Idéias para o grupo....

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Ikaro Max

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Mar 25, 2009, 6:08:15 PM3/25/09
to rodrigof...@hotmail.com, rena...@hotmail.com
 
 
Ae, galera...
 
conversando com a Renálide eu tive um insight para o nome da Tribo/Trupe/Gang/ Cia./Grupo de Teatro Experimental-Ácido-Libertário... pensei em homenagear o verdadeiro criador do Teatro do Absurdo... muito tempo antes de Alfred Jarry, Ionesco e o pessoal das Europa.
 
Qorpo Santo.... ou Cia. Qorpo Santo... ou sei lá que merda pode ser... (http://www.biblio.com.br/conteudo/qorposanto/molduraobras.htm - algumas obras dele disponível para quem quiser dar uma sacada)
 
Aqui vão boas informações sobre esse cara que escreveu, ardeu e morreu marginalizado - até hoje ainda é visto com maus olhos, quando não é ignorado.
 
Passem para o pessoal interessado em se unir pra montar os "escândalos".
 
Bando de pervertidos!!
Abraços!
 
IkaRo MaxX
 
 
 
 

Ensiqlopédia maluca

Teatro Completo reúne as comédias do original (e esquisito) gaúcho Qorpo-Santo
Jerônimo Teixeira
Avani Stein
As Relações Naturais, em montagem com bonecos nos anos 80: foram poucas as encenações das peças do autor
 
Ele era o louco da vila. Suas maluquices incorporam-se ao folclore de Porto Alegre. Consta, por exemplo, que ele não usava a porta da casa, preferindo entrar sempre pela janela. Também seus versos – "de pé quebrado" e "sem nexo", segundo um cronista da época – foram motivo de chacota. Nos anos 20, alguns críticos citaram esses poemas como precursores do modernismo. Para espinafrar os modernistas, bem entendido. Mas, com o tempo, idéias como essa deixaram de ser piada e começaram a ser levadas a sério. Hoje, há quem aponte sua obra como precursora do surrealismo do francês André Breton e do teatro do absurdo do romeno Eugène Ionesco. Esses paralelos talvez sejam arbitrários ou abusivos, mas não há dúvida de que José Joaquim de Campos Leão Qorpo-Santo foi um autor original, como poderá constatar o leitor de seu Teatro Completo (Iluminuras; 336 páginas; 39 reais). É a primeira vez que suas comédias saem por uma editora comercial – a edição anterior, patrocinada pela Funarte em 1980, estava há anos fora de circulação.
Reprodução
Qorpo-Santo: ele julgava encontrar-se com o espírito de Napoleão III
Qorpo-Santo (1829-1883) nasceu em Triunfo, Rio Grande do Sul, e percorreu várias localidades do interior antes de se estabelecer em Porto Alegre. Foi comerciante, professor, vereador, delegado de polícia. Adotou o nome Qorpo-Santo por razões místicas que não explica muito bem – em seus escritos, compara-se a Jesus Cristo e afirma encontrar-se, pelo fenômeno da "transmigração das almas", com o espírito de Napoleão III. A grafia de "Qorpo" obedece à ortografia criada pelo autor, que assim desejava simplificar a escrita em português.
 
A extensão e a natureza de seus problemas mentais não são claras. Os médicos que o examinaram no Rio de Janeiro, em 1868, declararam que estava apto para administrar negócios e família. Porém, de volta a Porto Alegre, no mesmo ano, foi interditado pela Justiça. Conseguiu montar uma gráfica, em 1877, para imprimir uma estranha série de livros intitulada Ensiqlopédia, ou Seis Mezes de huma Enfermidade.
 
As dezessete comédias (uma delas incompleta) reunidas em Teatro Completo são todas datadas de 1866 e levariam exatamente um século para ser encenadas. A primeira montagem foi realizada por um grupo estudantil de Porto Alegre, em 1966. Desde então, os textos de Qorpo-Santo voltaram poucas vezes ao palco. É um autor difícil, que exige ousadia da direção. Os personagens não apresentam uma identidade coerente, e suas ações são as mais desvairadas: ateiam fogo no cenário, soltam ratos no palco, bolinam e espancam uns aos outros. Muitas peças têm uma pesada carga sexual. As Relações Naturais inclui cenas em um bordel e insinuações de incesto. A Separação de Dois Esposos encerra-se com um diálogo hilariante entre Tatu e Tamanduá, o primeiro casal gay da dramaturgia brasileira. O curioso é que o dramaturgo era um conservador empedernido. Só quando escrevia, o monarquista José Joaquim de Campos Leão dava lugar ao anárquico Qorpo-Santo.
 
 

Qorpo Santo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Qorpo Santo
José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Qorpo Santo (Triunfo, 19 de abril 1829Porto Alegre, 1 de maio de 1883) foi um dramaturgo brasileiro.

Índice

[esconder]

[editar] Biografia

José Joaquim Leão, natural da vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto Alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego na capital, habilitando-se ao exercício do magistério público, que passou a exercer a partir de 1851.
Casa-se em 1855 e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador.
Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade. Parecem manifestar-se, neste momento, os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família. QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial.
Todavia, o estigma estava posto, e o autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua produção textual.

[editar] Obras

  • Certa identidade em busca de outra
  • Eu sou vida eu não sou morte
  • Um credor da Fazenda Nacional
  • As relações naturais
  • Hoje sou um; e amanhã sou outro
  • Um assovio
  • Um parto
  • Hóspede atrevido ou O brilhante escondido
  • A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada
  • Dois irmãos
  • A separação de dois esposos
  • La
  • Lanterna de fogo
  • Marinheiro escritor
  • Marido extremoso
  • Mateus e Mateusa
  • Elias e sua loucura bíblica

[editar] Sobre a Obra

Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original dos textos de autor gaúcho do século XIX, José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS), para que sua obra conquistasse reconhecimento deivido aos esforçode de muitos intelectuais que assim o quiseram e para tal trabalharam, na década de 1960.
Alguns críticos datando desta republicação, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo como precursor de modernas tendências da arte teatral, a princípio o teatro do absurdo -na época, pretendendo atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral- e mais tarde querendo situa-lo como antecessor movimento surrealista.
Flávio Aguiar descreve a época do relançamento das obras, muito bem recebido, com análise profunda, ao seu Os homens precários -ainda na década de 1970, bem como a tendencia dos intelectuais de glorifica-lo como um criador do tão famoso e moderno teatro do absurdo. Enquanto Eudinyr Fraga, em trabalho datado aos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do chamado "automatismo psíquico", que caracterizaria aquela corrente estética: "Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer uma necessidade interior que a expressão determina”.
Hoje, QS é visto como um indivíduo criativo e fora de seu tempo, não se propõe mais sua suposta intensão como inovador da estética, mas como um artista envolvido e dedicado intimamente à sua obra, tanto que, por vezes, sua mente invade os personagens liberando seu discurso como uma colagem desconhexa da lógica da personagem.
Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e seus argumentos fogem à discussão sobre ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno. Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos,nas peças de QS o ritmo do tempo se mostra caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica.
Cabe ressaltar que, à exceção destes dois autores citados acima, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura, a qual foi julgado em vida pelo jurídico de Porto Alegre, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto.

[editar] Ver também

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[editar] Ligações externas


 
 
 

Qorpo Santo


Qorpo Santo
Qorpo Santo

Nasceu em 1829, na cidade de Triunfo, no Rio Grande do Sul, com o nome de José Joaquim de Campos Leão. Em 1839, muda para Porto Alegre onde estudaria gramática e trabalharia no comércio. Em 1850, habilita-se para o magistério público, passando a exercer o cargo de "professor de primeiras letras", ele daria aulas até 1855.
Em 1851 cria um grupo dramático. Em 1857, muda para Alegrete, cidade em que funda um colégio de instrução primária e secundária. É eleito vereador da Câmara Municipal de Alegrete, em 1860.
Maníaco obsessivo, enfrentou um processo de interdição movido por sua própria esposa, Inácia de Campos Leão, que em 1862, pediu a interdição judicial dos bens do marido, alegando a insanidade mental do marido, que acabou perdendo seus direitos civis e seus bens. Por ordens médicas, foi forçado a parar de escrever.
Professor, fundador e diretor de um colégio, subdelegado, vereador, comerciante e escritor, José Joaquim de Campos Leão (Qorpo Santo) nasceu em 19 de abril de 1829, na Vila do Triunfo e faleceu em 1 de maio de 1883 em Porto Alegre, com 53 anos.
Precursor do Teatro do Absurdo e do Surrealismo na dramaturgia, Qorpo Santo chocou a sociedade de sua época. Sua obra teatral só foi apresentada ao público pela primeira vez em 1966 ou 1968 (não se sabe ao certo) através da montagem de três de suas peças. Foi ele antecessor de Alfred Jarry, considerado por muitos o precursor do Teatro do Absurdo.
"Se o autor parece ansiar por um mundo em que prevaleçam a ordem e a obediência aos preceitos religiosos e legais, logo se insinua a malícia e o deboche, colocando em ridículo tais objetivos e mostrando a precariedade de nossos juízos", escreve Eudinyr Fraga, um dos principais pesquisadores da obra de Qorpo Santo.
Segundo o professor Eudinyr Fraga, as peças estão mais próximas do surrealismo de André Breton, autor do Manifesto Surrealista, do que do absurdo de Eugène Ionesco. Um dos argumentos é a presença das divagações dos chamados ''fluxos de consciência'', método que aparece no surrealismo do início do século 20 como ''automatismo psíquico puro''. A enxurrada de palavras aparece em diferentes textos, entre os quais As Relações Naturais. Mas também há elementos do absurdo.
Qorpo Santo
Em 1877, o gaúcho José Joaquim Campos Leão, já autodenominado Qorpo-Santo, conseguiu autorização para abrir uma tipografia. Era a oportunidade que lhe restava para imprimir obras de sua autoria. Seus planos eram audaciosos, mas sua mente, já enferma, começava a preocupar os familiares. Até sua morte, provocada pela tuberculose em 1883, imprimiu em mau papel e com uma ortografia que repugnava o leitor de então os nove volumes de Ensiqlopédia, seu testamento literário. Da coleção, perderam-se dois volumes e, dos outros sete, existe apenas um exemplar de cada.
Mais de cem anos depois, a obstinação em perpetuar a obra parece não ter fim - em 1995, a pesquisadora Denise Espírito Santo descobriu um daqueles volumes, justamente o que continha 537 poemas escritos por Qorpo-Santo.
Foram dez meses vasculhando sebos e bibliotecas particulares de Porto Alegre até encontrar a raridade. Até então, conheciam-se apenas as 17 peças teatrais de sua autoria, daí a importância da descoberta. "Foi uma grande vitória pessoal", conta Denise, que não encontrou, porém, uma editora que aceitasse imprimir a jóia literária. Foram cinco anos de negociações até que a pequena Contra Capa, do Rio, apostasse no projeto.
"Fiz questão de exigir cuidados mínimos com a obra, o que acabou afugentando muitos editores", conta a pesquisadora, que incluiu uma foto inédita de Qorpo-Santo na capa do livro, finalmente lançado e intitulado Poemas (Contra Capa, tel. 0--21-236-1999, 384 páginas, R$ 37). Ao analisar o texto, Denise notou as características mais notáveis do escritor. "São textos de uma lógica impecável, que subverte padrões", observa. "Os poemas vão se somar agora ao teatro, pois têm a mesma linha de intenção de retratar o cotidiano com um espírito cômico, satírico."
Denise acredita que a obra acrescenta à poesia brasileira um estilo novo, em que assuntos triviais e nonsense (adotados depois pelos modernistas) dominam os temas, o que contraria as convenções estéticas do romantismo do século 19. Qorpo-Santo inovou também ao propor uma reforma ortográfica da língua: em sua poesia, a letra "c", por exemplo, deixa de ter o som de "q". "O cruzamento de línguas e culturas que sempre ocorreu no Sul foi fundamental em suas inovações vocabulares e também no uso do português castiço, em que mistura o erudito com o popular."
Os dados conhecidos de sua vida vêm de uma autobiografia, já escrita com sua peculiar ortografia. José Joaquim de Campos Leão nasceu em 1829, na Vila do Triunfo, Rio Grande do Sul. Sua vida transcorre normal, habilitando-se para o magistério até chegar aos 30 anos, quando acreditou-se santo e resolveu adotar o pseudônimo.
Em 1862, surgem as primeiras manifestações da doença que levariam a família a pedir intervenção judicial de seus bens. É avaliado por dois peritos de Porto Alegre, mas os médicos divergem sobre sua sanidade mental. Começa, então, a escrever compulsivamente os textos que vão compor a Ensiqlopédia.
"A análise destes textos me fazem acreditar que ele não estava louco", comenta Denise. "Há um rigor impecável, principalmente no uso da sua linguagem própria, o que seria difícil se estivesse com problemas mentais."
Transgressão - Em 1873, sofre as primeiras perseguições por suas idéias, publicadas em alguns jornais locais. Também nessa época, Qorpo-Santo começa a sentir os primeiros sintomas de problemas respiratórios. Mesmo assim, não interrompe a escrita - o planejamento, sem ser rigoroso, apresenta divisões não muito nítidas, alternando texto em prosa e em verso. É o período em que desenvolve as peças de teatro, com suas características de transgressoras e de vanguarda (leia texto abaixo).
"Qorpo-Santo tinha necessidade de falar de seu ofício, além de revelar suas influências, desde as peças encenadas em circos até as operetas apresentadas por companhias italianas, em Porto Alegre", conta Denise. Depois de publicar todos seus textos na própria tipografia, entregou os únicos exemplares de cada um dos nove volumes a um amigo comerciante. "Os livros ficaram na biblioteca desta família até que foram vendidos para sebos e sumiram."
Começou então um período de total silêncio sobre a obra de Qorpo-Santo, até a redescoberta, promovida pelo estudioso Guilhermino César, que organizou a primeira edição das peças teatrais, em 1969. O colecionador Julio Petersen, de Porto Alegre, localizou três volumes, outro foi doado ao Instituto Histórico da capital gaúcha e outros três pertencem à família Assis Brasil.
As obras foram fonte de pesquisa de Denise. Como estavam irregularmente distribuídos por vários volumes, a pesquisadora reuniu os poemas por afinidades temáticas. Também atualizou a ortografia para facilitar o entendimento. "Li todo o material durante dois anos até chegar à ordem em que foi publicado." A pesquisadora, porém, não está satisfeita: pretende lançar, até abril, outro volume, Miscelânea Quriosa, com mais textos de Qorpo-Santo. "Ainda faltam redescobrir dois livros", justifica.
Qorpo Santo
José Joaquim de Campos Leão, Qorpo Santo, parece ser a figura mais controvertida da dramaturgia nacional. Sua obra ora é apontada como produto de uma mente inferior perturbada pela doença mental, ora como produto de uma mente genial que não é compreendida.
Entre as duas opiniões fica-se com nenhuma, ou antes, com ambas. Isto significa dizer que o que se pretende é ver em Qorpo Santo uma mente genial que se mascara através da loucura.
O teatro de Qorpo Santo, cada uma de suas personagens, além de surgir como um dos veículos de sua vingança contra o meio social e os desajustes humanos, é a expressão da criação artística em seu mais alto grau de elaboração, sobretudo as peças: "As Relações Naturais"; "Hoje sou um; e Amanhã outro"; "A Impossibilidade da Santificação; ou a santificação transformada" e "Lanterna de Fogo"
Qorpo Santo
Nome completo: José Joaquim de Campos Leão
Pseudônimo: Qorpo Santo
Nascimento: Triunfo, Província de São Pedro, RS, BRA, em 1829.
Falecimento: Porto Alegre, RS, BRA, em 1883.
Forma autorizada: Qorpo-Santo

Biografia

José Joaquim de Campos Leão, mais conhecido por seu pseudônimo Qorpo-Santo, foi um brilhante dramaturgo gaúcho que ficou esquecido por cem anos, quando descobriu-se um autor oiriginal, de perspectiva moderna e olhar crítico. Foi precursor do Teatro do Absurdo e esteve muito além de seu tempo.
Torna-se professor primário e passa a lecionar em escolas públicas, fixando-se na capital da província. Também chega a exercer a função de delegado de polícia. Em 1862, as autoridades escolares passam a suspeitar de sua sanidade mental, e Qorpo-Santo é obrigado a internar-se. Em 1868 é considerado inapto para continuar lecionando e também para a administração de seus bens e família.
Em jornal que ele mesmo funda, A Justiça, protesta veementemente contra a decisão da justiça, que o torna inapto. No mesmo período cria a Enciclopédia ou Seis Meses de Uma Enfermidade, composta por nove tomos, dos quais só se conhecem seis atualmente. É considerado um trabalho revolucionário e desnorteante na época. No IV volume, publica todas as suas comédias que hoje conhecemos. A Edição, impressa em tipografia própria, foi lançada em 1877. Qorpo-Santo rompeu com os padrões da época e, no provinciano final do século XIX, esteve mais próximo de nossos tempos, do que no qual viveu.
Qorpo Santo

Qorpo-Santo
Qorpo-Santo

Qorpo-Santo faz parte do cânone da dramaturgia gaúcha, mas pouco se conhece de sua obra. Autor do século 19, propôs reforma ortográfica na língua portuguesa e escreveu 17 comédias, agora reeditadas.
O melhor personagem do gaúcho José Joaquim de Campos Leão (1829-1883) é ele próprio, auto-apelidado Qorpo-Santo. Escolheu o nome aos 34 anos, quando acreditava imbuído de missão divina. A justificativa (Corpo-Santo, mais tarde transformado em Qorpo-Santo) era viver afastado do mundo das mulheres. Se o corpo se pretendia santo, o mesmo não se pode dizer dos textos — e alguns revelam a incapacidade de conciliar tais preceitos aos desejos carnais.
As 17 comédias percorrem universo de erotismo e sensualidade, com histórias às vezes escatológicas, outras que mexem com tabus da época. Foram escritas em cinco meses, entre janeiro e junho de 1866, passaram um século no anonimato e agora estão de volta às livrarias no volume Teatro Completo — Qorpo-Santo, com introdução do professor Eudinyr Fraga, morto há menos de um mês. Fraga pertencia à Escola de Comunicação e Artes (Eca), da Universidade de São Paulo, e era especialista na obra de Campos Leão. Escreveu Qorpo-Santo: Surrealismo ou Absurdo (1988), que questiona a tese de que o autor é precursor do teatro do absurdo.
Segundo o professor, as peças estão mais próximas do surrealismo de André Breton, autor do Manifesto Surrealista, do que do absurdo de Eugène Ionesco. Um dos argumentos é a presença das divagações dos chamados ‘‘fluxos de consciência’’, método que aparece no surrealismo do início do século 20 como ‘‘automatismo psíquico puro’’. A enxurrada de palavras aparece em diferentes textos, entre os quais As Relações Naturais. Mas também há elementos do absurdo. ‘‘Ele criou comédias totalmente nonsense em pleno século 19. Tem esse mérito e um valor artístico inegável’’, afirma a pesquisadora Denise Espírito Santo, organizadora do Poesia — Qorpo-Santo (1999).

Herança cômica

Qorpo-Santo é uma espécie de Arthur Bispo do Rosário do teatro. Tido por louco quando vivo, acabou internado em sanatório. Depois de morto (por tuberculose, aos 53 anos), caiu no esquecimento até ser descoberto nos anos 20 por intelectuais gaúchos. Suas peças, escritas com a rapidez que o levaram à internação (o diagnóstico dizia ‘‘exaltação cerebral’’, marcado pela mania de escrever), levaram exatos cem anos para chegarem aos palcos. As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu Sou Vida, Eu Não Sou Morte foram montadas, pela primeira vez, em 1966 na capital gaúcha.
Três anos mais tarde, foi lançada a coletânea das peças por iniciativa de Guilhermino César. Desde a década de 80 sua vida e obra têm inspirado livros, teses e discussões. ‘‘Atualmente, procura-se disfarçar a superficialidade dos seus enredos com algumas tintas de protesto e denúncia’’, afirma o professor Fraga no ensaio Um Corpo que se Queria Santo, introdução ao Teatro Completo. ‘‘Mas, na essência, lá está todo o arsenal cômico vindo diretamente de Martins Pena: quiproquós, esconderijos dentro dos armários, personagens caricaturais, os mesmos velhos preconceitos disfarçados com a máscara da liberalidade.’’
Os textos têm tantos personagens quanto possível diante da crença do autor na migração das almas. A Impossibilidade da Santificação ou a Santificação Transformada, por exemplo, traz 31 deles. Alguns personagens viram outros durante o enredo. ‘‘Alguns personagens são pessoas da sociedade carioca que ele queria atacar’’, conta Denise. Curioso são os nomes: Rubincundo, Revocata, Helbaquínia, Ridinguínio, Ostralâmio, Lamúria, Rocalipsa, Esterquilínea, Eleutério, Régulo, Catinga, Esquisito, Córneo, Ferrabrás, Simplício e por aí segue. A edição mantém os nomes originais, mas atualiza a grafia das palavras para o português usual, em vez de manter a proposta do autor. Muda inclusive a escrita dos títulos: Relasões Naturaes, por exemplo, vira Relações Naturais.
Campos Leão pretendia reformar a língua portuguesa suprimindo letras inúteis como ‘‘u’’ depois do ‘‘q’’ (daí o Qorpo-Santo) e lançou a sua Ensiqlopédia com tipologia própria. Idéia que fazia certo sentido, tanto que algumas de suas propostas foram mais tarde incorporadas ao idioma, como a eliminação do ‘‘ph’’ de pharmacia e o ‘‘h’’ quando não soa, como em deshonesto e deshumano. Para sexo, no entanto, propunha a grafia seqso. Achava que assim atenderia melhor à alfabetização, baseado em sua experiência como professor. ‘‘Quando ele percebeu que não havia chance de suas peças serem lidas, virou tipógrafo e editou a Ensiqlopédia em casa’’, explica Denise.
A Ensiqlopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade possui nove volumes. Cada um deles é dedicado a um gênero — as comédias estão no quarto e as poesias, no primeiro. Há três na biblioteca da família Assis Brasil, três com o colecionador Julio Petersen, ambos de Porto Alegre, e os outros três estão desaparecidos. Há somente um exemplar de cada. Reeditada, a obra teatral funciona como pretexto para enveredar pelo universo de uma das figuras mais intrigantes da dramaturgia brasileira. O melhor de tudo parece mesmo o autor, inventor de si mesmo e da proposta que, como lembra Fraga, a Emília de Monteiro Lobato apreciaria conhecer.
Qorpo Santo

Qorpo Santo
Qorpo Santo

Qorpo-Santo (1829-1883) nasceu em Triunfo, Rio Grande do Sul, e percorreu várias localidades do interior antes de se estabelecer em Porto Alegre. Foi comerciante, professor, vereador, delegado de polícia. Adotou o nome Qorpo-Santo por razões místicas que não explica muito bem – em seus escritos, compara-se a Jesus Cristo e afirma encontrar-se, pelo fenômeno da "transmigração das almas", com o espírito de Napoleão III. A grafia de "Qorpo" obedece à ortografia criada pelo autor, que assim desejava simplificar a escrita em português.
A extensão e a natureza de seus problemas mentais não são claras. Os médicos que o examinaram no Rio de Janeiro, em 1868, declararam que estava apto para administrar negócios e família. Porém, de volta a Porto Alegre, no mesmo ano, foi interditado pela Justiça. Conseguiu montar uma gráfica, em 1877, para imprimir uma estranha série de livros intitulada Ensiqlopédia, ou Seis Mezes de huma Enfermidade.
As dezessete comédias (uma delas incompleta) reunidas em Teatro Completo são todas datadas de 1866 e levariam exatamente um século para ser encenadas. A primeira montagem foi realizada por um grupo estudantil de Porto Alegre, em 1966. Desde então, os textos de Qorpo-Santo voltaram poucas vezes ao palco. É um autor difícil, que exige ousadia da direção. Os personagens não apresentam uma identidade coerente, e suas ações são as mais desvairadas: ateiam fogo no cenário, soltam ratos no palco, bolinam e espancam uns aos outros. Muitas peças têm uma pesada carga sexual. As Relações Naturais inclui cenas em um bordel e insinuações de incesto. A Separação de Dois Esposos encerra-se com um diálogo hilariante entre Tatu e Tamanduá, o primeiro casal gay da dramaturgia brasileira. O curioso é que o dramaturgo era um conservador empedernido. Só quando escrevia, o monarquista José Joaquim de Campos Leão dava lugar ao anárquico Qorpo-Santo.
Qorpo Santo

Qorpo Santo
Qorpo Santo

José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Qorpo Santo (Triunfo, 19 de abril 1829 — Porto Alegre, 1 de maio de 1883) foi um dramaturgo brasileiro.

Biografia

José Joaquim Leão, natural da vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto Alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego na capital, habilitando-se ao exercício do magistério público, que passou a exercer a partir de 1851.
Casa-se em 1855 e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador.
Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade. Parecem manifestar-se, neste momento, os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família. QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial.
Todavia, o estigma estava posto, e o autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua produção textual.

Obras

  • Certa identidade em busca de outra
  • Eu sou vida eu não sou morte
  • Um credor da Fazenda Nacional
  • As relações naturais
  • Hoje sou um; e amanhã sou outro
  • Um assovio
  • Um parto
  • Hóspede atrevido ou O brilhante escondido
  • A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada
  • Dois irmãos
  • A separação de dois esposos
  • La
  • Lanterna de fogo
  • Marinheiro escritor
  • Marido extremoso
  • Mateus e Mateusa
  • Elias e sua loucura bíblica

Sobre a Obra

Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original dos textos de autor gaúcho do século XIX, José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS), para que sua obra conquistasse reconhecimento deivido aos esforçode de muitos intelectuais que assim o quiseram e para tal trabalharam, na década de 1960.
Alguns críticos datando desta republicação, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo como precursor de modernas tendências da arte teatral, a princípio o teatro do absurdo -na época, pretendendo atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral- e mais tarde querendo situa-lo como antecessor movimento surrealista.
Flávio Aguiar descreve a época do relançamento das obras, muito bem recebido, com análise profunda, ao seu Os homens precários -ainda na década de 1970, bem como a tendencia dos intelectuais de glorifica-lo como um criador do tão famoso e moderno teatro do absurdo. Enquanto Eudinyr Fraga, em trabalho datado aos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do chamado "automatismo psíquico", que caracterizaria aquela corrente estética: "Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer uma necessidade interior que a expressão determina”.
Hoje, QS é visto como um indivíduo criativo e fora de seu tempo, não se propõe mais sua suposta intensão como inovador da estética, mas como um artista envolvido e dedicado intimamente à sua obra, tanto que, por vezes, sua mente invade os personagens liberando seu discurso como uma colagem desconhexa da lógica da personagem.
Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e seus argumentos fogem à discussão sobre ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno. Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos,nas peças de QS o ritmo do tempo se mostra caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica.
Cabe ressaltar que, à exceção destes dois autores citados acima, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura, a qual foi julgado em vida pelo juridico de Porto Alegre, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto.
 
 
caso Qorpo-Santo: escrita e loucura

Alfredo Schechtman

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Qorpo-SantoMichel Foucault, em sua monumental história da loucura, tem um conhecido enunciado que relaciona a loucura à não obra, à ausência e impossibilidade de obra.  Esta assertiva tornou-se objeto de abordagem e crítica a partir de distintos prismas teóricos, envolvendo em seu debate, entre outros, filósofos, críticos literários e psicanalistas, e remetendo-nos à questão das raízes profundas da criatividade humana.

O espaço da criação implica em buscar traduzir conteúdos, percepções e representações internas numa linguagem acessível ao Outro, negociação entre o estritamente subjetivo e sua conversão em símbolos articulados culturalmente.

As vanguardas artísticas do início do século XX, a partir do dadaísmo e do surrealismo, aprofundaram e legitimaram esta relação entre o estritamente subjetivo, o mergulho nas brumas interiores do ser, muitas vezes de conteúdo hermético e cifrado simbolicamente, e sua circulação no meio social, no espaço ampliado da cultura.

Interessa-nos, pois, neste ensaio, seguir abordando a relação entre literatura e loucura. Em texto anterior apresentamos alguns autores brasileiros que passaram pela experiência da internação psiquiátrica, e sobre a mesma refletiram de modo intenso. Todavia, naqueles escritos, a loucura, a vivência desta experiência singular, é narrada com um olhar racional, “exterior”, não são escritos “loucos”, cifrados à compreensão do Outro.

Walter Benjamin, em resenha originalmente publicada em 1928, apresenta análise, sucinta mas penetrante, sobre as famosas memórias de Daniel Paul Schreber, e nos fala mais amplamente desta literatura da desrazão, da qual tinha ciência e pela qual manifestava vivo e continuado interesse.

“A existência deste tipo de obras tem algo de surpreendente. Estamos habituados, apesar de tudo, a considerar o âmbito da escritura como algo superior e seguro, de tal maneira que a emergência da loucura, que aqui aparece sigilosamente, assusta mais.”

Tais textos foram, em sua maioria, preservados quase anonimamente, graças ao empenho de registro pelos próprios autores, os quais quase sempre custearam integralmente as edições de suas obras, à margem do sistema editorial dominante.

No caso brasileiro, o encontro de tais registros é raro, não apenas pela nossa relativamente escassa familiaridade com o universo da escrita, em uma cultura de viés predominantemente oral, mas também pela precária conservação de nossa memória histórica e cultural.

Assim, é como exceção notável que foi possível resgatar e revalorizar a obra textual de um autor gaúcho do século XIX (1829-1883), José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS).

Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original de seus textos, para sua redescoberta, na década de 1960.

A partir daí, assistimos a uma nova abordagem da vida e da obra de QS, entre autores da crítica literária e teatral brasileira que voltaram suas lentes para esta escrita singular.

Alguns críticos, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo entre os precursores de modernas tendências da arte teatral, como o teatro do Absurdo, pretendendo atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral.

Já Eudinyr Fraga, em trabalho dos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do ‘automatismo psíquico’, que caracterizaria aquela corrente estética.

Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer ‘uma necessidade interior que a expressão determina’.”

Entre os autores que  estudaram QS, a análise mais profunda segue sendo a realizada por Flávio Aguiar, ainda na década de 70, em “Os Homens Precários”, resultado de sua tese de mestrado em literatura. Na mesma, Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e foge argutamente à discussão sobre ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno.

Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos.

Nas peças de Qorpo Santo o desenrolar dos acontecimentos (o ritmo do tempo) é caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica”.

Interessa-nos aqui ressaltar que, à exceção destes dois autores citados imediatamente acima, que ao menos tangenciaram o tema, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a desrazão se faz presente no cerne de sua escritura, nas nervuras de seu texto.

Assim, buscando suprir ainda que parcialmente esta lacuna, apresentamos a seguir um breve resumo de sua vida e obra, destacando alguns fragmentos de suas peças teatrais que apontam para a presença de conteúdos extremamente pessoais, que parecem como que invadir a cena e o espaço literário, numa freqüência pouco usual nos textos da maioria de seus contemporâneos.

José Joaquim Leão, natural da Vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul, vai para Porto alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego naquela capital, habilitando-se ao exercício do magistério público, que passa a exercer a partir de 1851.

Leonel MacielEm 1855, casa-se e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador.

Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua “Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade”. Parecem manifestar-se neste momento os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família.

QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial.

Todavia, o estigma estava posto, e nosso autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua produção textual.

Vale a pena, neste ponto de nosso percurso, a leitura de crônica de contemporâneo seu, transcrita por Flávio Aguiar, que traça retrato humano de nosso personagem.

“Chamava-se José Joaquim Leão do Corpo Santo. Era alto, magro, moreno, de uma palidez de morte. Usava a cabeleira comprida como os velhos artistas da Renascença. Trajava calças brancas, sobrecasaca preta, toda abotoada como uma farda, bengala grossa para afugentar os cães e chapéu alto de seda lustroso.

Andava sempre, na rua, apressado como se fosse tirar o pai da forca.

Fora muitos anos mestre-escola da roça, mas com certo preparo não vulgar, que o punha em destaque.

(…) Quando a luz da razão se apagou no seu cérebro, tornou-se então tristonho, taciturno, fugindo da convivência dos mais. Sentia-se bem só, na solidão, a fumar o seu cigarro de palha, com fumo crioulo. E passava assim horas e horas, completamente estranho a tudo que o cercava, na indiferença da sua grande desgraça.”

Mas sigamos e adentremos um pouco em seu singular universo textual, transcrevendo extensivamente alguns trechos de “Hoje sou um; amanhã outro”, ilustrativos desta transposição quase literal de traços biográficos do autor para o enredo de ficção.

“O REI - da descoberta, que tanto ilustra, moraliza e felicita - honrando!? Mas quem foi no Império do Brasil o autor

MINISTRO - Um homem, Senhor, predestinado sem dúvida pelo Onipotente para derramar esta luz divina por todos os habitantes do Globo que habitamos.

O REI - Mas quais os seus princípios, ou os de sua vida?

MINISTRO - É filho de um professor de primeiras letras; seguiu por algum tempo o comércio; estudou depois, e seguiu por alguns anos a profissão de seu Pai, roubado-lhe pela morte, quando contava apenas de 9 a 10 anos de idade. Durante o tempo do seu magistério, empregou~se sempre no estudo da História Universal; da Geografia; da Filosofia, da Retórica - e de todas as outras ciências e artes que o podiam ilustrar. Estudou também um pouco de Francês, e do Inglês; não tendo podido estudar também - Latim, conquanto a isso desse começo, por causa de uma enfermidade que em seus princípios o assaltou. Lia constantemente as melhores produções dos Poetas mais célebres de todos os tempos; dos Oradores mais profundos; dos Filósofos mais sábios e dos Retóricos mais brilhantes ou distintos pela escolha de suas belezas, de suas figuras oratórias! Foi esta a sua vida até a idade de trinta anos.

Leonel MacielO REI - E nessa idade o que aconteceu? Pelo que dizes reconheço que não é um homem vulgar.

MINISTRO - Nessa idade, informam-me... isto é, deixou o exercício do Magistério para começar a produzir de todos os modos; e a profetizar!

O REI - Então também foi ou é profeta!?

MINISTRO - Sim, Senhor. Tudo quanto disse que havia acontecer, tem      acontecido; e se espera que acontecerá! 

O REI - Como se chama esse homem!?

MINISTRO - Ainda não vos disse, Senhor, - que esse homem viveu em um retiro por espaço de um ano ou mais, onde produziu numerosos trabalhos sobre todas as ciências, compondo uma obra de mais de 400 páginas em quarto, a que denomina E... ou E... de. .. E aí acrescentam que tomou o titulo de Dr. C... s.... - por não poder usar o nome de que usava - Q... L..., ou J... J... de Q. .. L..., ao interpretar diversos tópicos do Novo Testamento de N. s. Jesus Cristo, que até aos próprios Padres ou sacerdotes pareciam contraditórios!

O REI - Estou espantado de tão importante revelação!

MINISTRO - Ainda não é tudo, Senhor: Esse homem era durante esse tempo de jejum, estudo, e oração -  alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de palha! A sua cabeça era como um centro, donde saíam pensamentos, que voavam às dos Reis de que se alimentava, e destes recebia outros. Era como o coração do mundo, espalhando sangue por todas as suas veias, e assim alimentando-o e fortificando-o, e refluindo quando necessário a seu centro! Assim como acontece a respeito do coração humano, e do corpo em que se acha. Assim é que tem podido levar a todo o mundo habitado sem auxílio de tipo - tudo quanto há querido!

O REI - Cada vez fico mais espantado com o que ouço de teus lábios!

MINISTRO - É verdade quanto vos refiro! Não vos minto! E ainda não é tudo: esse homem tem composto, e continua a compor, numerosas obras: Tragédias; Comédias; poesias sobre todo e qualquer assunto; finalmente, bem se pode dizer - que é um desses raros talentos que só se admiram de séculos em séculos!

O REI - Poderíamos obter um retrato desse ente a meu ver tão grande ou maior que o próprio Jesus Cristo!?

MINISTRO - Eu não possuo algum; mas pode se encomendar ao nosso Cônsul na cidade de Porto Alegre, capital da Província de São Pedro do Sul, em que tem habitado, e creio que ainda vive.

O REI - Pois serás já quem fará essa encomenda!

MINISTRO - Aqui mesmo na presença de V . M. o farei. (Chega-se a uma mesa, pega em uma pena e papel, e escreve:)

"Sr. Cônsul de...

De ordem de Nosso Monarca, tenho a determinar a V. Sa. que no primeiro correio envie a esta Corte um retrato do Dr. Q... S..., do maior tamanho, e mais perfeito que houver.

Sendo indiferente o preço.

O Primeiro Ministro DOUTOR SÁ E BRITO"

Corte de..., maio 9 de 1866.”

Da mesma maneira, em “O Parto”, vislumbra-se de imediato esta presença do fator biográfico mesclado ao entrecho textual.

Leonel Maciel“RUIBARBO - Sim; sim. Vão indo; eu lá irei logo! (Saem.) Estes meus colegas são o diabo em figura de homens, ou de rapazes! Tudo desarrumam! É preciso uma... não: paciência de Jó, ou de algum outro Santo para aturá-los! Enfim, (depois de todo o quarto arrumado) é preciso aturá-los! É melhor que andar com eles aos tombos, puxões ou cabeçadas. (Pega em um livro.) São horas, vou às minhas lições de Retórica! E logo continuarei a escrever a minha encantadora comédia - a Ilustríssima Senhora Dona Anália de Campos Leão Carolina dos Santos Beltrão Josefina Maria Leitão História das Dores Patão, ou Bulhão, etc. etc. Dizem os médicos, e confirmam os lógicos: As cousas que têm de trabalhar, apertadas, não poderão fazer tão bom serviço como - desembaraçadas; e eu o creio pia e firmemente. Exemplifiquemos com os próprios homens e seus órgãos. Suponha-se que estão a trabalhar em uma sala vinte pessoas, e que na mesma não o podem fazer livre ou desembaraçadamente mais que dez ou doze. Pergunto: seu serviço, obra, ou trabalho, sairá tão perfeito, como se trabalhassem aqueles que - bem - só o podiam fazer? É de crer que não. Outro: Temos órgãos - da vista, do ouvido, do olfato, que por certo oprimidos, ninguém dirá que - bem funcionam. Assim pois devem ser os do nosso estômago, intestinos, etc. Apertados, não poderão funcionar, transformar ou digerir os alimentos ou cousas de que nos alimentamos, com aquela facilidade com que o fazem ou devem fazer não opressos ou desembaraçados. Se aperto os meus dedos, não posso escrever, nem com a mão cousa alguma fazer! Se porém esta está desembaraçada, com ela faço o que quero, ou o que posso. Logo - não convém a opressão; se se quer trabalho abundante e perfeito!

RUIBARBO - Eu me explico: Quando escrevo, penso, e procuro conhecer o que é necessário, e o que não é; e assim como, quando me é necessário gastar cinco, por exemplo, não gasto seis, nem duas vezes cinco; assim também quando preciso escrever palavras em que usam letras dobradas, mas em que uma delas é inútil, suprimo uma e digo: diminua-se com esta letra um inimigo do Império do Brasil! Além disso, pergunto: que mulher veste dois vestidos, um por cima do outro!? Que homem, duas calças!? Quem põe dois chapéus para cobrir uma só cabeça!? Quem usará ou que militar trará à cinta duas espadas! Eis por que também muitas vezes eu deixo de escrever certas inutilidades! Bem sei que a razão é - assim se escreve no Grego; no Latim, e em outras línguas de que tais palavras se derivam; mas vocês que querem, se eu penso ser assim mais fácil e cômodo a todos!? Finalmente, fixemos a nossa Língua; e não nos importemos com as origens!”

Esta amostra, pinçada quase aleatoriamente de algumas de suas peças, parece suficiente para o que pretendíamos indicar, sendo interessante nomear alguns títulos de seus trabalhos, além dos acima mencionados, que soam bastante peculiares para o contexto da época: “As relações naturais”, “Certa identidade em busca de outra”, “Eu sou a vida, eu não sou a morte”.

A obra enciclopédica de QS alcança nove volumes na edição original impressa em sua gráfica, chamando a atenção o fato de que todo o conjunto de seus textos teatrais foi escrito em apenas seis meses do ano de 1866, período que é indicado como coincidente com o agravamento de seus sintomas psíquicos.

Esta febre de escritura foi imediatamente patologizada pelo saber de então, sendo rotulada de “grafomania”.

Foram precisos cem anos para que a obra tormentosa de QS emergisse novamente, voltando à cena de modo instigante e pendente de novos olhares.

Alfredo Schechtman (Brasil, 1952). Médico. Contato: alfredo_s...@yahoo.com.br. Página ilustrada com obras do artista Leonel Maciel (México).



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Rebecca Soares Espinola

unread,
Mar 26, 2009, 8:36:34 AM3/26/09
to forum social mundial 2009
To dentro!
 
quando vamos no sencontrar a primeira vez?
 
beijos de alma..
 
Rebeki :p
 

Date: Wed, 25 Mar 2009 15:08:15 -0700
From: ikar...@yahoo.com.br
Subject: Idéias para o grupo....
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