Muita gente anda saindo do armário para dizer
que está cansada de gastronomia ou de “gastronomia de vanguarda”. Não é para
menos. Já se espumou muito pelos quatro cantos da Terra e esse negócio enjoa.
Principalmente porque, ao se generalizar, perde o caráter de novidade, o poder
de surpreender que Adrià acha fundamental na gastronomia presente.
Esse é
o problema das ondas baseadas na inovação técnica: elas se difundem, se
banalizam e perdem o poder de galvanizar o entusiasmo. Muito bem, e depois? Há
os que esperam o novo passo de Adrià e há os que querem interpretar as
“tendências” correntes sem Adrià.
Depois da revolução vem a reação
thermidoriana. Robes Pierre foi guilhotinado na sua própria invenção. Os
“conservadores” retomam a ofensiva, reafirmam o triunfo do “velho” sobre o novo
e dizem “agora vai”. É assim com a gastronomia baseada no terroir, na tradição
das avós; é assim com o
confort food etc. Gente que, não se sabe bem porque
nem para que, se tornou defensora militante do leite condensado, da
nutella, do brigadeiro e assim por diante.
Mas...será assim mesmo?

A
verdade é que nesse movimento de reação não há novidade (a não ser nominal). Mas
isso não engana os novidadeiros autênticos, que sempre esperam por algo tão
sensacional quanto o ciclo das espumas espanholas. Mas eles deveriam se dedicar
a pesquisar o que encheu mesmo a paciência dos consumidores que, talvez pela
primeira vez, começaram a se acercar da gastronomia.
Pessoalmente me enchi da
estética dos pratos. Aquela coisa que basta observar uma fotografia para ver:
uma pirâmide que se erige no meio do prato, cercado por um riachinho de molho ou
redução. Me enchi das texturas, quase sempre muito aproximadas, exceção aberta
para as texturas das carnes à baixa temperatura.
Me enchi do ritual de
declamação do que vai no prato – sendo que quase nunca o garçom consegue ser
exato. E me enchi dos preços demasiado altos, que se apoiam na idéia de “alta
gastronomia” que, parece, constituiu um mercado a parte. Se a “alta gastronomia”
já não dá tanto prazer, ela será puxada, inexoravelmente, para o terreno da
comparação dos preços. Perderá a condição de “preço de monopólio”.
Não me
enchi, e jamais me encherei, da verdadeira criatividade, com ou sem apoio em
técnicas modernas. Mas é preciso reconhecer que ela se torna mais difícil quando
o primado da técnica se desfaz, graças à sua própria universalização. Assim,
persisto na esperança de coisas insólitas, criadas, por exemplo, a partir de
alguns ingredientes difíceis , como pequi, ou ou iquiriba. Essa linha de
inovação não depende dos adjetivos que definem “tendências” ou “alta
gastronomia”. De fato, à mesa, pouco importa a filiação politico-estética do
chef. É sempre possível cozinhar bem...