"Ai dos que coam mosquitos e engolem camelos" (MT
23,24)
Nota Pública sobre as declarações do
presidente do STF, Gilmar MendesA Coordenação
Nacional da CPT diante das manifestações do presidente
do STF, Gilmar Mendes,
vem a público se manifestar.
No dia 25 de fevereiro, à raiz da
morte de quatro seguranças armados
de fazendas no Pernambuco e de ocupações
de terras no Pontal do
Paranapanema, o ministro acusou os movimentos de
praticarem ações
ilegais e criticou o poder executivo de cometer ato ilícito
por
repassar recursos públicos para quem, segundo ele, pratica
ações
ilegais. Cobrou do Ministério Público investigação sobre
tais
repasses. No dia 4 de março, voltou à carga discordando
do
procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, para quem
o
repasse de dinheiro público a entidades que "invadem"
propriedades
públicas ou privadas, como o MST, não deve ser
classificado
automaticamente como crime.O ministro, então, anunciou a decisão
do
Conselho Nacional de Justiça (CNJ), do qual ele mesmo é presidente,
de
recomendar aos tribunais de todo o país que seja dada prioridade
a
ações sobre conflitos fundiários.
Esta medida de dar prioridade aos
conflitos agrários era mais do que
necessária. Quem sabe com ela aconteça o
julgamento das apelações dos
responsáveis pelo massacre de Eldorado de
Carajás, (PA), sucedido em
1996; tenha um desfecho o processo do massacre de
Corumbiara, (RO),
(1995); seja por fim julgada a chacina dos fiscais do
Ministério do
Trabalho, em
Unaí, MG (2004); seja também julgado o massacre de
sem
terras, em
Felisburgo (MG ) 2004; o mesmo acontecendo com o
arrastado
julgamento do assassinato de Irmã Dorothy Stang,
em
Ana pu (PA ) no ano
de2005, e cuja
federalização foi negada pelo STJ, em 2005.
Quem sabe com esta medida
possam ser analisados os mais de mil e
quinhentos casos de assassinato de
trabalhadores do campo. A CPT, com
efeito, registrou de
1985 a 2007, 1.117
ocorrências de conflitos com a
morte de 1.493 trabalhadores. (Em 2008, ainda
dados parciais, são 23
os assassinatos) . Destas 1.117 ocorrências, só 85
foram julgadas até
hoje, tendo sido condenados 71 executores dos crimes e
absolvidos 49 e
condenados somente 19 mandantes, dos quais nenhum se encontra
preso.
Ou aguardam julgamento das apelações em liberdade, ou fugiram
da
prisão, muitas vezes pela porta da frente, ou morreram.
Causa
estranheza, porém, o fato desta medida estar sendo
tomada neste momento. A
prioridade pedida pelo CNJ será para o
conjunto dos conflitos fundiários ou
para levantar as ações dos sem
terra a fim de incriminá-los? Pelo que se pode
deduzir da fala do
presidente do STF, "faltam só dois anos para o fim do
governo Lula"...
e não se pode esperar, "pois estamos falando de mortes" nos
parece ser
a segunda alternativa, pois conflitos fundiários, seguidos de
mortes,
são constantes. Alguém já viu, por acaso, este presidente do
Supremo
se levantar contra a violência que se abate sobre os trabalhadores
do
campo, ou denunciar a grilagem de terras públicas, ou cobrar
medidas
contra os fazendeiros que exploram mão-de-obra
escrava?
Ao contrário, o ministro vem se mostrando
insistentemente zeloso em
cobrar do governo as migalhas repassadas aos
movimentos que hoje
abastecem dezenas de cidades brasileiras com os produtos
dos seus
assentamentos, que conseguiram, com sua produção, elevar a renda
de
diversos municípios, além de suprirem o poder público em ações
de
educação, de assistência técnica, e
em ações comunitárias.
O ministro
não faz a mesma cobrança em relação ao repasse de
vultosos recursos ao
agronegócio e às suas entidades de
classe.
Pelas intervenções do ministro se deduz que ele vê na
organização dos
trabalhadores sem terra, sobretudo no MST, uma ameaça
constante aos
direitos constitucionais.
O ministro Gilmar
Mendes não esconde sua parcialidade e de que lado
está. Como grande
proprietário de terra no Mato Grosso ele é um
representante das elites
brasileiras, ciosas dos seus privilégios.
Para ele e para elas os que valem,
são os que impulsionam o
"progresso", embora ao preço do desvio de recursos,
da grilagem de
terras, da destruição do meio-ambiente, e da exploração da mão
de obra
em condições análogas às de trabalho escravo. Gilmar Mendes
escancara
aos olhos da Nação a realidade do poder judiciário que, com
raras
exceções, vem colocando o direito à propriedade da terra como
um
direito absoluto e relativiza a sua função social. O poder
judiciário,
na maioria das vezes leniente com a classe dominante é agílimo
para
atender suas demandas contra os pequenos e extremamente lento
ou
omisso em face das justas reivindicações destes. Exemplo disso foi
a
veloz libertação do banqueiro Daniel Dantas, também grande
latifundiário
no Pará, mesmo pesando sobre ele acusações muito sérias,
inclusive de
tentativa de corrupção.
O Evangelho é incisivo ao denunciar a
hipocrisia reinante nas altas
esferas do poder: "Ai de vocês, guias cegos,
vocês coam um mosquito,
mas engolem um camelo" (MT
23,23-24).
Que o Deus de Justiça ilumine nosso País e o livre
de
juízes como Gilmar Mendes!
Goiânia, 6 de março de
2009.
Dom Xavier Gilles de Maupeou
d'Ableiges
Presidente da Comissão Pastoral da
Terra
Maiores informações:
Assessoria de
Comunicação - Secretaria Nacional da CPT
Fone: 62 4008-6406/ 6412 /
6400
www.cptnacional. org.br
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