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Nilma Bentes

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Jul 20, 2016, 7:45:18 AM7/20/16
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Descrição: Descrição: olho lindo mulher negra - racismo

 

Racismo científico, definindo humanidade de negras e negros

19 de julho de 2016 Destaque, Racismo CombateRacismoAmbiental

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Emanuelle Goes – Observatório de Análise Política em Saúde

Esse artigo foi pensado para iniciar um diálogo sobre o quanto a ciência contribuiu para a estruturação do racismo na sociedade, hierarquizando humanos e não humanos a partir da raça/etnia e atribuindo estereótipos negativos aos não brancos.

Os povos indígenas das Américas e os/as africanos/as escravizados/as eram classificados/as como espécies não humanas – como animais, incontrolavelmente sexuais e selvagens. O homem europeu, burguês, colonial moderno tornou-se um sujeito/ agente, apto a decidir para a vida pública e o governo, um ser de civilização, heterossexual, cristão, um ser de mente e razão. A mulher europeia burguesa não era entendida como seu complemento, mas como alguém que reproduzia raça e capital por meio de sua pureza sexual, sua passividade e por estar atada ao lar a serviço do homem branco europeu burguês (Lugones, 2014).

Nos séculos XVIII e XIX não havia dúvida quanto à hierarquização social que devia traçar uma linha de escala intelectual que começava com os brancos europeus, os indígenas abaixo dos brancos e os negros abaixo de todos os outros (Wesolowski, 2014).Os/as negros/as e a medida do racismo

As práticas eugênicas e higienistas utilizaram recursos validados pela ciência para definir as raças humanas em raças superiores e raças inferiores, raças puras e as outras, sendo a supremacia racial branca a referência do belo ou puro. Na saúde o racismo científico estruturou a medicina legal, com a figura do perito que, ao lado da polícia, explica a criminalidade e determina a loucura.  Posteriormente, entra em cena a prática eugenista, que passa a separar a população enferma da sã (Schwarcz, 1993).

Dessa forma, foram utilizadas algumas teorias que dariam sustentação à continuidade desse projeto médico-eugênico no campo da saúde, como a tese lombrosiana, que atuava a partir da craniometria, ou seja, a medida do crânio, para definir o perfil do criminoso com base nas características físicas e nos seus hábitos, e a teoria do darwinismo social, que apontaria o cruzamento racial como o maior mal para a população, condenando a hibridação das raças e sua consequente degeneração e apostando na seleção natural para a eliminação da população negra.

No Brasil, o projeto médico-eugênico se fortaleceu em dois locais diferentes – na Bahia, com a medicina legal liderada por Nina Rodrigues, e no Rio de Janeiro, com a atuação dos médicos higienistas. O tema racial é de suma importância para esse período, pois integra o arsenal teórico na saúde. Na Bahia é a raça, mais especificamente o cruzamento racial, que iria tentar explicar a criminalidade, a loucura, a degeneração.

O determinismo biológico foi (para muitos ainda é) uma afirmação de que a forma de ser do humano como suas características intelectuais eram transmitidas de maneira hereditária. A craniometria contribuiu para fortalecer o determinismo biológico por meio de dados precisos referentes aos crânios de diferentes “raças” de pessoas, onde se tinha a inteligência como uma entidade única, mantida no cérebro e determinada pelo seu tamanho e pelos detalhes na formação do crânio (A Falsa Medida do Homem, Gould, 1991). A Escala Unilinear das Raças Humanas e Seus Parentes Inferiores, de Nott e Gliddon (1868), demonstra comparações feitas em imagens com crânios de negros falsamente alargados para se parecerem  com os de chimpanzés, enquanto os crânios dos brancos são considerados “normais”.

Ainda na atualidade as sociedades têm como base o critério do racismo científico para definir o perfil de um criminoso. Por exemplo, um estudo do EUA identificou a existência de um viés desumanizador que associa os negros a macacos e que essa desumanização tem consequências reais (Goff et al., 2008 apud Williams; Priest, 2015). Nesse estudo, os pesquisadores examinaram matérias de jornal sobre todos os réus condenados por crimes capitais ao longo de um período de 20 anos e descobriram que essas matérias tendiam a descrever os sentenciados negros, mais do que os brancos, com palavras desumanizadoras como besta, bruto, monstro, sorrateiro.

No Brasil, os jovens negros são assassinados a cada 23 minutos. Segundo o relatório final da CPI do Senado sobre o Assassinato de Jovens, todo ano 23.100 jovens negros de 15 a 29 anos são assassinados, mais de 70% dos jovens assassinados no Brasil são negros e os jovens são assassinados por conta do legado racista estruturante do País.

Em outro estudo sobre estereótipos de negros na cultura americana, sendo mais comuns os estereótipos negativos, o estudo analisou dados do projeto BEAGLE (Bound Encoding of the Aggregate Language Environment). BEAGLE é um banco de dados que contém cerca de 10 milhões de palavras, construído por meio de uma amostra de livros, jornais e outros materiais, com o objetivo de representar a cultura americana e ser comparável ao que uma pessoa americana média, com educação universitária, leria ao longo de sua vida (Verhaeghen et al., 2011 apud Williams; Priest, 2015).

A análise estatística sobre a força associativa entre pares de palavras revelou que a palavra ‘negro/a’ estava mais frequentemente associada com, em ordem de frequência, pobre, violento/a, religioso/a, preguiçoso/a, alegre, perigoso/a. Em comparação, a palavra ‘branco/a’ estava com mais frequência associada a rico/a, progressista, convencional, teimoso/a, bem-sucedido/a e educado/a.

Mulheres Negras, cobaias da ginecologia

As mulheres negras passaram por situações de experimentos no campo da ginecologia como cobaias. O médico James Marion Sims (1813-1883), chamado por muitos “pai da ginecologia moderna”, realizava experiências em negras escravizadas nos EUA. Ele relatou que “os africanos tinham uma tolerância fisiológica incomum para a dor, que era desconhecida pelos brancos”, desta forma ele não usava anestesia em seus pacientes negros/as.

O médico Sims contribuiu para a saúde reprodutiva com inovação de técnicas e procedimentos, no entanto, nunca se discutiu como, pois na época ele inaugurou uma série de longas e chocantes cirurgias ginecológicas experimentais, em mulheres escravas, e tudo feito sem o benefício de anestesia ou qualquer tipo de antisséptico, o que levava à morte de muitas dessas mulheres.

Um dos seus experimentos foi com uma mulher jovem escravizada chamada Anarcha. No momento do nascimento do seu filho, dr. Sims fez uso de uma pinça na cabeça do feto na hora do parto – ele relatava ter pouca experiência de usar o instrumento. O bebê nasceu – nenhum registro se vivo ou morto – e a mãe sofreu várias fístulas, resultando em incontinência. No início do século XX as mulheres negras eram vistas como ameaça para a reprodução das raças dos “grosseiramente degenerados”, então os médicos eugenistas lançam mão de técnicas como a esterilização para o controle de natalidade; a proposta de controle de natalidade da população negra era de “mais filhos dos capazes e menos dos incapazes” (Roland, 1995).

Raça, racismo e gênero foram igualmente importantes para a eugenia, pois era pelas uniões sexuais que as fronteiras entre as raças eram mantidas ou transgredidas. Por isso, a eugenia, gênero e raça ficaram ligados à política de identidade nacional.

Na atualidade as mulheres negras estão mais expostas a sofrer violências institucionais nos serviços de saúde, sendo aquelas que mais morrem de morte materna (60% dos casos), menos se beneficiam de analgésicos (medicação para dor) e de anestesia na hora do parto, assim como são menos tocadas pelos profissionais de saúde para realização de procedimentos preconizados na consulta de pré-natal. São as mulheres negras também que levam mais tempo esperando para serem atendidas e ficam menos tempo em atendimento com o profissional.

As práticas racistas realizadas no passado ainda se refletem na atualidade, pois o racismo institucional e a discriminação racial são determinantes no cuidado, no atendimento nos serviços de saúde e na abordagem policial. Estes são os legados que a ciência racista deixa na construção de uma sociedade hierarquizada racialmente, determinando lugares, oportunidades e privilégios, definindo humanos e não-humanos.

 

 

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Nilma Bentes

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Jul 22, 2016, 12:30:38 PM7/22/16
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Ex-empregada doméstica lança campanha nas redes sociais para denunciar abusos de patrões

Descrição: Descrição: Joyce Fernandes

Hoje professora, Joyce Fernandes criou hashtag e página após sucesso de post imagem: Joyce Fernandes

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"Joyce, você foi contratada para cozinhar para a minha família, e não para você. Por favor, traga marmita e um par de talheres e, se possível, coma antes de nós na mesa da cozinha; não é por nada; só para a gente manter a ordem da casa."

Essa foi, segundo a paulista Joyce Fernandes, de 31 anos, uma das frases que ouviu de uma ex-patroa em seu último trabalho como empregada doméstica, em 2009.

Hoje professora de História, ela decidiu criar a hashtag #EuEmpregadaDoméstica e uma página homônima no Facebook para denunciar o que chamou de "abusos dos patrões".

"Meu objetivo é provocar e dar voz a quem não tem. Esse tipo de tratamento desumano acontece entre quatro paredes e essas mulheres, a maioria negras, não têm com quem desabafar", conta ela à BBC Brasil.

"Quero expor o que está sendo varrido debaixo do tapete. É preciso humanizar a relação entre patrões e empregados. Muitas vezes, naturalizamos agressões e opressões. Isso está errado", acrescenta.

Cantora conhecida na cena de rap de Santos, onde vive, Joyce, que se apresenta com o nome artístico Preta-Rara, conta que a campanha ganhou força após ela postar um comentário em sua página no Facebook na última quarta.

"Venho fazendo terapia e, nesse processo de autoconhecimento, tive a ideia de compartilhar uma situação que havia sofrido na minha página no Facebook com a hashtag #EuEmpregadaDoméstica. Queria encorajar pessoas que talvez tivessem passado pela mesma coisa", lembra.

O sucesso instantâneo surpreendeu Joyce. "Fiquei chocada com a quantidade de comentários. Meu celular travou com tantas notificações. Criei, então, uma página no Facebook especialmente para compartilhar esses relatos", acrescenta.

A página, criada à meia-noite desta quinta-feira, já tem mais de 20 mil seguidores.

'Tratamento desumano'

Entre as centenas de relatos que recebeu, Joyce diz ter ficado particularmente comovida com o de uma empregada doméstica de 76 anos que teve de subir vários andares de escada porque o elevador de serviço do prédio onde trabalhava havia quebrado.

"O filho dela me contou que a mãe trabalha há 30 anos com a mesma família. Eles moram em um prédio de alto luxo. O elevador de serviço quebrou e, impedida de usar o social, ela acabou tendo de subir vários andares de escada", diz.

Segundo Joyce, a profissão de empregada doméstica deveria "acabar", pois se trata de um "resquício da escravidão".

"Mas enquanto isso não acontece, temos de lutar por um tratamento mais humano e igualitário. Não queremos ser da família. Também não queremos desrespeitar hierarquia. Queremos apenas um tratamento justo", afirma.

"Infelizmente, para nós, mulheres negras, ser empregada doméstica é algo hereditário. Minha mãe, minha tia e minha avó foram empregadas domésticas. Não é possível disassociar isso da nossa história de escravidão."

Joyce diz que ouviu de outra patroa que não deveria estudar por causa de sua "condição social".

"Eu lhe havia pedido para sair mais cedo para poder fazer um curso pré-vestibular. Ela se recusou a me liberar dizendo que meu destino era ser empregada doméstica, como todas as mulheres da minha família", afirma.

"Se conseguimos lidar com a limpeza do nosso corpo, por que não podemos limpar o nosso lixo? Por que precisamos de empregadas domésticas?", questiona.

Final feliz

Mas nem todas as experiências como empregada doméstica foram negativas: Joyce diz lembrar-se do apoio que recebeu de uma ex-patroa.
"Um dia estava limpando a prateleira de livros e ela me emprestou um deles. Era 'Olga', do escritor Fernando Morais. Ela me incentivou a retomar os estudos e a fazer a faculdade de História que eu tanto queria", diz.

Além de lecionar, Joyce criou um projeto de empoderamento de mulheres acima do peso, a Ocupação GGG ("Fizemos um ensaio na praia de Santos para combater a gordofobia"). E também usa a música como instrumento de mudança social.

"Tenho um projeto pedagógico pelo qual levo o hip hop para as escolas falando sobre questões sociais dentro de uma abordagem mais pessoal", afirma.

"Prefiro usar meu microfone para cantar ou recitar a fazer discursos. Acredito que consiga envolver mais pessoas", conclui
 

 

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