OS ECOS TINEM NO SANGUE & NOS BARES POR ONDE A POESIA DESOVOU SUAS SEMENTES Gosto muito de conhecer sobre vários tipos de movimentos que rolaram em vários lugares do mundo em vários tempos diferentes, dispersos entre escombros & enterrados numa consciência que se tornou inconsciente... meu interesse por isso é tão grande que não existe fronteira entre mim & esse anseio de buscar viver algo parecido com essas atmosferas... apesar de ter vivido durante algum tempo dentro de situações que se assemelhariam & ter continuado singrando os oceanos incertos em busca de mais aventureiros com as mesmas pulsações sonhando acordadas nas veias. Poderia falar de movimentos de caráter contraculturais como o Provos na Holanda, o Futurismo Intaliano & o Russo, o Movimento por uma Bauhaus Imaginista, a Internacional Letrista, a Internacional Situacionista, a Escola de Patafísica, o C.O.B.R.A., o Fluxus, a Tropicália, o CLASS WAR, a Associação para o Anarquismo Ontológico, os beatniks, a geração MAIO de 68, os hippies, os punks, yuppies & tantas outras escolas & anti-escolas da Arte, da Literatura, da Vida... mas, achei interessante a relação inconsciente que rolou entre um desses movimentos de caráter não-institucional & com um impulso transgressor & liricamente maldito que foi o POECODEBAR que reuniu alguns notáveis poetas em João Pessoa, na Paraíba. Por escutar os Ecos desses poemas coletivos improvisados & gozados na liberdade de um guardanapo & sem métrica ou formalismo de caixão de defunto-literário - ou os falsos rituais burrocráticos dos chamados Escritores Acadêmicos - enquanto que frui-se realmente a vida e o instante que nunca se encerra (o momento da escrita abre pontes intermináveis rumo à vastidão do desconhecido...), registro aqui que escutei também esses ecos & vozes meladas de tédio, ingratidão, alegria, fadiga, revolta & bílis de um guardanapo* de bar que foi testemunha da proeza inexata do poeta enquanto voa com suas visões & nos atira versos... Que venha a poesia, não encarcerada em um meio qualquer, não lapidada como uma coroa que nunca poderá ser posta na cabeça ou profanada pelos sentidos humanos... que venha uma poesia sem Academias, sem Burocracias, sem Mediações, sem Hierarquias ou Jabás... Que venha uma poesia que vomite, que seja vomitada, que beba e se perca entre as frestas & festas onde se escondem vultos & enigmas que a atiçam... Que nos venham com poemas vivos como corpos pegajosos, como sinos repicando palavrões, como alquimias inolvidáveis para as crianças... Que nos venha poesia sem mesura, sem um ritmo unilateral & monótono! Que não nos pregue nas cruzes de uma repetição insondável & arcaíca das mesmas misérias & ufanias!... Que venha uma poesia sem reis ou bam-bam-bans, uma poesia sem mestres ou padres, uma poesia sem ritual definido nem hora marcada... que como facas sejam atiradas em nossas faces medonhas irrealidades ou façanhas surreais! Que sejam inventados novos insultos para que a língua cresça & se transforme totalmente noutra coisa, assimilada À vida, ao Devir, à História, às intensidades & desejos de nossas buscas... que venha uma poesia que derrube os ídolos & atinja os cumes do céu da loucura bradando alto sua magia inexorável, seu feitiço orgástico, seus pesadelos mais líricos & inapropriados... Apesar dos problemas que implicam uma criação em conjunto elaborada em forma de movimento, acredito que em determinados momentos algo maior acaba juntando forças & unindo corpos, corações, salivas & mentes numa canção imprevisível onde cada voz encontra corpo no espaço & soma suas veias ao coração de um grito que falha ou que eleva & com isso muitas coisas podem acontecer. Em alguns momentos uma força nos move para sairmos de nossa cômoda solidão ou de nossa vaidade (vazia & sem tamanho) aguda & nos entrega o Infinito Passageiro de uma marca nova na História, um passo que conduz a uma marcha de corações leves & embriagados que se armaram com suas canções contra o muro que avança para matar de fome & de dor nossa imaginação livre, nossos poemas que não querem ser conservados no formol dos livros & na hipocrisia dos cargos, nossas pulsões que derrubam governos, países & o manto negro da melancolia comodista. É por essas & outras que mesmo que nunca mais alguém leia meus versos, eu serei poeta, pois entre um bar & outro, uma cidade & outra, continuo colhendo ou relembrando em minhas células, enquanto encarno o presente imanente, todas as agonias & mistérios, todo o doce torpor alcóolico de tantos outros que morreram com os versos na boca, nas mãos, no sexo... por não terem sido higienizados pela formatação dos pseudos-críticos que se consideram imortais por terem bigodes & usarem paletós - onde suam como macacos - durante um sarau para mentes neardenthais sem corpos. Morrerei poeta pois afirmo minha mortalidade diante das coisas & com isso digo: que as coisas passem & se transformem, & que o pó do meu corpo se misture à poesia inconsciente de outros indivíduos. 05 de Janeiro de 2009 IkaRo MaxX, bebendo uma cerveja num bar no Recife Antigo * - engraçado como essas conexões são subterrâneas & inconscientes (como diria por exemplo o crítico e escritor Greil Marcus sobre a influência dos hereges medievais sobre o movimento punk, por exemplo), porque eu tinha um primeiro livro de poemas que era um tanto "antiquado": uma sacola frágil de padaria amontoada com vários guardanapos & papéis de conta de bares, de lanchonetes, de blocos de notas, papel higiênico, modes, lenços, etc, onde escrevi ensaios, textos & poemas dos 14 aos 17 anos & chamei de "Diário Infame de um promissor bêbado preguiçoso & aborrecido"... MANIFESTO POECODEBAR 1ª Dose: Bastam os dinossauros! Basta de colonialismo provinciano! Se houve espaço para o NOVO, seria possível analisar com maior profundidade a produção POÉTICO-UTÓPICO-MARGINAL dos novos poetas ou de qualquer outra forma de alucinação artística. Porque todos nós somos poetas! Todos temos um pouco de pus-poesia, no âmago do peito ferido, só percebido através de um olho mágico-bêbado. Acreditamos que, apesar das distâncias entre as ilusões, não podemos mais aceitar as algemas da palavra "NÃO"! Não queremos mudar o mundo, mas já nos fizemos por demais vítimas do boom marginal. Abaixo o poder da mídia conservadora aliada ao medo do NOVO! Contra a vã guarda das antigas vanguardas! Contra a ditadura poética! Contra todos os disfarces e suas faces! Afinal, até quando seremos inocentes piratas de reação em perpétuo silêncio? Para que os textonautas cheguem ao espaço. Poetas do mundo, uni-vos! 2ª Dose: Por todos aqueles que não querem sentar no banco dos réus da crítica literária! Contra todos os julgamentos medievais! Contra as funções da crítica! Em benefício a democracia literária. Fora todos os dragões e São Jorges! Em defesa da qualidade do NOVO! Contra os "imaturos" pré-taxadores de imaturos! Porque estamos putos e não existe sociedade mais puta do que a dos poetas anônimos. Acreditamos que não podemos mais nos conformar com julgamentos idiotas. Também não queremos ter direito a advogados. Afinal, o que é poesia? Um nome famoso ou uma forma de se ver a íntima realidade? Quem é o poeta? Quem faz poesia ou quem tem um livro na praça? Questionamos o medo desses antigos jovens, pois medo não faz mais parte do dicionário da nossa geração. Acreditamos que a poesia não se revela pela idade, mas pelo sonho dentro da idade. Afinal, o que importa: a idade ou o ânus? Abaixo a crítica que, com sua ânsia de julgar o NOVO como se já fosse velho, não percebe as heresias vomitadas pelos poetas nos bares, que vomitam poesias, transformando a embriaguez em poema. Porque não aceitamos a fama nem a fome! Exigimos a mudança de opinião versus o radicalismo! Porque não adianta escrever para uma "turminha-de-críticos-tão-críticos" que não possuem a estranha mania de sentar-se numa mesa de bar. Acreditamos que os guardanapos têm mais utilidade do que a ACADEMIA PARAIBANA DE POESIA. Aperfeiçoemos nossos passos! Nunca nos escondamos na sombra alheia! Poetas, coragem! Vontade! Desengavetemos nossos anseios! 3ª Dose: Para que, na balada de um futuro bem próximo, a poesia não venha a servir apenas para enfeitar os anúncios da Coca-Cola nem tão pouco para ser recitada nos cabarés da Cidade Baixa. Para quebrar o espelho do silêncio! Para arrancar o sorriso dos podres pudores! Em defesa daqueles por quem os sinos não dobram! Abaixo todas as (com) TRADIÇÕES! Haveremos de pular as grades, saltar pela janela, adentrar na capela e badalar todos os sinos. POECODEBAR é a prova de que, entre o velho e o NOVO, a poesia pode ser encontrada numa mesa de bar. Que tudo nos ouça! Assimilem ou não! POECODEBAR Uma brincadeira que virou poesia O Poecodebar surgiu como brincadeira de uma turma de poetas numa mesa de bar em pleno 5 de agosto de 1990. A chuva estava intensa e alguém teve a idéia de rolar um guardanapo entre a mesa para se fazer poemas. Logo, outros guardanapos foram rolados e outros poemas feitos. Se iniciava, assim, a história do Poecodebar. Era Festa das Neves e, depois disso, os encontros se repetiram e em pouco tempo uma grande quantidade de poemas coletivos eram feitos e trabalhados por esses "novos" poetas. Alguém teve a idéia de elaborar uma forma para divulgar o que estava sendo produzido. Surgiu, então, a idéia do Poecodebar, inicialmente nomeado de "Poecodeguar". A idéia de trocar o "guar" pelo "bar" foi de Jomard Muniz de Brito, que até então era o maior incentivador do projeto. Ficou-se então batizado de Poecodebar (que significa, literalmente, Poesias Coletivas em Mesas de Bares) a idéia de lançar um panfleto poético em forma de guardanapo. O primeiro número foi lançado no NAC (Núcleo de Arte Contemporânea), durante o projeto Tempos e Espaços dos Abismos 3, de JMB. O segundo número foi lançado lá, em menos de um mês. O Poecodebar era feito em papel ofício, com textos de apenas os quatro poetas originais do projeto: Alexandre Palitot, Fábio Albuquerque, Linaldo Guedes e Wilton Júnior. Houve uma interrupção no Poecodebar durante mais de um ano. Em março deste ano, reiniciou nos corredores do Decom a paixão de divulgar a poesia feita em mesas de bares, que, às vezes, são mais interessantes do que as feitas em escrivaninhas. Voltou a idéia de produzir mais um Poecodebar. Agora, mais maduro e mais aberto a outros poetas até então escondidos entre garrafas de bares. O número 3 do Poecodebar contém textos de mais cinco poetas da nova geração pessoense. Para comemorar o lançamento, será realizada uma manhã cultural no Decom. (Correio da Paraíba, 29 de julho de 1992) posted by Dionísio e a Revolução do Orgasmo at 8:31 PM 2 Comments |
Date: Sat, 10 Jan 2009 09:23:33 -0800
From: ikar...@yahoo.com.br
Subject: Sobre o movimento poético POECODEBAR nos anos 90
To: fsm_...@googlegroups.com
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