O que cabe à classe trabalhadora nas eleições?
08/07/2009
Ademar Bogo
Coordenação Nacional do MSTQUANDO SURGIU a propriedade privada na sociedade primitiva, no mesmo instante originaram-se as classes sociais. Os proprietários, para garantirem a ordem, foram obrigados a formar a estrutura de administração pública, conhecida como Estado, que se elevou com funcionários, exército e governantes, e, para se sustentarem, inventaram os impostos. A partir disso, surgiu a política como prática de disputas entre as forças que apresentavam e defendiam interesses diferentes.
Em nosso tempo, cada disputa, por mais simples que seja, pode ter vários interesses em jogo. Por esta razão é que se torna necessária a combinação das táticas ou das ações que ampliem as alianças e o alcance dos combates contra a força inimiga.
Para
planejar as
operações táticas, cada força deve caracterizar o seu opositor e decidir se pretende eliminá-lo ou apenas tirar-lhes alguns meios que lhes garante o poder.
Quando os processos de disputas se prolongam e se fecham no uso de apenas algumas poucas ações, tendem a perder a eficácia. As ações deixam de ser compreendidas como táticas e se convertem em meras fórmulas burocráticas.
A diferença entre táticas e fórmulas é que as primeiras se combinam entre si na busca da derrota definitiva ou eliminação do inimigo; as outras funcionam como receitas para serem usadas do mesmo jeito em todos os momentos. Exemplos de fórmulas: para enfrentar o latifúndio, a ocupação; para enfrentar o Estado e o capital, as eleições. Dessa maneira, com o decorrer do tempo, os inimigos vão colocando obstáculos que, por si só, aquelas fórmulas não conseguem romper. Sendo assim, vai se esgotando o potencial da força, seja pelo seu
enfraquecimento ou por sua domesticação.
Nos últimos tempos, o MST tem utilizado intensamente as duas modalidades de ações: ocupações e eleições, para supostamente alcançar o objetivo maior que é a Reforma Agrária, como se uma estivesse umbilicalmente ligada à outra. Mas já faz algum tempo que ocupar latifúndios não ataca mais diretamente o capital, e as disputas eleitorais não ameaçam a propriedade nem o Estado.
A mudança de momento histórico e a maneira como são feitas as disputas transformaram as táticas em simples fórmulas, absorvidas pela força contrária que, em certos casos, principalmente nas disputas eleitorais, nos coloca não só como força aliada, mas também como força auxiliar da classe burguesa, na implementação do projeto do capital.
O esgotamento da capacidade da força de combate contra a propriedade privada e o poder político acontece quando ela começa a se descaracterizar enquanto
força de combate e passa a ser força de conciliação. A confusão de que, em certas questões, somos inimigos e em outras somos aliados leva a ignorar profundamente a natureza, a ideologia e os interesses da classe dominante.
Vitória e derrota Por outro lado, os equívocos nas escolhas das táticas ou perda de eficiência das mesmas estão presentes em todos os períodos históricos. Podemos encontrar registrados nos clássicos, já em 1848, quando o proletariado era ainda uma força auxiliar da burguesia, para realizar a revolução burguesa. No caso da Alemanha, Karl Marx alertava que: “Uma certa manhã, a esquerda poderá descobrir que a sua vitória parlamentar e a sua derrota real, coincidem”.
Hoje, não tendo mais revoluções burguesas para serem realizadas, somente as revoluções socialistas, os trabalhadores e as massas populares não podem mais se colocar como força auxiliar de ninguém, a não ser de si
mesmas.
Nas lutas de classes atuais, muitas ações podem se converter em perigosas armadilhas. Nesse caso, mais do que discutir se Marx era a favor ou contra as disputas eleitorais, é compreender que, quando a classe trabalhadora, utilizando mecanismos burgueses, ilusoriamente imagina que obteve uma vitória, mas a classe burguesa não sofreu nenhuma perda significativa, derrotada foi a classe trabalhadora.
Quando o uso das táticas para alcançar um objetivo mais amplo se converte em apenas uma fórmula, no caso a disputa eleitoral, a classe dominante deixa de ser combatida e, mesmo estando do lado oposto da disputa, mantém a classe trabalhadora como força auxiliar. Isto porque, mesmo que venha a perder temporariamente o governo da prefeitura, do estado ou do país, continuarão com suas propriedades, com a mídia, com as instituições jurídicas e financeiras a serviço de seu projeto. Por sua vez, “a esquerda” que pensou obter
uma vitória, terá de prestar os serviços obrigatórios, aplicando os recursos dos impostos para fazer o Estado funcionar perfeitamente contra a própria classe que lutou para chegar ao governo. A classe trabalhadora e as massas
populares, mesmo em períodos não revolucionários, deixam de ser forças auxiliares quando combinam as táticas para tirar a força da classe dominante em várias frentes de batalha. Mesmo que não vivamos uma situação revolucionária, o espaço da política deve ser utilizado para criar e interligar conflitos e não para amenizá-los.
Dessa maneira refletiu Ernesto Che Guevara, quando percebeu que as fórmulas utilizadas na América Latina, na década de 1960, estavam enfraquecendo as táticas. Não teve dúvidas em afirmar em seus textos revolucionários que os avanços representavam apenas a conquista de “pequenas colinas dominadas pelo fogo da artilharia inimiga”.
E quais eram estas colinas?
“...algum avanço eleitoral, aqui; dois deputados, um senador, quatro prefeituras; uma grande manifestação popular que é dissolvida a tiros; uma eleição que se perde por menos votos que a anterior; uma greve que é vitoriosa; dez que são derrotadas; um passo que se avança, dez que se retrocedem; uma vitória sindical aqui, dez derrotas acolá. E no momento
preciso, as regras do jogo são mudadas e é necessário reiniciar”.
Neste momento em que se antecipam as campanhas eleitorais, submetendo todas as demais disputas a esta fórmula restrita, a classe trabalhadora, as massas populares e os movimentos sociais organizados são chamados a refletir e a buscar maneiras de rearticular as táticas que elevem a qualidade das disputas e ultrapassem a fórmula proposta.
Se ainda hoje a propriedade, as classes, o Estado e a política são elementos que permanecem articulados na defesa dos mesmos interesses, é importante rearticular os
meios de enfrentamento para evitar, apesar do esforço, ser apenas uma força auxiliar de sustentação do projeto político do capital.