Sobre as eleições. Por Alder Julio Calado

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Isabelle Mendes

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Oct 14, 2010, 9:29:00 AM10/14/10
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muito lùcido...

 
 
 

ENTRE ANGÚSTIAS, BUSCAS E ESPERANÇAS, DIANTE DA MESMICE ELEITORAL

 

Alder Júlio Ferreira Calado

 

 

                Embora eu já não sofra o mesmo impacto, reconheço o caráter extraordinário – por vezes, esdrúxulo! – do clima de efervescência eleitoral que envolve, não apenas militantes de (quase) todos os matizes político-ideológicos, como também cidadãos e cidadãs comuns. As razões são múltiplas. Podem variar também quanto ao grau das motivações. Parecem-me no mesmo plano, pelo menos quanto à avaliação desse momento: a convicção de que essa via se lhes apresenta, senão como a única possível, a principal, em termos de esperança de mudança.

                Tem sido assim, a cada dois anos, e isto há décadas sucessivas. Ao término das eleiçõs de 2006, propus uma longa série de questionamentos acerca da relação custo-benefício das eleições nas democracias representativas. Nas eleições de 2010, não tem sido diferente. Ao final do primeiro e já no início do 2º turno, tem sido uma rotina difícil de acompanhar, inclusive pela ampla circulação de notas, de artigos, de reportagens, de notícias, cujo teor tem, em regra, puro intento de emulação e de apologia, de parte a parte.

Aqui, valem bem menos argumentos de realidade (se bem que, por vezes, estes também se façam presentes, como casos isolados), e bem mais recursos retóricos de “marketing” eleitoral. Escritos que costumam oscilar entre o denuncismo hipócrita da direita (mal) reciclada e a apologia acrítica de uma esquerda declarada, que teima em fazer vistas grossas ao continuísmo nas questões macro-econômicas, em favor dos grandes conglomerados transnacionais (sobretudo o das finanças), do agronegócio que devasta a Natureza e espolia as populações indígenas, quilombolas, camponesas, de pescadores, seringueiras e ribeirinhas, como sucede aos megaprojetos do tipo da Transposição e de Belo Monte...

                Embora se trate, quase sempre, de expedientes constrangedores e desagradáveis para quem não sente motivo para tanta empolgação, para tanta aposta, causam-nos menos estragos quando assinados por militantes comuns, especialmente aqueles que têm interesse a defender (cargos, funções remuneradas, convites vantajososo...). Isto vale para militantes individuais como vale também para sujeitos coletivos. O que me tem causado mais angústia é quando se trata de experientes intelectuais orgânicos que, esquecidos da militância de coerência feita em cima de princípios, nos anos 80, hoje emprestam sua energia e sua qualificação a causas, no mínimo, dúbias, apenas porque protagonizadas por companheiros dirigentes de outros tempos, que não cessam de mudar de lado, ainda que sigam disfaçando no discurso. Pelos frutos, podemos reconhecê-los...

E dói ainda mais, quando se trata de pessoas de referência, de orientação ético-religiosa, com reconhecida contribuição no campo da reflexão sócio-política, que têm sido tratadas como ícones, pela sua coragem profética, a quem vejo, nos últimos anos, sucumbirem ao risco de se transformarem objetivamente intelectuais de uma ética de circunstância. Todos estamos sujeitos a equívocos e deslizes. Os profetas e as profetisas, também, podem enfrentar lapsos de discernimento. “Qui existimat se stare, videat ne cadat”, alerta-nos Paulo, em 1 Cor 10, 12. Sem o continuado esforço da vigilância e da oração, eu posso, sim, tropeçar, deixando de transmitir o que o Espírito me manda dizer...

E o quê, concretamente, me faz tanto lamentar nesse modo de proceder? Sobretudo, ao me remeter a dez, vinte anos atrás, e constatar nossas análises, denúncias e anúncios proféticos em relação a deslizes e falcatruas cometidos em governos passados, e, hoje, cometidos semelhantes deslizes e falcatruas, não apenas silenciamos como também passamos a justificá-los, em favor dos novos protagonistas, em relação a quem preferimos passar a mão sobre a cabeça, pelo simples fato de serem “dos nossos”... Basta que façamos um simples exercício de rever nossos escritos de há dez, quinze anos atrás, sobre casos semelhantes aos de hoje, e qual a nossa postura de ontem e a de hoje ...

Tais são a ênfase e a frequência de de nosso respaldo ao Governo Lula e o apoio explícito à candidatura Dilma Rousseff, por exemplo, que, por vezes, nos “esquecemos” de argumentos sustentados há apenas menos de dois anos, como ocorreu a recente texto assinado por Leonardo Boff, “Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT”, em relação ao qual me senti no dever de perguntar ao autor de que ruptura se tratava. Transcrevo notas que escrevi, então. “As notas que seguem, brotaram do impacto contundente provocado por um recente artigo de Leonardo Boff, amplamente divulgado, inclusive em diferentes listas de contatos virtuais. O artigo intitula-se: “Consolidar a ruptura histórica operada pelo PT” (cf. www.adital.com.br de 30 de agosto de 2010). Trato de repercutir minhas impressões de leitura, desde meu lugar social, de um cristão militante que acompanha de perto a caminhada dos movimentos sociais populares, em especial os que lidam com um projeto alternativo de sociedade.
O primeiro impacto sobre mim nasce do próprio título, “consolidar a ruptura histórica operada pelo PT”. Já me sentindo mexido desde aí, prossigo, atento, curioso e aberto a outros olhares. Não sem esquecer, em momento algum, da grande reverência que nutro, junto com tantas e tantos, pela figura de Leonardo Boff, formador de tantas gerações, a quem eu também tanto devo. Tal reverência, em respeito mesmo aos ensinamentos por ele compartilhados, não exime de eventual dissenso. É bem o caso, sob certos aspectos, pelo menos.
Começo por destacar pontos de consenso. Compartilho fortemente sua avaliação do legado das elites brasileiras, que Darcy Ribeiro (figura tão cara a Leonardo Boff – e a recíproca também era verdadeira) estimava das mais cruéis do mundo. Vasta é a lista de suas atitudes perversas de exploração, de dominação, de discriminação, de marginalização. Não foi por ocaso que se deu o enorme atraso de mais de meio século com que, mesmo no plano estritamente jurídico-formal, a tal da abolição da escravidão. Enquanto entre 1808 e 1830, quase todos os países da América Latina romperam com suas ex-metrópoles, fazendo coincidir sua “independência” com o processo de abolição jurídica da escravidão, no caso do Brasil, como se sabe, fez-se a “ruptura” em 1822, mantendo-se a escravidão por mais 66 anos… Claro que isso teve e tem marcas profundas em nossa sociabilidade. Faço ressoar, forte e firme, sua profética indignação contra tais elites: “São vinte mil famílias que, mais ou menos, controlam toda a riqueza nacional, sendo que 1% delas possui 44% de todas as terras. Não admira que estejamos entre os países mais desiguais do mundo, o que equivale a dizer, um dos mais injustos e perversos do planeta.”
Coincidimos, também, no reconhecimento de outros estigmas perversos, decorrentes da relação entre a casa grande e a senzala, por meio do controle dos aparelhos do Estado e, em casos de risco de perder seus dedos, também recorrendo a sucessivos estratagemas de “conciliação” de forças antagônicas. Esse é um aspecto bem acentuado por Boff do legado das elites brasileiras. Há outros, claro. Nisso estamos de acordo.
Nossas diferenças incidem em pontos relevantes do artigo. Desde sua primeira tese, a sustentação de que o PT e o Governo Lula operaram uma ruptura com tais elites, tratando-se agora de consolidá-la. Em algum segmento delas, até concedo. O fato de reconhecer e de saudar avanços pontuais na gestão do Governo Lula não nos deve fazer esquecidos de suas relevantes inconsistências, com conseqüências graves sobre as classes populares. É claro que o amplo apoio decorre das políticas compensatórias. Quem nada tinha antes, e agora recebe umas migalhas do orçamento, agora aplaude. É compreensível, e não me queixo nem cobro dos segmentos mais abandonados da população. Cobro, sim, de quem tem o dever de inverter prioridades, a começar na repartição do bolo orçamentário. A este respeito, deixo no ar as seguintes perguntas:
- É razoável falar-se em ruptura em relação à política macro-econômica, da qual são precisamente essas elites e seus aliados os grandes beneficiários?
- De que os grandes grupos financeiros têm a queixar-se do Governo Lula, durante o qual tanto lucraram. Momento houve em que foi o próprio Presidente que se sentiu obrigado a fazer declaração pública, num tom algo como “Calma lá! Vocês nunca ganharam tanto antes!”…
- Que fatia do orçamento tem sido destinada à Reforma Agrária, no primeiro e no segundo Lula, e que fatia tem sido concedida ao agronegócio? Não faz muito, lia uma publicação cuja manchete era mais ou menos assim: “Agronegócio recebe 19 vezes mais verbas, no Governo Lula, do que o agronegócio”…
- E o quê dizer da política ambiental do Governo Lula? Nela são, mais uma vez, os grandes grupos econômicos que se locupletam de projetos desastrados, em flagrante desrespeito aos povos indígenas, às comunidades quilombolas, aos povos ribeirinhos, aos pescadores, aos camponeses, sem esquecer a terrível agressão cometida contra a Mãe-Natureza. A esse respeito, chamo curiosamente a atenção para uma avaliação feita pelo próprio Leonardo Boff sobre o PAC, em particular sobre a política ambiental do Governo Lula, por ocasião do XII Encontro Intereclesial das CEBs, ocorrido em Rondônia, em 2009. Cito o próprio Leonardo Boff, numa entrevista sua publicada por Adital, em 27 de julho de 2009, sob o título “Boff: PAC vai na contramão da história”” (cf. www.adital.com.br), a começar pelo que avalia ser o PAC
“Nem é desenvolvimento, é um modelo velho do século XIX, tem que ser criticado, submetido à discussão pública, porque ele vai implicar na devastação da natureza com as 57 hidrelétricas que vão ser construídas na Amazônia.

Vai ser um impacto terrível nas florestas, nos indígenas, nos seringueiros, nos ribeirinhos. (…) Se impõe um modelo econômico altamente destrutuvo e capitalista, sem escutar aqueles que vão ser as vítimas. Então, acho um projeto profundamente equivocado, que vai na contramão da história.” E nessa linha, segue
- No plano ético-político, é razoável silenciar sobre a participação vergonhosa do PT e do próprio Governo Lula, diante de tantos episódios graves? E aqui não me tocam os argumentos das elites, que não têm moral alguma de cobrar nada de ética na política. Refiro-me à agressão inaceitável – e nada republicana! – cometida contra a própria sociedade, e em benefício dos donos do partido e seus aliados.
- Não bastasse essa experiência de escândalos ético-políticos, vem mais recentemente a imposição de alianças espúrias, indo da família Sarney a Collor de Melo; do fisiológico PMDB aos partidos de aluguel, enfiando goela abaixo da própria base e de lideranças históricas petistas, entre as quais Manoel da Conceição. Que ruptura é essa?

Ainda que a vitória eleitoral de Dilma Rousseff estivesse a perigo – tudo indica, e já há um bom tempo – vitória no primeiro turno, isto não justificaria abrirmos de critérios consistentes. Não seria recomendável nem ética nem pedagogicamente. Disso seremos cobrados.
São apenas alguns elementos avaliativos que compartilho fraternalmente, convencido cada vez mais de que bem outros são os caminhos de nossa Utopia: “Nem o passado como era, nem o presente como está!”
            Nem à ação profética nem ao exercício intelectual com a desejável liberdade não parece de bom alvitre uma aproximação orgânica com o poder. É fundamental ao discernimento o mínimo de distância crítica, o que nada tem a ver com pretensa neutralidade.
            Uma busca que se tem revelado fecunda é, sim, a que brota de uma aproximação orgânica com os “de baixo”, em suas lutas de libertação, desde que seja deles o protagonismo. Ajudá-los nessa direção é papel decisivo para quem aposta em mudanças profundas e alternativas à lógica de mercado de que o Estado e seus aparelhos são reféns. Vale, sim, a pena investir nas “correntezas subterrâneas”, buscado, dia após dia, pular fora, no que estiver ao nosso alcance, da lógica desse sistema. E pular fora significa, por exemplo, superar as pautas oficiais, investir em pautas que estão sendo trabalhadas em diferentes experiêcias protagonizadas pelos “de baixo”. “Nem o passado como era, nem o presente como está”. O desafio é investir numa nova cultura política, alternativa ao mercado e ao Estado capitalistas, apostando em que outra Cidadania é possível.
 

João Pessoa, 12 de outubro de 2010.


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