciantes, pequenos fabricantes, artesãos, camponeses – combatem a
burguesia porque esta compromete sua existência como classe média. Não
são, pois, revolucionárias, mas conservadoras; mais ainda, reacionárias,
pois pretendem fazer girar para trás a roda da História. Quando são
revolucionarias é em consequência de sua iminente passagem para o
proletariado; não defendem então seus interesses atuais, mas seus
interesses futuros; abandonam seu próprio ponto de vista para se colocar
no do proletariado.”.
Ora, me parece um pouco óbvio que eles se
referiam ao campesinato e ao operariado fabril europeu do século XIX. Ou
alguém realmente acha que o pequeno agricultor boliviano dos séculos XX
e XXI representa a classe média?
Talvez algum desavisado, que
não conheça o desenvolvimento capitalista na Bolívia e a sua história
contemporânea, pudesse dizer que o campesinato boliviano continua sendo
reacionário, pois, assim como Marx diz sobre o campesinato europeu do
século XIX, só são revolucionários nesse momento histórico porque
defendem seu interesse futuro, o interesse pela sua propriedade. Afirmar
isso significa não saber que o campesinato boliviano do século XXI
reivindica outro modo de produção, que não o da acumulação. O que está
em pauta para eles não é a defesa da propriedade, se não a superação do
capitalismo imperialista.
Marx então estaria errado? Não. Ele
estava certo. Duplamente. Uma por referir-se aos camponeses europeus do
século XIX como reacionários, porque esses sim representavam a classe
média, eram fruto das revoluções burguesas e gozavam do desenvolvimento
capitalista e industrial; e outra por dizer que a classe verdadeiramente
revolucionária é o produto mais autêntico das atrocidades do
desenvolvimento capitalista, ou seja, a sua prole. No caso boliviano, de
economia tipicamente petroleira, mineira e agrícola, estes são os
pequenos agricultores, os trabalhadores agrícolas, os ex-agricultores
marginalizados (expulsos para a cidade) e os operários urbanos.
“As
concepções teóricas dos comunistas não se baseiam, de modo algum, em
idéias ou princípios inventados ou descobertos por tal ou qual
reformador do mundo. São apenas a expressão geral das condições reais de
uma luta de classes existente, de um movimento histórico que se
desenvolve sobre os nosso olhos” Marx e Engles, Manifesto Comunista,
p.30.
Tentar titular Marx como um reformador do mundo seria um
dos piores pecados marxistas. Para ele os trabalhadores são
potencialmente os sujeitos revolucionários para superação do capitalismo
porque são vítimas diretas da exploração do Capital e porque, como é do
seu trabalho que se produz a riqueza de uma sociedade, são eles que
possuem a arma para uma transformação. Esses eram os trabalhadores
fabris na Alemanha e na Inglaterra na indústria crescente no século XIX,
porque eles é que produziam a riqueza que sustentava essas duas
potências. E esses foram os trabalhadores camponeses e mineiros
bolivianos em 2003.
A Revolução
DemocráticaOs camponeses encabeçaram um processo
revolucionário na Bolívia. Che Guevara então estaria certo? Talvez eu
pudesse afirmar que não por saber que ele não era suicida. Mas posso
afirmar que sim quando conheço os seus propósitos, suas convicções e
seus princípios. A história e as revoluções não se constroem em um dia e
nem em um ano. E Che obviamente sabia disso.
No ano de 2005 o
camponês cocaleiro Evo Morales, nascido em 1959, filho da Revolução
Cubana e das manifestações dos trabalhadores bolivianos, ganhou as
eleições para presidente. Havia sido o primeiro deputado indígena em
1997 e agora é o primeiro presidente indígena da Bolívia. A partir de
2006, seu primeiro ano de governo, é que começam as transformações: a
principal delas é que a governabilidade foi transferida da embaixada dos
EUA para as ruas, ou seja, não é mais com os EUA que o governo negocia
suas políticas, se não com o povo nas ruas e nas suas comunidades; o
governo é cada vez mais tomado por indígenas, que representam mais de
60% da população boliviana; nacionalizações de setores estratégicos
(antes de 2005 as empresas estrangeiras – dentre elas a Petrobrás -
possuíam 73% dos lucros do petróleo, enquanto o Estado possuía somente
os 27% restantes. Depois de 2006 a porcentagem inverteu-se; até 2005 o
estado tinha entre 33% e 35% dos lucros sobre a mineração. Em 2008
passou a ser de 55% a 75%; antes de 2005 o Estado possuía 27% dos lucros
do setor de telecomunicações. Hoje tem 39%); até 2005 o governo não
investia nada na agricultura e em 2008 já investia cerca de US$210 mi em
crédito para os pequenos produtores; os dirigentes dos movimentos
sociais ocupam cargos de ministros; hoje são reconhecidos os 36
diferentes idiomas das 36 diferentes nações que existem no país (idiomas
que por muito tempo foram proibidos de serem usados em espaços
públicos); a República da Bolívia deu lugar ao Estado Plurinacional da
Bolívia; a bandeira indígena Wipala agora divide espaço com a bandeira
da república que é verde, amarela e vermelha; aprovou-se uma nova
constituição de caráter popular e democrático; o poder judiciário agora é
escolhido por eleição assim como o poder legislativo e executivo; etc.
Palácio do Governo - La Paz
De fato não se pode chamar o processo
boliviano de uma revolução socialista (Álvaro Garcia Linera,
vice-presidente, prefere chamar essa construção de Socialismo
Comunitário, em uma tentativa de criar a conciliação do socialismo
enquanto superação do capitalismo e da herança histórica da organização
comunitária indígena). Porém, é inegável que a luta entre as classes
sociais já não pende mais para o mesmo lado que antes de 2006.