Gabriela Carreiro
unread,Nov 28, 2011, 8:10:25 AM11/28/11Sign in to reply to author
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Matéria de Julaina Sayuri, publicada originalmente no jornal O Estado de S. Paulo no dia 13 de novembro de 2011.
Quando era um jovem de 18 anos, estudante de
ciências sociais na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da
Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), ainda nos tempos da Rua Maria
Antônia, ele assistia às conferências de Florestan Fernandes, Fernando
Henrique Cardoso, José Arthur Giannotti, Otávio Ianni e Paul Singer,
mentores que o convidaram a participar do prestigiado núcleo de estudos
de O Capital. Aos 26, pupilo de Lucien Goldmann e laureado sociólogo
pela Sorbonne, em Paris, foi estudar hebraico num kibutz e lecionar
história na Universidade de Tel-Aviv, em Israel. Aos 30, com o Maio de
68 sacudindo a França, recebeu (e aceitou) um convite para lecionar na
Universidade de Manchester, na Inglaterra. Em 1970, ainda longe dos 40,
descobriu-se persona non grata no Brasil do general Médici, tornou-se um
judeu paulistano sem passaporte brasileiro e se estabeleceu
definitivamente em Paris para estudar Marx, Lukács e Guevara.
Agora, rejuvenescido aos 73, o sociólogo Michael Löwy anda entusiasmado
com a volta dos estudantes às ruas brandindo livros de Marx e Walter
Benjamin. “Não pode haver um movimento que não se refira às lutas, às
vítimas, aos mártires e aos pensadores do passado porque nós nunca
partimos do zero”, diz. Objeto de estudo em As Utopias de Michael Löwy:
Reflexões sobre um Marxista Insubordinado, organizado por Ivana Jinkings
e João Alexandre Peschanski (Boitempo, 2007), organizador de Revoluções
(da mesma editora) e atualmente pesquisador do Centre National de la
Recherche Scientifique (CNRS) de Paris, nas últimas semanas Löwy
acompanhou o noticiário da ocupação (e a posterior desocupação) da
reitoria da USP. Interpretou como “faíscas” o clamor dos estudantes
contra a presença policial e os berros por liberdade para se fumar
maconha no câmpus. “O que se passa é muito maior que isso. Há uma
indignação com a ordem das coisas no mundo. Um sentimento de cólera. E,
diante dessa percepção de injustiça, os estudantes têm um papel
essencial, começando movimentos de protesto. Não podemos subestimá-los.”
A seguir, a entrevista que Löwy concedeu ao Aliás, por telefone, de sua
residência na capital francesa.
Estudantes ocupando praças em Nova York, Madri, ruas
em Santiago, a reitoria na USP. Estamos diante de um arrastão de
rebeldia ou são episódios isolados?
Não são episódios
isolados. São parte de um processo internacional que lembra os anos
1960. Quando há um sentimento de injustiça e insatisfação na sociedade,
os estudantes são os primeiros a se organizar e a protestar. Agora, na
maioria dos casos, seja na Europa, no Chile ou nos Estados Unidos, não
são apenas estudantes. É a juventude em geral. Os estudantes
naturalmente têm um papel importante, mas é um movimento bem mais amplo,
ao qual vão se agregando outros grupos – desempregados, trabalhadores,
sindicalistas. Torna-se algo muito plural. O que há de comum é a
indignação. Essa palavra está servindo como um sinal de identidade dos
protestos. Há uma indignação muito grande que pode estourar por com um
pretexto mínimo. No caso de São Paulo foi uma intervenção policial na
USP. Mas poderia ter sido outra faísca.
Indignação com o quê? No caso da USP, pode-se ter a impressão de que é com a impossibilidade de fumar maconha no câmpus.
É
muito maior que isso. Há uma indignação com a ordem das coisas no
mundo. Um sentimento de cólera – e cólera com alta qualidade ética e
política. O começo de qualquer movimento ou mudança social sempre se dá
com um estado de espírito indignado, a começar na juventude. E fácil de
entender o porquê de tanta indignação. Estamos numa situação em que a
ordem social parece cada vez mais irracional, promovendo desigualdades
gritantes, promovendo os excessos do mercado financeiro, a destruição do
meio ambiente. As razões para a indignação são evidentes. Têm a ver com
o sistema. Por mais que comece com uma história de maconha e confronto
com a polícia, acaba se transformando em um protesto antissistêmico. Em
última análise, o objeto de indignação é o poder exorbitante do capital
mostrando a sua irracionalidade e desumanidade. Muitas vezes, isso é
formulado explicitamente nesses termos. Outras, não. Mas a questão está
subjacente em todos os protestos recentes. Nós, sociólogos, precisamos
tentar entender por que isso não começou mais cedo. Porque as razões
para a indignação já existiam. Pelo jeito, foi necessário uma acumulação
de descontentamento e um sentimento de que não é mais possível tolerar
tal situação. E de que é preciso se revoltar, sabendo ou não se se
conseguirá impor alguma mudança. Há um imperativo categórico de revolta,
no sentido kantiano. Há coisas que você precisa fazer, mesmo sem ter
certeza de em que vai dar. E quanto maior a participação ativa dos
jovens, dos estudantes e de outros setores, cria-se uma relação de
forças que pode pelo menos impor limites ao sistema e, sobretudo, criar
uma tomada de consciência. Isso talvez seja o mais importante: a tomada
de consciência. O Ocupe Wall Street não conseguiu arranhar o capital
financeiro, mas despertou consciência crítica em grandes setores. Eis um
evento importante. Histórico até.
Ocupações, greves e passeatas ainda são formas eficazes de protesto?
São
as formas clássicas de protesto, que reaparecem sempre. Mas também há
formas novas surgindo. Por exemplo, a comunicação através dos meios
eletrônicos, como o Facebook e o Twitter, que permitem uma mobilização
muito rápida. E as mobilizações de agora têm um caráter festivo, lúdico,
com música, dança, festa, o que é próprio da expressão da juventude. O
Facebook e o Twitter têm lugar importante, mas não é o caso de
mitificá-los. Eles não bastam. Para que alguma coisa aconteça, você tem
que sair de sua casa, descer à rua, reunir-se com outras pessoas, ir lá,
brigar, protestar, talvez enfrentar a polícia. Então, o Facebook é um
suporte, não vai substituir a ação direta das pessoas.
A juventude tem voz além do Facebook? Ela se sente representada politicamente?
Pouco,
porque a representação política está nas mãos de setores sociais mais
acomodados e de “mais idade”. Os jovens não se sentem representados. Há
uma grande desconfiança em relação aos partidos e às instituições
políticas existentes. Há certo rechaço a isso, muitas vezes com razão.
Uma atitude cética diante da política institucional. Mas isso não quer
dizer que haja desinteresse por eventos políticos. No meu tempo de aluno
da FFLCH, nos anos 50, poucos estudantes achavam necessário ou sentiam
vontade de se engajar em organizações políticas. Havia politização,
mobilização em torno de determinadas causas, mas atividade política
organizada era para uma minoria. Tenho a impressão de que atualmente a
politização e a militância política são maiores do que nos anos 50, mas
menores do que nos 60 e 70, durante a ditadura militar.
E podemos interpretar os protestos como um grito por participação política?
Analisemos
o caso do Chile, que teve o movimento mais amplo até agora. Não é só um
grito, é um protesto em cima de uma questão concreta: a privatização do
ensino público desenvolvida no governo Pinochet, que não foi mudada
pelos governos de centro-direita ou centro-esquerda que o sucederam.
Trata-se de uma questão que concerne a todos os estudantes: o quase
desaparecimento do ensino público gratuito, os preços exorbitantes da
educação. E isso se coloca também no Brasil, na Inglaterra. Por toda a
parte há essa tendência de transformar a educação em mercadoria, em
indústria que deve dar lucro. E assim vai desaparecendo a educação
pública gratuita, que era uma conquista de muitos anos de luta. O
protesto dos estudantes chilenos começou criticando a privatização do
ensino e depois tomou um caráter mais amplo, porque eles perceberam que
os problemas na educação são parte de uma orientação geral de um sistema
neoliberal. Notaram que esse modelo de educação é inseparável de
questões maiores e, assim, o movimento ganha apoio de outros setores da
sociedade.
A ideia de autonomia universitária está sendo colocada em xeque?
Autonomia
universitária significa que o papel da universidade é transmitir
conhecimento, cultura, ciência – e não mercadorias. Quando o papel do
ensino se resume a permitir que estudantes adquiram um diploma, ou a
prepará-los para encontrar um posto a serviço do management, do
marketing, perde-se a qualidade humana, cultural e pedagógica da
universidade. As universidades estão se tornando meras empresas voltadas
para a produtividade, a racionalidade instrumental mercantil. E,
obviamente, boa parte dos estudantes e professores resiste a isso,
defende o estatuto da universidade como lugar de produção de cultura e
conhecimento, com autonomia em relação ao mercado, à economia e às
empresas.
No caso da USP, os estudantes se tornaram massa de manobra de partidos e sindicatos?
Não,
pelo contrário. Há uma relação de desconfiança dos estudantes em
relação aos sindicatos e sobretudo aos partidos. Uma parte do movimento
sindical, geralmente a parte mais radical, se aproxima do movimento
estudantil em busca de aliança. Mesmo que haja certo interesse dos
jovens nessa aliança, ela não se dá com facilidade, porque os objetivos
dos sindicatos são mais limitados. Os ritmos não são os mesmos, a
cultura política não é a mesma. Então, há uma diferença que dificulta
essa aliança. Mas, para os estudantes, é importante conseguir criar uma
situação em que os sindicatos resolvam participar da mobilização. Isso
tem acontecido no Chile, na Espanha, na Grécia, nos EUA. Longe de serem
manipulados pelos sindicatos, esses movimentos de protesto têm grande
autonomia. Eles buscam estabelecer a aliança, mas não no sentido de se
tornarem apêndice dos sindicatos. Com os partidos políticos é mais
complicado, porque a desconfiança é maior. Não há um único partido que
controle ou manipule esses movimentos mundo afora.
Ao serem presos, estudantes da USP brandiam livros de
Marx, Foucault e Walter Benjamin, imagens de Mao e Che Guevara. Essas
referências continuam atuais?
É normal que cada vez que
apareça um movimento de crítica antissistêmica as pessoas se refiram a
personagens e pensadores que já exprimiram essa crítica. Então, Marx
aparece como referência importante, porque ele foi o primeiro a elaborar
uma crítica radical do sistema capitalista. Em muitos pontos, essa
crítica é até mais atual hoje do que na época em que ele a escreveu.
Fico feliz de saber que há estudantes que se referem ao pensamento
desses autores. Benjamin tem uma reflexão profunda sobre o que é a
modernidade capitalista, a ideologia do progresso. Ele dá elementos que
Marx não dava. Guevara também é importante, sobretudo, como homem de
ação e símbolo do compromisso ético com os ideais de libertação e
emancipação. Tudo isso é necessário. Não pode haver um movimento,
qualquer que seja, que não se refira às lutas, às vítimas, aos mártires e
aos pensadores do passado, porque nós nunca partimos do zero. Mas,
evidentemente, isso não basta. Precisamos também pensar com novos
instrumentos teóricos para dar conta das questões que estão aparecendo
neste começo do século 21. Por exemplo, a catástrofe ecológica que está
se perfilando. Ela precisa de uma reflexão atual, utilizando elementos
teóricos mais atualizados.
O sr. é um estudioso das revoluções dos séculos 19 e 20. Qual foi o papel dos jovens e estudantes nelas?
Depende,
porque as revoluções são diferentes entre si. Em geral se pode dizer
que a juventude sempre jogou um papel importante em qualquer movimento
revolucionário. É uma constante. Movimentos revolucionários são levados
por jovens, muitas vezes. Agora, se são estudantes ou não, isso depende
da época, do país. Na Revolução Russa os estudantes não tiveram muito
espaço. Na Revolução Cubana, sim. O Maio de 1968 em Paris foi um
movimento totalmente estudantil. E um dos gatilhos foi a invasão da
Sorbonne pela polícia. Na França, ainda hoje, a polícia entra raramente
na universidade. Justamente porque se sabe que há o estatuto de
autonomia das universidades e intervenções policiais provocam a reação
dos estudantes. A polícia simboliza o autoritarismo do Estado contra a
juventude, contra os estudantes. Esse choque com a polícia é frequente
e, em certas circunstâncias, se transforma na faísca que mencionei
antes, a que faz um protesto eclodir. Não podemos subestimar o papel dos
estudantes nas revoluções.
Os da USP foram chamados de bichos grilos de grife,
filhinhos de papai, rebeldes sem causa, maconheiros mimados… Como o sr.
avalia esse tipo de tratamento?
Qualquer questionamento da
ordem sempre é ridicularizado. Agora, sobre os estudantes serem meninos
ricos… É uma mitificação, porque a maioria deles é de origem popular.
Não são filhos de latifundiários, como eram os estudantes de antes da 2ª
Guerra Mundial. Hoje em dia, a educação se tornou mais popular. Sobre a
maconha: na minha opinião, não há razão para transformar o consumo de
maconha em assunto de polícia. A maconha não é nem melhor nem pior do
que o tabaco e a cerveja e tem um caráter bem diferente das drogas mais
perigosas, como cocaína e crack. Então, essa reivindicação de
descriminalizar o consumo da maconha me parece bastante razoável. Mas
isso foi só um pretexto, porque em cima do tema se armou uma briga e,
quando se manifestou o autoritarismo da polícia e do governo, aí assim o
protesto cresceu. Muitos estudantes que aderiram à manifestação não o
fizeram devido à questão da maconha e sim devido à repressão
indiscriminada e arbitrária sobre alunos.
A sociedade brasileira clama por ordem?
Não
é a sociedade em seu conjunto que se volta contra os estudantes com
esse discurso de ordem e repressão. É a imprensa e os representantes da
ordem e do governo. Eu me pergunto se parte da população não simpatiza
com esses protestos da USP. Pelo menos foi o caso em outros países onde
protestos dos jovens e estudantes se tornaram a expressão de um grande
movimento popular. Não estou dizendo que isso vá acontecer já no Brasil,
mas não há essa dicotomia entre jovens e estudantes de um lado e o
restante da sociedade do outro. Essa separação é do interesse da classe
dominante, dos governantes mais reacionários, como tentativa de
mobilizar a população contra os estudantes.
O governador Geraldo Alckmin disse que os estudantes da USP precisavam de uma aula de democracia…
Nós
sabemos que no Brasil não há nada mais democrático do que a Polícia
Militar (risos). Ela tem uma tradição de várias dezenas de anos de
democracia, não é? Democracia do cassetete – que não acho que deva ser a
forma mais avançada de democracia. Não deve ser muito sério o argumento
do sr. Alckmin. Uma intervenção policial brutal não tem nada de
democrático.
Alguns autores contemporâneos, como o irlandês John
Holloway, valorizam a articulação dos novos movimentos. Ao contrário do
que dizia Marx, agora é possível mudar o mundo sem tomar o poder?
Holloway
me deu o livro dele e pediu para que eu fizesse uma resenha, sabendo
que eu iria criticá-lo. O livro Mudar o Mundo sem Tomar o Poder tem
muitas ideias interessantes e toda a crítica que ele faz ao sistema me
parece muito profunda. Mas acho que a proposta dele não faz sentido,
porque qualquer ação social e política inevitavelmente implica uma forma
de poder ou de contrapoder. O que se coloca é garantir que esse poder
seja efetivamente democrático. O movimento, ele mesmo, tem formas de
poder, de organização e de gestão democrática. Protesto, revolta e
revolução, tudo isso não pode existir se não houver uma organização de
uma forma de poder. Não podemos contornar a questão do poder, porque na
política não existe vazio. A necessidade é que esse poder seja
democrático. Essa é a resposta.
No livro Revoluções, o sr. destaca como os
revolucionários muitas vezes são vencidos pela história. Os estudantes
de hoje serão vencidos?
Não posso dizer. Mas podemos já
constatar, nos países árabes concretamente, que esses movimentos de
protestos da juventude não foram vencidos. Eles derrubaram duas
ditaduras sinistras, na Tunísia e no Egito, com uma mobilização
desarmada. Não estou dizendo que isso será uma regra, mas mostra que não
há nenhuma fatalidade. As revoluções são sempre imprevisíveis,
acontecem onde ninguém espera.
Fonte:
http://boitempoeditorial.wordpress.com/2011/11/22/o-transbordo-do-copo-de-colera-entrevista-de-michael-lowy-sobre-a-desocupacao-da-reitoria-da-usp/
Acesso: 23/11/11