A nova poesia paraibana pede passagem. Os poetas Ícaro Maxx e Renálide Carvalho são atrações, hoje, do projeto Tome Poesia, Tome Prosa. É a primeira vez que o projeto abre espaço para jovens autores, ainda não consagrados dentro do cânone literário do estado. A outra atração da noite é o escritor Ronaldo Monte, autor que é definido por Neroaldo Pontes como um mestre das histórias curtas. O Tome Poesia, Tome Prosa acontece no restaurante Sagarana, em Cabo Branco, às 20h30, e tem a coordenação do poeta e escritor Antônio Mariano. É uma noite que promete muita ousadia, performances e talentos literários.
Íkaro Maxx é estudante do curso de Filosofia e tem apenas 24 anos. Lançou um livro – Um Cristo cuspido no espelho do século -, publicado pela Fundação de Cultura do Município, em 2007. Segundo conta, começou escrevendo poemas em guardanapos e contas de bar, criando uma nova atitude diante
dos materiais para a criação poética. Documentava vivências e discorria filosoficamente sobre tudo. Daí surgiu seu primeiro livro-sacola chamado "Diário Infame de um promissor bêbado preguiçoso & aborrecido". Depois desse, vieram outros diários que mais tarde consideraria como inapropriados. Viveu como imigrante em Paris e Londres.
A poesia de Ícaro é muito influenciada pelos beatniks americanos. Aliás, à respeito disso, o poeta paulista Ademir Assunção, que conheceu Ícaro quando esteve em João Pessoa, fez o seguinte depoimento sobre o poeta paraibano. "Roberto Piva vive dizendo que eu e Jotabê Medeiros somos os últimos beatniks. Porque gostamos de botar o pé na estrada. Piva é exagerado — como Cazuza. Beatnik é o garoto, poeta, que conheci em João Pessoa: Íkaro Maxx. Completamente chapado. Um vulcão de poesia. Uma mistura de Neal Cassady com Arthur Rimbaud. Naquela base: louco pra falar, louco pra viver... Numa
leitura de poemas na livraria Cultura, em Recife, ele disse ao microfone que leria um poema chamado As Estupradas. Soltou uns urros terríveis. Depois se sentou na plateia e riu como um moleque endiabrado."
De fato, Ícaro é totalmente imprevisível no palco. Performático, sobre consegue surpreender o público em suas apresentações.
Já Renálide Carvalho, outra atração jovem da noite, tem 25 anos e é formada em Letras pela Universidade Federal da Paraíba. Além de poeta, é atriz e nasceu em Jacaraú, interior do estado. Renálide lançou o livro "Poemas a Vapor", também através da Fundação de Cultura do Município.
Autores que assume diversas influências em sua poesia, principalmente dos concretistas e das vanguardas que surgiram após os anos 50, Renálide recebeu entusiasmados elogios de Lau Siqueira, poeta e ex-presidente da Funjope. "Há tempos venho me impressionando muito positivamente com a poesia de
Renálide Carvalho", disse. "Não tenho dúvidas que essa menina chegou para ficar na cena literária. E guardem esse nome porque certamente ainda será muito comentado nos meios literários brasileiros. Ela é de um rigor e de uma inventividade pouco comum aos jovens poetas".
O terceiro convidado da noite é Ronaldo Monte, alagoano nascido em 1947 e já bastante conhecido dos meios literários paraibanos. Monte é poeta, contista, cronista, romancista e também compõe letras de música.
O currículo é extenso. Publicou, em 1983, "Pelo canto dos olhos", seu primeiro livro de poemas. Em 1996, publicou "Memória curta", livro de crônicas e contos curtos, pela Editora Universitária da UFPB. No ano 2000, publicou o livro de poemas "Tecelagem noturna", também pela Editora Universitária. Em 2003, publicou "Pequeno Caos", livro de crônicas e textos curtos, pela Editora Manufatura. Em 2004, publicou "World Trade Center", poema escrito com
Pedro Osmar. Em junho de 2006 lançou o romance "Memória do fogo" pela Editora Objetiva, do Rio de Janeiro.
Mora em João Pessoa desde 1978, o que o faz paraibano por opção e tempo de serviço. Além de poeta, contista, poeta e romancista, é psicanalista e professor, com Doutorado em Teoria Psicanalítica pela UFRJ. É autor de crônicas e ensaios publicados em jornais de João Pessoa.
Sérgio Castro Pinto assim se pronunciou sobre Monte: "Ronaldo Monte montou a sua oficina de escrever no porão. E, como bom e ousado psicanalista que é, escreveu a partir daí o excelente "Memória do fogo" (Editora Objetiva Ltda, Rio de Janeiro, 2006), cujos personagens, "Precocemente fracassados, perdidos em algum ponto do Nordeste Brasileiro - conforme bem o diz Rosa Amanda Strausz -, perderam-se também do fio que conduz à vida. Em volta do fogo, partilham apenas da cachaça, água que queima". Os estranhíssimos viventes de Ronaldo são sombras
que só ardem e "brilham" ao pé das fogueiras acesas. E embora de carne e osso, parecem fantasmas saídos de um livro-porão: este "Memória do fogo", um dos grandes lançamentos do ano de 2006."
Linaldo Guedes